segunda-feira, 30 de março de 2026

Me perdoe, Sah!

Tenho sofrido, com certa dignidade, por saber da pasta subestimada que passam em meu pão. Acalento essa dor, de lembrar de erros bobos que cometo e de pensar no tanto que sou capaz e aqui me encontro, estagnada. No final das contas, é só a frustração generalizada de uma memória juvenil que já quis salvar o mundo. 

Passei dessa fase, aliás. Desde que assisti Pobres Criaturas e vi a Bela, belamente interpretada pela Emma Stone, se despedaçar ao ver crianças morrendo de fome, tive uma sensação de cumplicidade com o momento. Sofri por perder a inocência tanto quanto e aceitei que o mundo é cruel. Hoje, caminhando rumo à frustração da meia idade sem grandes virtudes, me pego pensando em dinheiro (ou a falta dele), mais do que acho justo de mim.

Ontem, uma amiga me disse "dá pra entender quem se droga". Sim! Dá mesmo. Está um tanto dificultoso caminhar por essa vida, que parece cada dia mais distante da harmonia que um dia eu quis pra mim e para todo mundo. Além disso, me pego no auge dos meus trinta e tantos anos sem entender ainda meu ciclo menstrual. Com a ajuda de tecnologia barata, acompanho há dois anos as luas do meu corpo, marcando cada passo e sintomas, os dias que vem e que param de vir, as dores de cabeça e o mau humor, na esperança de entender minha própria máquina viva, até agora sem sucesso. Não há lógica nem nos atrasos. Um ciclo totalmente descompensado que nenhum exame de rotina foi capaz de entender. Então tá. Vou aceitar, então. O tempo pode me punir por usar por tantos anos anticoncepcional. 

Assim, sigo, desconfiando de mim mesma. Parece que a qualquer momento que eu me descuidar, ele vai dar o bote e me fazer gerar uma criança, já que eu não consigo controlar naturalmente sua rotina, o jeito é viver redobrando o cuidado. Não dá pra relaxar e gozar!

Tenho perdido muito tempo como coisas fúteis e me pego pensando se é pra vida passar mais rápido que faço isso. As vezes, não vejo outro sentido pra viver de forma melhor, mesmo sabendo que há outros caminhos. 

Minhas desilusões são comigo mesma. Eu fracasso com aquela jovem que fui. Certa saudade me bate da energia que colocava em coisas com propósito.

Esse ano me coloquei dois desafios, o primeiro, de ler um livro a cada quinze dias, como eu fazia naquela época. O outro, de aprender outra língua. Estou fracassando miseravelmente nessas duas áreas, apesar de todos os dias pensar nisso. É uma retroalimentação do fracasso da alma, de quem não tem forças nem motivação pra ser uma pessoa melhor. 

Quando eu era jovem, achava os adultos muito passivos em relação ao mundo. Sim, posso sentir isso agora. Me tornei isso, desse modo nada sutil. 

Então, me encontro ancorada numa vida de poucas vibrações. Sinto minha energia boa sendo sugada a cada dia pela força do trabalho capitalista que me toma bastante do tempo, enquanto perco outra parte do tempo que me resta com coisas nada construtivas, colocando em carrinhos de compra bobagens sem  fim, largando os carrinhos cheios de um aplicativo pra outo, vendo a vida passar de forma miserável. Ostracismo fiel que me rouba a cada dia a memória e a capacidade de aprender. 

Entendo a revolta daquela jovem que fui com os adultos e sofro no espelho olhando resquícios dela se apagando.

Não sei mais se posso resgatá-la.

Me peguei fazendo uma coisa horrível pra essa menina que um dia fui. Tomei remédios para dormir. E eu preferi dormir! Eu me forcei a apagar, não só porque precisava descansar: caí na lama do desespero dos aflitos, na janela dos afogados, naquele lugar preocupante que é o de preferir estar dormindo que acordada.

É mais trágico que triste, garanto. 

A vida é tragédia mesmo. E não dá pra fugir. Todo mundo uma hora, solta a mão de todo mundo. 





