O conto seguinte é uma experimentação para a minha primeira novela, um pouco mais extenso que o habitual. Tomei como inspiração a história de uma mulher, que cruzou meu caminho durante a vida. Assim como qualquer texto do gênero, possui elementos imaginários e eles se misturam no tocante dos meus sonhos, frequentemente revisitados pela
Solidão de Galochas Brancas
Suas mãos pequenas e ásperas arrancavam
a tiririca que tinha tomado o espaço dos tomates, com a agilidade que só a experiência
pode trazer. Mais uma vez, as coisas não estavam dando muito certo na roça. A mosca
tinha tomado sua plantação de abóboras, um tal de ácaro, seu mamoeiro. O
capim-colonião não esperou seu resfriado passar e reinou sobre as hortaliças. “Uma
semana sem trabaiá dá nisso!”. A força que corria em suas veias, feito açoite
que impulsionava a resistência para sobreviver, externava na labuta diária, mas,
de um tempo para cá, a fraqueza era frequente, mostrando sua fragilidade para
as coisas físicas do mundo. A consciência da própria força não a impedia de
enxergar as limitações que a velhice estava trazendo. “Fica véia, pra ver!”. Aquele
mal-estar era novo para ela, diferente de tudo que já teve e pensou até que
poderia ter sido picada por cobra. Levantou-se com calma e olhou para sua roça.
De novo aquela tontura. Já tinha ido ao posto
de saúde quando viu que estava piorando as coisas. Depois de uma bateria de
exames foi embora com a solicitação que voltasse em uma semana. Ela, que adiou
aquele retorno enquanto pode, pois odiava ir à cidade, sentia que agora era inevitável.
“Mais uma semana nessa molenguesa toda e eu não produzo mais nada!”. Há muito
que tinha virado um trabalho de apenas dois braços naquele roçado, que já fora
pequeno demais aos seus olhos, mas à medida que o tempo passava, se estendia em
terra e esforço, enquanto ela só encolhia.
Era uma saga. Era tão longe e cansativo
chegar à cidade, que às vezes, rezava para que o acaso fosse generoso com ela e
naquele meio do mato, aparecesse um carro com algum desconhecido que dissesse
“boa tarde, senhora, estou um pouco perdido, acho que peguei lá na direita da
João Vaz ao invés da esquerda e fui virando e virando e virando para achar a
saída, mas aqui estou, perdido!”. Ela ficaria surpresa e diria “Ora moço, se
acode, tome um café, eu falo pra você como sai daqui” e finalmente, depois do
café, ele diria “por um acaso, a senhora não está indo pra cidade não, né? Se
tiver, faço questão de te dar uma carona!”. E ela mesmo tímida, aceitaria a
carona do estranho, porque ele teria insistido muito. E ao invés de três horas,
ela estaria na cidade em no máximo quarenta minutos.
Tratou de dar comida à Zenaide, sua
égua, à Dorinha, Muvuca e Dadá, suas três vacas e às galinhas, todas sem nome,
que criava com atenção, mas não se apegava ao ponto de batizar para não ter dó
de cozinhar depois. Se banhou e vestiu sua roupa de cidade, uma calça de
elástico azul, com um vestido cor-de-rosa por cima e nos pés, seu único par de
sandálias. Sempre usava nessas ocasiões, uma tiara com pedrinhas brilhantes,
que ganhou da sua filha caçula e por cima, um lenço envolto em toda a cabeça, o
qual usava só até chegar ao ponto de ônibus para acalmar a força do sol. Trazia
consigo uma sacola grande de feira onde havia um par de galochas brancas, uma
trouxinha com marmita e colher e algumas frutas que colheu no seu pomar. Tinha
laranja, mamão, limão, manga, goiaba e alguns moranguinhos embrulhados
delicadamente. As frutas eram para tentar vender depois de passar no posto de
saúde. Ela produzia arroz e feijão, mas o arroz não vingou aquela temporada e
algumas frutas vendidas podiam lhe render um saquinho de arroz até que um de
seus filhos ou netos resolvessem aparecer na roça lhe trazendo suprimentos que
sobravam da casa deles. Ela tinha o costume de trocar com uma amiga produtora
que morava perto, mas, o arroz não estava indo bem para ninguém. Encheu uma
garrafinha de água da bica e quase saindo, lembrou que tinha que levar
documento para poder pegar o ônibus sem pagar e para ser atendida no postinho.
