quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Minha Primeira Viagem Sozinha

Eu tinha acabado de fazer dezoito anos. Parece que a gente espera uma vida inteira até ter dezoito! Ainda que a gente não faça nada de especial, há um prazer diferente de aniversariar: o mistério e o orgulho de ser “maior de idade” e as promessas que tem cheiro de independência.

“Vou viajar sozinha!” - Foi a primeira coisa que pensei. E como uma luva, a oportunidade veio com um amigo de um amigo.

Era uma excursão bem diferente. Organizada por uma ordem de freiras da Igreja Católica, a proposta era uma jornada espiritual. Seguindo os preceitos de Francisco de Assis, o intuito era um encontro pessoal com o "eu" interior de cada um. Se conhecer e reconhecer através dos sentidos. Eu achei a proposta boa, sempre fui admiradora de Francisco, era um bom desafio e barato: só pagaria o transporte que na época ficou por volta de oitenta reais. Os cinco dias de jornada com alimentação e hospedagem não teriam custos. Mais tarde eu entenderia o porquê.

É incrível pensar que com essa idade eu já não causei nenhuma preocupação aos meus pais. Eu morava com eles, mas há algum tempo criava minha independência nas atitudes. Quando falei que queria viajar foi quase como uma afirmação e não um pedido.  “Se cuida” – disseram.

Procurei uma das irmãs e me inscrevi. Era uma mulher bem velha, baixinha, com o andar vagaroso e a voz doce. Ela recomendou:
- Essa é uma viagem que tem gosto de terra molhada, de libertação. Leve algum dinheiro, mas não se preocupe com isso. Lá é muito quente, leve muito protetor solar, boné, roupas confortáveis e um bom tênis de caminhada: você irá andar bastante. E o mais importante: leve na mala apenas o essencial! Leve aquilo que é realmente indispensável pra sua existência e vá de alma aberta a receber tudo que essa viagem tem pra lhe proporcionar!
Então eu fui. Saí do interior de São Paulo num ônibus fretado sentido à Nova Xavantina, no Mato Grosso com parada em Goiás para descansar. Quando entrei no ônibus, passei olhando rosto por rosto, cumprimentando a todos na esperança de reconhecer alguém. Ninguém! Seria uma viagem de oportunidades.
Logo nas primeiras horas me bateu uma angústia, medo, talvez. Mas a longa viagem até Goiânia me preparou algumas amizade no ônibus. Isso me deixou mais segura, não sabia ao certo o que me esperava.

Passamos uma noite em Goiânia, dormindo numa unidade do convento das irmãs e seguimos no outro dia cedo para o Mato Grosso. Depois de muito tempo chegamos num vilarejo longínquo chamado Vale dos Sonhos. Paramos num ginásio grande, que aparentemente era a única coisa grande daquele lugar. Além do nosso ônibus haviam mais dois: um de Goiás e outro do Rio Grande do Sul.  Umas cento e cinquenta pessoas para a jornada. Todos abriram suas barracas e no meu caso, um saco de dormir, e tomamos banho no vestiário do próprio ginásio. Mais tarde a organização montou um banquete: no meio do ginásio colocaram à disposição panelões cheios de feijoada, arroz, salada, três tipos de carne, macarrão, suco, arroz doce de sobremesa. Duas caixas grandes de som tocavam música sertaneja, típica do local. Um jantar bem farto. Comemos e socializamos com os demais participantes. Conheci muitas pessoas com sotaques e culturas diferentes e descobri aí, a primeira maravilha de viajar sozinha: conhecer pessoas incríveis.

Mais tarde, uma moça bonita, elegante, pegou o microfone. Ela deu boas-vindas e se apresentou. Era a enfermeira da jornada. Explicou como tudo seria:
- A Jornada será realizada em três dias. A ideia é que vocês subam a montanha e desçam pelo outro lado, passando por paradas estratégicas que receberão vocês para as refeições. O desafio da jornada é testar o limite de cada um. Quando chegamos próximo ao nosso limite, nos conhecemos melhor, mergulhamos na essência e esse é o propósito. No primeiro dia, vocês andarão de manhã, a tarde e à noite até chegar na fazenda do tio João. No segundo dia, passaremos o dia fazendo algumas atividades da própria fazenda dividindo-as por equipe. Porém, nesse dia tem uma regra rígida: é o dia do silêncio. Ninguém falará nenhuma palavra com ninguém até o sol se pôr. No outro dia seguiremos em caminhada até o nosso último destino. Vocês não saberão se estará perto ou longe uma parada da outra. Mas saibam que o percurso total é de 128km. Haverá um carro de apoio o tempo todo fornecendo água pra garrafinha de vocês e primeiros socorros se precisarem. Se alguém passar mal, poderá seguir no carro. Um ponto importante: a partir de amanhã quando começarmos, as malas ficarão no ônibus e vocês só terão acesso a elas no ponto final da jornada. No carro de apoio poderá seguir apenas acessórios de dormir: barracas, cobertores e sacos de dormir. Todo o resto que julgarem essencial deverá ser levado com vocês, na mochila nas costas. Uma última coisa: boné e protetor são essenciais. Aqui a temperatura média durante o dia é de 39 graus. Amanhã sairemos daqui pontualmente às 3h30 da manhã. Descansem bem.

Eu já comecei a sofrer ali. Eu era preguiçosa e não me agradava nada andar tanto com peso nas costas! Mas o sofrimento estava apenas começando.