 

terça-feira, 12 de março de 2024

Solidão de Galochas Brancas

 O conto seguinte é uma experimentação para a minha primeira novela, um pouco mais extenso que o habitual. Tomei como inspiração a história de uma mulher, que cruzou meu caminho durante a vida. Assim como qualquer texto do gênero, possui elementos imaginários e eles se misturam no tocante dos meus sonhos, frequentemente revisitados pela


                                                           Solidão de Galochas Brancas


Suas mãos pequenas e ásperas arrancavam a tiririca que tinha tomado o espaço dos tomates, com a agilidade que só a experiência pode trazer. Mais uma vez, as coisas não estavam dando muito certo na roça. A mosca tinha tomado sua plantação de abóboras, um tal de ácaro, seu mamoeiro. O capim-colonião não esperou seu resfriado passar e reinou sobre as hortaliças. “Uma semana sem trabaiá dá nisso!”. A força que corria em suas veias, feito açoite que impulsionava a resistência para sobreviver, externava na labuta diária, mas, de um tempo para cá, a fraqueza era frequente, mostrando sua fragilidade para as coisas físicas do mundo. A consciência da própria força não a impedia de enxergar as limitações que a velhice estava trazendo. “Fica véia, pra ver!”. Aquele mal-estar era novo para ela, diferente de tudo que já teve e pensou até que poderia ter sido picada por cobra. Levantou-se com calma e olhou para sua roça. De novo aquela tontura.  Já tinha ido ao posto de saúde quando viu que estava piorando as coisas. Depois de uma bateria de exames foi embora com a solicitação que voltasse em uma semana. Ela, que adiou aquele retorno enquanto pode, pois odiava ir à cidade, sentia que agora era inevitável. “Mais uma semana nessa molenguesa toda e eu não produzo mais nada!”. Há muito que tinha virado um trabalho de apenas dois braços naquele roçado, que já fora pequeno demais aos seus olhos, mas à medida que o tempo passava, se estendia em terra e esforço, enquanto ela só encolhia.

Era uma saga. Era tão longe e cansativo chegar à cidade, que às vezes, rezava para que o acaso fosse generoso com ela e naquele meio do mato, aparecesse um carro com algum desconhecido que dissesse “boa tarde, senhora, estou um pouco perdido, acho que peguei lá na direita da João Vaz ao invés da esquerda e fui virando e virando e virando para achar a saída, mas aqui estou, perdido!”. Ela ficaria surpresa e diria “Ora moço, se acode, tome um café, eu falo pra você como sai daqui” e finalmente, depois do café, ele diria “por um acaso, a senhora não está indo pra cidade não, né? Se tiver, faço questão de te dar uma carona!”. E ela mesmo tímida, aceitaria a carona do estranho, porque ele teria insistido muito. E ao invés de três horas, ela estaria na cidade em no máximo quarenta minutos.

Tratou de dar comida à Zenaide, sua égua, à Dorinha, Muvuca e Dadá, suas três vacas e às galinhas, todas sem nome, que criava com atenção, mas não se apegava ao ponto de batizar para não ter dó de cozinhar depois. Se banhou e vestiu sua roupa de cidade, uma calça de elástico azul, com um vestido cor-de-rosa por cima e nos pés, seu único par de sandálias. Sempre usava nessas ocasiões, uma tiara com pedrinhas brilhantes, que ganhou da sua filha caçula e por cima, um lenço envolto em toda a cabeça, o qual usava só até chegar ao ponto de ônibus para acalmar a força do sol. Trazia consigo uma sacola grande de feira onde havia um par de galochas brancas, uma trouxinha com marmita e colher e algumas frutas que colheu no seu pomar. Tinha laranja, mamão, limão, manga, goiaba e alguns moranguinhos embrulhados delicadamente. As frutas eram para tentar vender depois de passar no posto de saúde. Ela produzia arroz e feijão, mas o arroz não vingou aquela temporada e algumas frutas vendidas podiam lhe render um saquinho de arroz até que um de seus filhos ou netos resolvessem aparecer na roça lhe trazendo suprimentos que sobravam da casa deles. Ela tinha o costume de trocar com uma amiga produtora que morava perto, mas, o arroz não estava indo bem para ninguém. Encheu uma garrafinha de água da bica e quase saindo, lembrou que tinha que levar documento para poder pegar o ônibus sem pagar e para ser atendida no postinho.