Eram quatro quilômetros até o ponto de
ônibus e isso nunca foi um problema. Estava acostumada a trabalhar muito e
andar era a parte leve da vida que sempre foi dura com ela. Até gostava muito
de fazer aquele caminho, passando pelas outras roças e podendo ver como estavam
os conhecidos, se porventura encontrasse com algum. Nem o peso da sacola ou o
calor faziam a menor diferença para ela, mas aquela fraqueza que estava
frequente naqueles dias, deu um aspecto penoso ao seu caminho. Como ela já
esperava, encontrou a ponte que passava por cima do córrego, coberta por água, que
dado o volume de chuvas dos últimos dias, transbordou naquela que era sua única
passagem. Sentou-se no chão, tirou as sandálias dos pés e vestiu as galochas
brancas. Puxou a calça até a altura dos joelhos e amarrou o vestido na cintura.
Passou pela enxurrada torcendo para não pisar em nenhum buraco formado na ponte
de madeira tomada pelo barro, se não chegaria toda suja à cidade. Não pisou. Atravessou
com alívio, sentou-se novamente no chão num local seco e fez a troca do
calçado. Continuou sua caminhada.
Chegou no ponto de ônibus quase duas
horas depois, num trajeto exaustivo que nunca demorou tanto como naquele dia e
perdeu o ônibus que tinha saído há vinte minutos. “Tomara, Deus, que não seja
cobra”. Tinha demorado demais para procurar o médico e temia que fosse tarde. Então,
lembrou de Seu José que levou uma picada de coral e morreu no mesmo dia, de Taninha,
a neta mais nova de Dona Ilda que perdeu o dedão do pé no mesmo dia que pisou
numa surucucu e em Seu Antenor que foi mordido por jararaca, mas que de tanto
tomar pinga não fez afeito algum no homem, e concluiu então que era improvável
ainda estar viva se tivesse sido cobra, porque não guardava o hábito de tomar
cachaça.
O ônibus passaria dali quarenta minutos
ainda e essa espera a aborrecia. De repente, lembrou de tirar o lenço da cabeça
e ficar só com a tiara brilhante que enfeitava seus cabelos crespos, presos num
coque. Ela tinha em casa um único espelho pequeno de moldura laranja e se
arrependeu de não tê-lo jogado na sacola. Tinha passado um batom vermelho que
tinha em casa há muitos anos, ainda da época que seu marido era vivo e
que sempre dizia a ela ficar “abestado” com aquela boca vermelha. Riu de canto
pensando nele e nos gracejos que fazia.
Depois de morto, magicamente, todo
o ranço que nutria por ele desapareceu. Era um costume dele dizer que precisava ir até a cidade buscar suprimentos, deixando ela e as crianças, sem quase o que comer, na labuta de cuidar dos filhos e do roçado inteiro sozinha.
Depois de dias, voltava trazendo poucas sacolas, como se nada tivesse
acontecido, na maioria das vezes, com roupas sujas e sem dinheiro. O curto que ganhavam, deixava a maior parte nos
bares e puteiros. Todo o sofrimento que ele lhe causava, de forma tão latente
no seu âmago, que por vezes, lhe deu vontade de furá-lo todo no facão enquanto
estivesse dormindo e que só não se cumpriu pela presença das crianças e porque era
totalmente desprovida de imaginação para planejar o que fazer com aquele corpo
imenso, quase três vezes maior que o dela, desfalecido e ensanguentado na cama,
fazia ela retornar à consciência de que aguentar calada seria sua melhor sina. Tudo
isso passou quando ele faleceu. Foi abatido por um mal desconhecido, deixando-o
cada vez mais enfermo, dois meses em cima de uma cama antes de bater as botas.
Ela, que muitas vezes, rogou sua morte em cólera, sentiu um profundo remorso,
pensando que seus pensamentos foram culpados pela sentença do homem e em seus
últimos dias, rogava a Deus para que deixasse ele viver, porque se a vida era
ruim com ele, pior seria sozinha naquele fim de mundo. Deus não quis ouvi-la
dessa vez e, diante do caixão, pensou que não tinha sido com o mesmo fervor
suas súplicas por misericórdia, como foi sua raiva nos pedidos pela morte do
marido. Desse desatino, a partir daquele dia, um diabo velho em sua vida se transformaria
em mártir. E na constância da solidão de sua velhice, depois que os filhos fossem
embora, só conseguiria lembrar dos momentos bons com ele.
O ônibus veio. Ela jurava que aquele
ano seria o último que iria até a cidade, estava muito velha praquilo
tudo. Mal sabia que daquele dia em diante, a cidade seria seu calvário
perpétuo, cujo caminho se faria necessário todos os meses.
Chegou no posto de saúde apresentando a
carteirinha e falando das suas mazelas. A enfermeira aferiu sua pressão
assustada com sua magreza. “A senhora sempre foi magrinha assim? - Sim, fia...
Sempre fui pele e osso mesmo”.
De fato, dos dez irmãos, ela sempre foi
a mais miúda. Sempre foi pequena, magra e a mais reservada entre eles. Quando
seu pai perdeu o emprego num canavieiro, ficaram sem ter para onde ir. Diante
do impasse pela sobrevivência dos filhos, foi dando um a um para os padrinhos
criarem e quando ninguém queria, oferecia para quem pudesse pegar algum para
trabalhar em casa como faxineiro ou ajudante, em troca de teto e comida. Assim
foi com ela. Viveu na casa de uma família dos oito aos quatorze anos, fazendo
de tudo, desde faxina, comida até cuidar dos filhos do casal. Não havia folga. Domingo era só um dia comum. Nem domingo existia, menos ainda, escola. Até o dia que seu irmão mais velho, Vicente, foi lhe buscar. “Vamo
simbora, maninha, vamo buscá nossa própria terra!” Sem escolha entre a liberdade
com luta ou a servidão perpétua, ela e mais cinco irmãos seguiram o mais velho.
Com os pais falecidos e três dos irmãos ainda desaparecidos pelo mundo na distribuição do pai, foram parar no Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Passaram por dois acampamentos com muita
luta e resistência. Era início do movimento, um ambiente hostil e violento.
Mesmo assim, ela viu no mesmo espaço, histórias semelhantes à sua, onde a
escolha não era opção e a luta, inevitável. Com o tempo, aprenderam a deixar de
lado os pequenos conflitos para dar lugar ao fortalecimento de um escudo ao se apoiarem
uns nos outros.
Ali, conheceu seu falecido marido.
Ele era um acampado cheio de gana pela luta da Reforma Agrária. Um homem
grande, parecia um armário, mais forte que a maioria ali. Tinha a voz grave e
sempre falava de forma imponente, com brilho nos olhos, passando os dedos pelo seu bigode. Estava na luta a mais tempo que ela e seus
irmãos e um dia foi um dos beneficiados pela distribuição de terras. Logo, lhe
fez a proposta de casório em troca de sua ajuda com os cuidados do lote. Assim
se fez. Ele, um homem de quase quarenta anos, ela com quinze, juntaram os
trapos e tiveram cinco filhos.
No início, os dois dividiam todas as
tarefas e apesar de terem pouca experiência de conduzir o próprio
roçado, conseguiram se organizar com o tempo e tirar alimento da terra. Apesar
de não o amar, nutria por ele muita admiração pela sua luta e verdade, além de
profunda gratidão por tê-la tirado do acampamento e ter dado a ela a oportunidade
de ter uma família. No início era muito bom. Até que a ninhada de filhos, um
atrás do outro, fez com que a desordem e a multiplicação das bocas para
alimentar criasse um sentimento de insuficiência no coração dele, nutrindo a amargura
a cada dia. Viu, tardiamente, que não era feito para ser pai ou homem de
família e se arrependeu da sua proposta praquela menina. Agora ela e aquele mundaréu de crianças eram a cruz que tinha que carregar por toda a vida e o carinho
e respeito foi dando lugar à intolerância e repulsa. Ela, por sua vez, sempre
acostumada ao desamor, tentava de todas as formas deixá-lo satisfeito,
trabalhando mais e mais, na casa, no roçado, na educação das crianças. Até que
o tempo foi desbastando qualquer recompensa de afeto que ela esperasse e
acostumando a rotina da indiferença e rejeição, fazendo aceitar que ambos teriam
que se tolerar até a morte, porque, de fato, não tinham outra escolha.
Um homem de avental branco passou
apressado pela sala de espera, entrou por uma porta lateral e bateu com força.
Ele era velho e baixo, com a coluna um pouco curvada e usava os cabelos longos presos
por um laço cuja calvície no centro da cabeça era contraditória. Pelas roupas
brancas, ela deduziu que fosse o médico que ainda não tinha chegado e não era o
mesmo que a atendeu na outra ocasião. Depois de alguns minutos, ele começou a
chamar pelo nome do primeiro paciente na sala de espera e não mais que cinco minutos
depois, chamou outro nome e depois outro. “Que bom, vai ser rápido”, ela pensou.