Eram quatro quilômetros até o ponto de ônibus e isso nunca foi um problema. Estava acostumada a trabalhar muito e andar era a parte leve da vida que sempre foi dura com ela. Até gostava muito de fazer aquele caminho, passando pelas outras roças e podendo ver como estavam os conhecidos, se porventura encontrasse com algum. Nem o peso da sacola ou o calor faziam a menor diferença para ela, mas aquela fraqueza que estava frequente naqueles dias, deu um aspecto penoso ao seu caminho. Como ela já esperava, encontrou a ponte que passava por cima do córrego, coberta por água, que dado o volume de chuvas dos últimos dias, transbordou naquela que era sua única passagem. Sentou-se no chão, tirou as sandálias dos pés e vestiu as galochas brancas. Puxou a calça até a altura dos joelhos e amarrou o vestido na cintura. Passou pela enxurrada torcendo para não pisar em nenhum buraco formado na ponte de madeira tomada pelo barro, se não chegaria toda suja à cidade. Não pisou. Atravessou com alívio, sentou-se novamente no chão num local seco e fez a troca do calçado. Continuou sua caminhada.

Chegou no ponto de ônibus quase duas horas depois, num trajeto exaustivo que nunca demorou tanto como naquele dia e perdeu o ônibus que tinha saído há vinte minutos. “Tomara, Deus, que não seja cobra”. Tinha demorado demais para procurar o médico e temia que fosse tarde. Então, lembrou de Seu José que levou uma picada de coral e morreu no mesmo dia, de Taninha, a neta mais nova de Dona Ilda que perdeu o dedão do pé no mesmo dia que pisou numa surucucu e em Seu Antenor que foi mordido por jararaca, mas que de tanto tomar pinga não fez afeito algum no homem, e concluiu então que era improvável ainda estar viva se tivesse sido cobra, porque não guardava o hábito de tomar cachaça.

O ônibus passaria dali quarenta minutos ainda e essa espera a aborrecia. De repente, lembrou de tirar o lenço da cabeça e ficar só com a tiara brilhante que enfeitava seus cabelos crespos, presos num coque. Ela tinha em casa um único espelho pequeno de moldura laranja e se arrependeu de não tê-lo jogado na sacola. Tinha passado um batom vermelho que tinha em casa há muitos anos, ainda da época que seu marido era vivo e que sempre dizia a ela ficar “abestado” com aquela boca vermelha. Riu de canto pensando nele e nos gracejos que fazia.

Depois de morto, magicamente, todo o ranço que nutria por ele desapareceu. Era um costume dele dizer que precisava ir até a cidade buscar suprimentos, deixando ela e as crianças, sem quase o que comer, na labuta de cuidar dos filhos e do roçado inteiro sozinha. Depois de dias, voltava trazendo poucas sacolas, como se nada tivesse acontecido, na maioria das vezes, com roupas sujas e sem dinheiro. O curto que ganhavam, deixava a maior parte nos bares e puteiros. Todo o sofrimento que ele lhe causava, de forma tão latente no seu âmago, que por vezes, lhe deu vontade de furá-lo todo no facão enquanto estivesse dormindo e que só não se cumpriu pela presença das crianças e porque era totalmente desprovida de imaginação para planejar o que fazer com aquele corpo imenso, quase três vezes maior que o dela, desfalecido e ensanguentado na cama, fazia ela retornar à consciência de que aguentar calada seria sua melhor sina. Tudo isso passou quando ele faleceu. Foi abatido por um mal desconhecido, deixando-o cada vez mais enfermo, dois meses em cima de uma cama antes de bater as botas. Ela, que muitas vezes, rogou sua morte em cólera, sentiu um profundo remorso, pensando que seus pensamentos foram culpados pela sentença do homem e em seus últimos dias, rogava a Deus para que deixasse ele viver, porque se a vida era ruim com ele, pior seria sozinha naquele fim de mundo. Deus não quis ouvi-la dessa vez e, diante do caixão, pensou que não tinha sido com o mesmo fervor suas súplicas por misericórdia, como foi sua raiva nos pedidos pela morte do marido. Desse desatino, a partir daquele dia, um diabo velho em sua vida se transformaria em mártir. E na constância da solidão de sua velhice, depois que os filhos fossem embora, só conseguiria lembrar dos momentos bons com ele.

O ônibus veio. Ela jurava que aquele ano seria o último que iria até a cidade, estava muito velha praquilo tudo. Mal sabia que daquele dia em diante, a cidade seria seu calvário perpétuo, cujo caminho se faria necessário todos os meses.

Chegou no posto de saúde apresentando a carteirinha e falando das suas mazelas. A enfermeira aferiu sua pressão assustada com sua magreza. “A senhora sempre foi magrinha assim? - Sim, fia... Sempre fui pele e osso mesmo”.

De fato, dos dez irmãos, ela sempre foi a mais miúda. Sempre foi pequena, magra e a mais reservada entre eles. Quando seu pai perdeu o emprego num canavieiro, ficaram sem ter para onde ir. Diante do impasse pela sobrevivência dos filhos, foi dando um a um para os padrinhos criarem e quando ninguém queria, oferecia para quem pudesse pegar algum para trabalhar em casa como faxineiro ou ajudante, em troca de teto e comida. Assim foi com ela. Viveu na casa de uma família dos oito aos quatorze anos, fazendo de tudo, desde faxina, comida até cuidar dos filhos do casal. Não havia folga. Domingo era só um dia comum. Nem domingo existia, menos ainda, escola. Até o dia que seu irmão mais velho, Vicente, foi lhe buscar. “Vamo simbora, maninha, vamo buscá nossa própria terra!” Sem escolha entre a liberdade com luta ou a servidão perpétua, ela e mais cinco irmãos seguiram o mais velho.

Com os pais falecidos e três dos irmãos ainda desaparecidos pelo mundo na distribuição do pai, foram parar no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Passaram por dois acampamentos com muita luta e resistência. Era início do movimento, um ambiente hostil e violento. Mesmo assim, ela viu no mesmo espaço, histórias semelhantes à sua, onde a escolha não era opção e a luta, inevitável. Com o tempo, aprenderam a deixar de lado os pequenos conflitos para dar lugar ao fortalecimento de um escudo ao se apoiarem uns nos outros.

Ali, conheceu seu falecido marido. Ele era um acampado cheio de gana pela luta da Reforma Agrária. Um homem grande, parecia um armário, mais forte que a maioria ali. Tinha a voz grave e sempre falava de forma imponente, com brilho nos olhos, passando os dedos pelo seu bigode. Estava na luta a mais tempo que ela e seus irmãos e um dia foi um dos beneficiados pela distribuição de terras. Logo, lhe fez a proposta de casório em troca de sua ajuda com os cuidados do lote. Assim se fez. Ele, um homem de quase quarenta anos, ela com quinze, juntaram os trapos e tiveram cinco filhos.

No início, os dois dividiam todas as tarefas e apesar de terem pouca experiência de conduzir o próprio roçado, conseguiram se organizar com o tempo e tirar alimento da terra. Apesar de não o amar, nutria por ele muita admiração pela sua luta e verdade, além de profunda gratidão por tê-la tirado do acampamento e ter dado a ela a oportunidade de ter uma família. No início era muito bom. Até que a ninhada de filhos, um atrás do outro, fez com que a desordem e a multiplicação das bocas para alimentar criasse um sentimento de insuficiência no coração dele, nutrindo a amargura a cada dia. Viu, tardiamente, que não era feito para ser pai ou homem de família e se arrependeu da sua proposta praquela menina. Agora ela e aquele mundaréu de crianças eram a cruz que tinha que carregar por toda a vida e o carinho e respeito foi dando lugar à intolerância e repulsa. Ela, por sua vez, sempre acostumada ao desamor, tentava de todas as formas deixá-lo satisfeito, trabalhando mais e mais, na casa, no roçado, na educação das crianças. Até que o tempo foi desbastando qualquer recompensa de afeto que ela esperasse e acostumando a rotina da indiferença e rejeição, fazendo aceitar que ambos teriam que se tolerar até a morte, porque, de fato, não tinham outra escolha.