Até que chamou seu nome. Ela foi correndo até lá, se embaralhando com os papeis
e a sacola na sua mão. Era visível que o médico tinha muita pressa. Abriu a
porta e pediu licença. Sem olhá-la, ele apontou com a caneta a cadeira para que
ela se sentasse. “Feche a porta antes de sentar!”. De forma estrambelhada, ela
se ajeitou enquanto ele começou a emendar uma pergunta atrás da outra. “Fuma? -
não”; “Bebe álcool? - não”; “Tem fadiga?” e anotava com letras miúdas no papel
suas respostas. “Porque a senhora tá aqui?”, indagou sem tirar os olhos dos
papeis. “Então, acontece que eu venho sentindo uma fraqueza, um tremor, um
negócio no estongo também, ardência nos zóio, aí eu vim aqui e o outro médico
pediu uns exame”. Ela estendeu o envelope lacrado e o entregou. Ele pegou de
sua mão, abriu e foi lendo rapidamente os documentos, causando nela um
desconforto por não saber o que estava escrito ali. “A senhora veio fazer esses
exames quando?” “Ah! faz um mês mais ou menos...” Pela primeira vez o médico
olhou para ela e após analisar sua feição, não conseguiu esconder a repulsa
pela personificação da pobreza e ignorância que estava em sua frente. Puxou sua
ficha. “A senhora está pesando trinta e quatro quilos! Como pode achar que isso
é normal?” exclamou grosseiramente. Ela, meio desorientada respondeu à pergunta,
pois não entendia que para ele era retórica. “Então, eu falei pra enfermeira, lá
fora, sabe, eu... eu sempre fui miúda mesmo.” Ele, um homem sem paciência e
compaixão, que já tinha visto de tudo naquele e em outros ambientes de trabalho,
de casos mais simples e tratáveis em casa de gente que não saía do posto de
saúde até casos graves que matavam rapidamente, por negligência da pessoa com a
própria vida, descontou nela um ímpeto de fúria que não era dele pra ela, era
dele para o mundo, um misto de frustação por chegar à meia idade cheio de
dívidas, um casamento infeliz que trazia mais custos do que podia ganhar com
plantões. Ele, que chegou atrasado naquele dia, nem queria estar ali. Não
achava justo o rumo que tomou a sua vida, sempre mirando alto, e descendo sem
controle ladeira abaixo, apesar de tanto esforço e trabalho. A frustação
exercia sobre ele um poder envenenador que estragava sua personalidade e que muitos
anos antes, transformou um jovem idealista e ambicioso num intragável ser
humano. “Olha aqui, vou falar de uma vez, que é para a senhora entender. A
senhora é HIV Positivo. A assistente social vai te explicar direito o que é
isso e como tem que tratar. Mas o que a senhora precisa saber é que se não
começar a se tratar de forma séria a partir de hoje, vai morrer, entendeu?” uma
longa pausa de estendeu. Ela não sabia realmente o que era isso, mas entendeu
que iria morrer. “A senhora entendeu a seriedade da situação?” “Sim, eu
entendi”. “Ótimo, vai até a recepção, entrega os papéis que vou pedir pra
enfermeira avisar a assistente social pra te chamar”. Mal ela saiu, ele gritou
outro nome.
Ela se sentou e ficou aguardando. “Então
é isso, vou morrer?” Ela não entendeu muita coisa, na verdade. Ele falou muito
rápido e ela precisava de uma explicação mais lenta, assim como ela. Pensou no
mesmo momento em Zenaide, Dorinha, Muvuca e Dadá. E até nas galinhas e no galo,
quem cuidaria, afinal? Seus filhos tinham deixado a roça há muito tempo,
formado família, cada um num canto. “Tadinho dos bichinho! Talvez Zelda cuide,
já que Muvuca e Dadá ainda dão leite”.