Um homem de avental branco passou apressado pela sala de espera, entrou por uma porta lateral e bateu com força. Ele era velho e baixo, com a coluna um pouco curvada e usava os cabelos longos presos por um laço cuja calvície no centro da cabeça era contraditória. Pelas roupas brancas, ela deduziu que fosse o médico que ainda não tinha chegado e não era o mesmo que a atendeu na outra ocasião. Depois de alguns minutos, ele começou a chamar pelo nome do primeiro paciente na sala de espera e não mais que cinco minutos depois, chamou outro nome e depois outro. “Que bom, vai ser rápido”, ela pensou. Até que chamou seu nome. Ela foi correndo até lá, se embaralhando com os papeis e a sacola na sua mão. Era visível que o médico tinha muita pressa. Abriu a porta e pediu licença. Sem olhá-la, ele apontou com a caneta a cadeira para que ela se sentasse. “Feche a porta antes de sentar!”. De forma estrambelhada, ela se ajeitou enquanto ele começou a emendar uma pergunta atrás da outra. “Fuma? - não”; “Bebe álcool? - não”; “Tem fadiga?” e anotava com letras miúdas no papel suas respostas. “Porque a senhora tá aqui?”, indagou sem tirar os olhos dos papeis. “Então, acontece que eu venho sentindo uma fraqueza, um tremor, um negócio no estongo também, ardência nos zóio, aí eu vim aqui e o outro médico pediu uns exame”. Ela estendeu o envelope lacrado e o entregou. Ele pegou de sua mão, abriu e foi lendo rapidamente os documentos, causando nela um desconforto por não saber o que estava escrito ali. “A senhora veio fazer esses exames quando?” “Ah! faz um mês mais ou menos...” Pela primeira vez o médico olhou para ela e após analisar sua feição, não conseguiu esconder a repulsa pela personificação da pobreza e ignorância que estava em sua frente. Puxou sua ficha. “A senhora está pesando trinta e quatro quilos! Como pode achar que isso é normal?” exclamou grosseiramente. Ela, meio desorientada respondeu à pergunta, pois não entendia que para ele era retórica. “Então, eu falei pra enfermeira, lá fora, sabe, eu... eu sempre fui miúda mesmo.” Ele, um homem sem paciência e compaixão, que já tinha visto de tudo naquele e em outros ambientes de trabalho, de casos mais simples e tratáveis em casa de gente que não saía do posto de saúde até casos graves que matavam rapidamente, por negligência da pessoa com a própria vida, descontou nela um ímpeto de fúria que não era dele pra ela, era dele para o mundo, um misto de frustação por chegar à meia idade cheio de dívidas, um casamento infeliz que trazia mais custos do que podia ganhar com plantões. Ele, que chegou atrasado naquele dia, nem queria estar ali. Não achava justo o rumo que tomou a sua vida, sempre mirando alto, e descendo sem controle ladeira abaixo, apesar de tanto esforço e trabalho. A frustação exercia sobre ele um poder envenenador que estragava sua personalidade e que muitos anos antes, transformou um jovem idealista e ambicioso num intragável ser humano. “Olha aqui, vou falar de uma vez, que é para a senhora entender. A senhora é HIV Positivo. A assistente social vai te explicar direito o que é isso e como tem que tratar. Mas o que a senhora precisa saber é que se não começar a se tratar de forma séria a partir de hoje, vai morrer, entendeu?” uma longa pausa de estendeu. Ela não sabia realmente o que era isso, mas entendeu que iria morrer. “A senhora entendeu a seriedade da situação?” “Sim, eu entendi”. “Ótimo, vai até a recepção, entrega os papéis que vou pedir pra enfermeira avisar a assistente social pra te chamar”. Mal ela saiu, ele gritou outro nome.

Ela se sentou e ficou aguardando. “Então é isso, vou morrer?” Ela não entendeu muita coisa, na verdade. Ele falou muito rápido e ela precisava de uma explicação mais lenta, assim como ela. Pensou no mesmo momento em Zenaide, Dorinha, Muvuca e Dadá. E até nas galinhas e no galo, quem cuidaria, afinal? Seus filhos tinham deixado a roça há muito tempo, formado família, cada um num canto. “Tadinho dos bichinho! Talvez Zelda cuide, já que Muvuca e Dadá ainda dão leite”.

A assistente social, uma moça alta, bonita, com os cabelos cacheados presos em rabo de cavalo, toda de branco, chamou seu nome. Ela entrou na sala, desnorteada assim como antes. De forma calma e delicada, a mulher explicou a ela toda a situação. E quando ela perguntou se iria morrer pela terceira vez, pela terceira vez, ela explicou tudo de novo. Na primeira vez, não pode prestar atenção, porque ainda estava pensando na égua e nas vacas. Na segunda explicação, ela prestou atenção na moça, mas se distraiu com sua beleza, pensando que ela poderia ser qualquer coisa que quisesse na vida. Prestou atenção nas suas mãos lisas sobre a mesa, no seu anel na mão direita e nos seus olhos cor de mel. Sua boca perfeita com a voz suave, fez ela pensar que nunca foi bonita como aquela moça e nenhuma de suas filhas tiveram aquela sorte. A moça, que era tão escura quanto ela, com aquele jeito meigo lhe causou uma afeição materna. Na terceira vez que a moça explicou, ela conseguiu ouvir. Ouviu sobre a doença, sobre os sintomas, sobre o tratamento, sobre os medicamentos que ela poderia pegar da farmácia de forma gratuita. A moça a ensinou marcar com cores os remédios e orientou a farmácia ao lado do atendimento de como deveriam atendê-la, já que não sabia ler. Depois de todas as informações que recebeu de uma só vez, como uma tromba d’agua, adicionou os remédios a sua sacola e saiu.

Sentou-se em uma praça na esquina do posto digerindo tudo aquilo que ouviu. Abriu a marmita que tinha trazido e comeu enquanto pensava em tudo. “Nossa, é quase uma AIDS então... Aquela doença”. Já tinha ouvido falar. E viveu para ouvir que muitas pessoas morreram rápido depois que descobriram a doença. Mas ela não morreria se tomasse os remédios certinho, foi o que a moça falou. Agora sabia o que tinha e como melhorar para voltar a trabalhar no seu roçado. Como a moça tinha explicado, poderia ser hereditário, não teria como saber, mas por ter manifestado sintomas só agora, o mais provável era que tivesse sido seu marido, único parceiro que ela teve, morto há seis anos. E um surto de raiva se apoderou dela quando lembrou, de repente, das sacanagens daquele homem, que além de desgosto, conseguiu trazer para casa a desgraceira da sua vida e que mesmo depois de morto, não deixava ela em paz. E assim, neste momento, o imaculado viraria novamente cão-tinhoso em sua memória.

Ficou pouco tempo na esquina Freire Galvão, onde servia de vários ambulantes, na tentativa de vender suas frutas e voltar com um saco de arroz. Outro ambulante acabou comprando sua mercadoria para depois revender mais caro, o que a deixou mais que satisfeita, pois queria ir logo embora.

Já na roça, passou na casa da amiga Zelda e contou a ela tudo que acabara de descobrir. “Mas é segredo, não saia espalhando!”. É que ela não saberia explicar pra ninguém como a moça de branco e isso tudo era motivo de muita vergonha. Nem seus filhos saberiam - decidiu. Tomaram um café, comeram um bolo de fubá e trocaram a cumplicidade com as mazelas dos maridos, ainda que ela achasse que Zelda reclamasse à toa, pois Seu Antenor não parava um minuto de trabalhar, mesmo com a cachacinha diária.

Despediu-se e foi embora para o seu canto, passando pelo ritual de tirar as sandálias e colocar as galochas brancas para atravessar a ponte, sem sorte desta vez, porém, quando meteu um dos pés num buraco fazendo entrar água pela abertura da bota e molhando toda a sua perna esquerda. “Diacho, já não basta todo esse carma?”.

Já escurecia quando chegou em casa, aliviada, como um sabiá volta para o ninho. Tudo estava exatamente como deixou. As galinhas já dormiam, deu uma verificada rápida do curral e entrou. Esquentou o ensopado no fogão à lenha e depois um chá de sálvia. 