A assistente social, uma moça alta,
bonita, com os cabelos cacheados presos em rabo de cavalo, toda de branco,
chamou seu nome. Ela entrou na sala, desnorteada assim como antes. De forma
calma e delicada, a mulher explicou a ela toda a situação. E quando ela
perguntou se iria morrer pela terceira vez, pela terceira vez, ela explicou
tudo de novo. Na primeira vez, não pode prestar atenção, porque ainda estava
pensando na égua e nas vacas. Na segunda explicação, ela prestou atenção na
moça, mas se distraiu com sua beleza, pensando que ela poderia ser qualquer
coisa que quisesse na vida. Prestou atenção nas suas mãos lisas sobre a mesa,
no seu anel na mão direita e nos seus olhos cor de mel. Sua boca perfeita com a
voz suave, fez ela pensar que nunca foi bonita como aquela moça e nenhuma de
suas filhas tiveram aquela sorte. A moça, que era tão escura quanto ela, com
aquele jeito meigo lhe causou uma afeição materna. Na terceira vez que a moça
explicou, ela conseguiu ouvir. Ouviu sobre a doença, sobre os sintomas, sobre o
tratamento, sobre os medicamentos que ela poderia pegar da farmácia de forma
gratuita. A moça a ensinou marcar com cores os remédios e orientou a farmácia
ao lado do atendimento de como deveriam atendê-la, já que não sabia ler. Depois
de todas as informações que recebeu de uma só vez, como uma tromba d’agua, adicionou
os remédios a sua sacola e saiu.
Sentou-se em uma praça na esquina do
posto digerindo tudo aquilo que ouviu. Abriu a marmita que tinha trazido e
comeu enquanto pensava em tudo. “Nossa, é quase uma AIDS então... Aquela
doença”. Já tinha ouvido falar. E viveu para ouvir que muitas pessoas morreram
rápido depois que descobriram a doença. Mas ela não morreria se tomasse os
remédios certinho, foi o que a moça falou. Agora sabia o que tinha e como
melhorar para voltar a trabalhar no seu roçado. Como a moça tinha explicado, poderia
ser hereditário, não teria como saber, mas por ter manifestado sintomas só
agora, o mais provável era que tivesse sido seu marido, único parceiro que
ela teve, morto há seis anos. E um surto de raiva se apoderou dela quando
lembrou, de repente, das sacanagens daquele homem, que além de desgosto,
conseguiu trazer para casa a desgraceira da sua vida e que mesmo depois de
morto, não deixava ela em paz. E assim, neste momento, o imaculado viraria
novamente cão-tinhoso em sua memória.
Ficou pouco tempo na esquina Freire
Galvão, onde servia de vários ambulantes, na tentativa de vender suas
frutas e voltar com um saco de arroz. Outro ambulante acabou comprando sua
mercadoria para depois revender mais caro, o que a deixou mais que satisfeita, pois queria ir logo embora.
Já na roça, passou na casa da amiga Zelda
e contou a ela tudo que acabara de descobrir. “Mas é segredo, não saia
espalhando!”. É que ela não saberia explicar pra ninguém como a moça de branco e
isso tudo era motivo de muita vergonha. Nem seus filhos saberiam - decidiu. Tomaram um café, comeram um bolo de
fubá e trocaram a cumplicidade com as mazelas dos maridos, ainda que ela
achasse que Zelda reclamasse à toa, pois Seu Antenor não parava um minuto de
trabalhar, mesmo com a cachacinha diária.
Despediu-se e foi embora para o seu
canto, passando pelo ritual de tirar as sandálias e colocar as galochas brancas
para atravessar a ponte, sem sorte desta vez, porém, quando meteu um dos pés num
buraco fazendo entrar água pela abertura da bota e molhando toda a sua perna
esquerda. “Diacho, já não basta todo esse carma?”.
Já escurecia quando chegou em casa,
aliviada, como um sabiá volta para o ninho. Tudo estava exatamente como deixou. As galinhas já dormiam, deu uma verificada rápida do curral e entrou. Esquentou o ensopado no fogão à lenha e depois um chá de sálvia.
Olhou
aquele céu estrelado que só a roça podia lhe proporcionar e na completa solidão
da sua cadeira de balanço, bebeu o chá pensando sobre como seria morrer. Ela tinha medo. Medo de sentir dor. Medo dos bichos morrerem de fome e sede sem ela. De ficar muito tempo ali, apodrecendo, sem ninguém dar conta que ela se foi. Medo de comentarem depois sobre como demoraram pra achar o corpo e ficar conhecida pela podridão de um cadáver esquecido. Sentiu um frio na espinha e beijou a ponta da cruz, no terço envolto no seu pescoço - "Deus me livre!". Como
era doce e suave sentir aquele chá quente descer pela sua garganta e forrar seu
estômago! Como era bonito aquele céu... De um lado para o outro, como quem se ninando naquela cadeira de balanço, concluiu que talvez morrer fosse
muito vazio, das coisas que na vida se sente.