Olhou aquele céu estrelado que só a roça podia lhe proporcionar e na completa solidão da sua cadeira de balanço, bebeu o chá pensando sobre como seria morrer. Ela tinha medo. Medo de sentir dor. Medo dos bichos morrerem de fome e sede sem ela. De ficar muito tempo ali, apodrecendo, sem ninguém dar conta que ela se foi. Medo de comentarem depois sobre como demoraram pra achar o corpo e ficar conhecida pela podridão de um cadáver esquecido. Sentiu um frio na espinha e beijou a ponta da cruz, no terço envolto no seu pescoço - "Deus me livre!". Como era doce e suave sentir aquele chá quente descer pela sua garganta e forrar seu estômago! Como era bonito aquele céu... De um lado para o outro, como quem se ninando naquela cadeira de balanço, concluiu que talvez morrer fosse muito vazio, das coisas que na vida se sente.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

COSTUME DE COMPAIXÃO

 Zé Prosópio – que se conta, daquelas bandas escondidas no meio do caminho para as Bahias de todos os Santos.  De que viveu, ali, um homem medíocre chamado José Prosópio, que por força do sobrenome na laia de quem tem berço, mesmo sendo feito da palhada de milho chamuscada, ficou Zé, mas não perdeu o Prosópio.

Nasceu naquela época sem televisão e muita enxada, da ordem das parteiras trabalhadoras, único filho homem depois de cinco meninas. Teve a chance de nascer na cidade, onde seu pai, mesmo sitiante, vivente do roçado e do garimpo, comprou uma casinha em frente a praça mais badalada da cidade, onde habitavam festas anuais do pião e da cachaça. Zé Prosópio, por assim, ser quase o único entre todos os amigos da idade que não pegava carro do leite para ir para a escola, que morava perto da pracinha da cidade e por ser único filho homem e caçula, foi desobrigado de trabalhar criança, com a penhora de que isso renderia nos estudos. Era sua única obrigação como filho de Seu Arnaldo. Além disso, o único que pôde estudar, já que menina não precisa ser letrada para conseguir casamento feliz e o dinheiro reservado era mesmo só para a esperança de um.

Cresceu sendo essa promessa e quase uma ameaça de que sua obrigação era ser alguém na vida. E tentou. Cresceu e cursou engenharia numa das melhores universidades do Estado. Sustentado pelo velho lavrador, só voltava para casa nas férias, época de ostentar aos amigos roceiros, uma vida completamente desconhecida que jamais alcançariam. Esnobe de carteirinha, só lhe tinha por iguais, o pessoal da faculdade. Depois de seis anos, voltou doutor com seu anel reluzente no dedo e aos poucos, perdeu contato com os amigos que fez por lá.

Zé Prosópio tinha uma personalidade singular. Dono de uma devoção ao culto e tudo que era oculto que surgia, devorou ao longo dos anos, livros e jornais que o tornavam cada vez mais incomunicável com seu povo e por se distanciar tanto da sua essência, se viu um dia falando sozinho sobre coisas complexas da vida. Muita informação sobre tudo, tirou seu eixo engrenador, coisa essencial para arrumar um emprego e se ajeitar. Não parava em lugar nenhum e tinha sempre um projeto arquitetado na cabeça. Sempre que lhe perguntavam, estava sócio de algum empreendimento novo que não durava dois verões, com prazos de vencimento menores que o lucro previsto. Da arte de criar e recriar, sem eira, nem beira, nem o principal que era renda, bendita que foi, a aposentadoria do seu velho pai, agora com todas as filhas bem-casadas e com suas próprias histórias traçadas, o velho acolheu de volta seu filho doutor-sonhador em casa.

Desse finco de desatino nem mesmo conseguiu namorar alguém. Teve pelas bandas da faculdade uma moça que se interessou por ele, com seu jeito galante de falar sobre as estrelas, política, coisa e tal. Tirou seus primeiros beijos e logo o gozo de se ter uma mulher. Mas, nada durou. Sua sociopatia nata repeliu a moça poucos meses depois, que apesar de ansiar por um amor verdadeiro, também era estudada e tinha opções interessantes naquela grande universidade. Depois disso, amores fúteis na penumbra, com um bom pagamento seguido da satisfação.

Com pai e mãe, vivendo na mesma casinha em frente a praça, Zé Prosópio reinventava a cada dia uma matilha de projetos cheios de esperança de dinheiro fácil e desconexos com a realidade. Ali, envelheceu. Ninguém sabe como, mas de certo, fruto das maracutaias em que se metia, Zé Prosópio aposentou sem nunca nem ter carteira assinada. Não se submetia a trabalhar para os outros, afinal, era inteligente demais para servir aos tolos. A mesma lógica não lhe calhava para viver às custas do governo. Dali tirou o sustento das migalhas que comia enquanto sentado no banco em frente a praça, balbuciava sozinho sobre a Constelação de Órion, depois da partida dos pais roceiros. Ignorava a todos. Conselhos das irmãs mais velhas ou atenção aos sobrinhos. A vida alheia lhe parecia simplória, demasiadamente entediante diante da imensidão do universo e novidades do mundo.

Praguejava sobre a festa da cachaça, sobre a banalidade da ocasião, mas em seu íntimo, gostava do momento, que era a chance de rever velhos conhecidos, trocar poucas palavras e expor um pouco de suas ideias, as quais o mundo precisava conhecer.

Meu pai conhecia Zé Prosópio. Mas, diferente dele, só conseguiu sair da roça com dezesseis anos. Deixou aquela cidade com a ajuda dos padrinhos e alçou mundos e fundos para estudar um pouco mais do que o destino impusera. Ao fim, nunca cursou a universidade, se casou, teve três filhos, passa bem. Um dia, no roteiro daquelas visitas anuais aos parentes que nunca se foram daquela cidadezinha, quis me apresentar a Zé Prosópio. Eu, criança, aceitava acompanhar as andanças do meu pai pela cidade, sempre de olho numa sorveteria em frente àquela praça, que cativava minha obediência. Lembro de lamber o sorvete que escorria pelos meus dedinhos, enquanto meu pai segurava minha outra mão. Lembro do completo desprezo de Zé Prosópio por minha existência, enquanto falava sobre projetos infindos que se meteu, com esperança nos olhos, voz de veludo e um vocabulário incompreensível. Em ocasiões posteriores, enquanto crescia, acompanhei meu velho até perceber a completa falta de empatia de Zé Prosópio por meu pai e de certo, me causando tormenta naquelas visitas. Morávamos em outro estado, as visitas à cidadezinha aconteciam apenas uma vez por ano e com tantos parentes para ver, daqueles que se enchiam de alegria ao ver meu pai, forrando mesas fortunadas de café, bolos e biscoitos para compartilhar sua companhia, perdíamos certo tempo ali, de pé, de frente àquela praça, dando ouvidos a quem mal lhe tinha alguma feição. Perguntei a meu pai o porquê de ainda visitar aquele homem, explicando o quanto eu via naquilo, uma verdadeira desventura no nosso passeio. Com toda paciência, meu pai me explicou.

Contou sobre um menino brincalhão que falava sobre as estrelas e de como o mundo era grande. Que produzia as melhores brincadeiras e sempre repartia os lanches com ele na escola. Muitas vezes, era tudo que meu pai comia durante um longo período e o menino, quando percebeu isso, sempre dava a ele o pedaço maior, quando não, dava tudo que tinha. Contou quando o menino apanhou mais que ele numa briga de escola, tentando defendê-lo. De certo, aquele menino um dia se perdeu. Na verdade, ele foi afastado da simplicidade da vida para virar um solitário doutor lunático. Talvez, não fizesse mesmo a menor diferença estarmos ali. Era tão desconexo da realidade e das pessoas, que era impossível saber. Mas, talvez, e somente talvez, ele ficasse esperando todos os anos um amigo vir de longe. Não tinha capacidade nem sensibilidade para oferecer uma xícara de café. Mas, pode ser, que as melhores ideias, ele guardava para contar ao meu pai. Ideias descabíveis, sem fundamentos, que ninguém mais tinha tempo ou paciência para perder ouvindo. Talvez, e apenas, talvez, ele aguardasse alguém, que afortunadamente não vivia apenas de banquetas na praça e em muita vida que tinha para viver, dedicava algumas horas para ouvi-lo.

Para Zé Prosópio, nunca saberemos. Mas, para o meu pai, as visitas, afinal, eram um costume de compaixão.