Acordamos as 3h, fizemos alongamento e no horário estipulado estávamos saindo em caravana rumo à montanha. Eu entendi ali que os horários eram cumpridos severamente. Nas primeiras três horas subindo a montanha fomos conversando e nos distraindo com o céu maravilhosamente estrelado do lugar. O nascer do sol foi incrível e me fez pensar em Deus. Mas logo a subida íngreme começou a pesar e as costas e as pernas começaram a doer. Depois de quatro horas caminhando eu já não aguentava mais e queria desesperadamente sentar. Paramos em algumas pedras pra descansar. Mal sabia eu que ainda andaríamos mais duas horas. Já era de manhã quando avistamos a única fazenda naquele meio do nada. Eu rezava para aquela ser uma das paradas. Era! Chegamos na porteira e fomos recebidos por um fazendeiro muito simpático. Entramos e havia uma mesa com pão, leite, café e frutas à vontade. Eu quis tirar o tênis, meus pés latejavam. A enfermeira viu de longe eu desamarrando os cadarços e veio em minha direção.

- Vai por mim, não tira! Depois que você tirar o tênis será muito mais difícil controlar a dor e você ainda usará muito seus pés.

Obedeci. Meia hora depois estávamos andando novamente e o sol cada vez mais forte. A dor no corpo era generalizada. Eu era muito sedentária, não tinha estrutura para aquela aventura. Não conseguia mais conversar com ninguém. Estava realmente penoso pra mim, quase que um calvário. Por volta das duas horas da tarde, depois de mais quatro horas andando, avistamos outra fazenda.

Essa segunda era mais majestosa, grande, com várias cabeças de boi. Tinha uma casa enorme e uma piscina olímpica atrás. Havia também um lago e um estábulo grande. Ali foi nosso almoço. Nunca agradeci tanto por poder sentar. O cansaço era tanto que mesmo com muita fome só conseguia pensar nas dores na costas e nos pés. “Não tire o tênis!” – repetia pra mim mesma. Almocei com os amigos que fiz no ônibus e mais alguns de Goiás que riam do nosso sotaque paulista puxando o "r" no meio das palavras. O tempo de descanso foi maior dessa vez. Por uma hora e meia pudemos apenas curtir o descanso. Esse foi outro aprendizado que tive. Quando uma pausa realmente é necessária, como ela é importante e como tudo tem mais cor e sabor quando “precisamos”.

15h30 voltamos a andar. Achei que o descanso seria importante para reativar as energias mas tive uma surpresa ingrata. O corpo esfriou e todas as feridas que fiz nos pés tornou muito pior a caminhada seguinte. Andamos por mais quatro horas e meia até a fazenda do tio João. Os últimos quarenta minutos eu fui mais isolada, penosa. Comecei a chorar sem nem saber bem o motivo. Lá haviam mangueiras improvisadas para o banho de uma galera imunda sedenta por limpeza. Foi o melhor banho da minha vida! Tinha canja com pão e suco de janta.

Fui deitar exausta e tinha a impressão que dormiria em dois segundos. Mas meu saco de dormir e uma coberta que levei não foram suficientes pra queda de temperatura que fazia na varanda da fazenda. Eu tremia de frio. Experimentei nessa situação a graça da solidariedade. As pessoas que passavam e viam eu tremendo dentro do saco começaram a jogar em cima de mim cobertores. Nem consegui ver quem foram, mas conseguiram acalmar meu frio. Dormi pesadamente sem sonhar.

No outro dia acordamos às 7h, era o dia do silêncio. Fiquei no grupo que era responsável pelas vacas. Tiramos leite, escovamos os pelos, separamos os bezerros, tudo em silêncio. A hora não passava! Não poder falar nada era o mesmo que pausar o relógio do tempo. Experimentei então algo que poucas vezes tinha feito. Conversei com o olhar.

Em grupo nós trabalhávamos e íamos nos entendendo pelo olhar. Percebi que a afeição ficava cada vez maior entre nós pois éramos obrigados a olhar um nos olhos dos outros e isso intimida, mas também aproxima. Conversar com o olhar esse dia foi quebrar barreiras pra mim que sempre fui muito tímida. Ainda me pego, às vezes, desviando o olhar dos outros e considero isso uma fraqueza, fruto da timidez. Esse dia me fortaleci neste trabalho.

Quando você não fala, você pensa bastante! E você encaixa pensamentos. Depois que o sol se pôs houve uma espécie de cultural na fazenda. Uma celebração de festa junina com várias comidas típicas! Podíamos enfim, falar. Conversei, dancei e festejei. Conheci mais pessoas que não tive oportunidade antes. Lembro-me de um garoto que tinha mais ou menos minha idade, sério, bem sereno que veio até mim:
- Não conversamos muito, meu nome é Arthur! Muito prazer! 
- Muito prazer, Arthur.
- Prazer! Eu observei você hoje. Não lhe conheço mas por incrível que pareça, eu já gosto muito de você!
E fizemos uma boa amizade nesta viagem. Lembrei-me muito da passagem do Pequeno Príncipe com a Raposa. Ele me contou sua história de vida e que estava na jornada pra cumprir uma promessa. Sua mãe teve câncer de mama e lutou dois anos contra a doença. Ele havia feito uma promessa que andaria 70km se sua mãe fosse curada. E ele achou que a benção foi tão grande que resolveu ir para a Jornada que era ainda maior. “E sua mãe está bem?” – perguntei. “Sim. Ela morreu o ano passado.” – e sorriu sereno. Eu entendi e admirei muito um garoto tão jovem e maduro. 
Conheci outras pessoas tão admiráveis quanto o Arthur e percebi mais um ensinamento de viagem: o mundo é tão grande, tem tanta gente! E cada pessoa carrega um mundo dentro de si.

No outro dia, saímos novamente às 3h30. Esse dia experimentei o pior sentimento que podemos sentir: medo. Ainda estava escuro quando passamos do lado de uma fazenda. Com a lanterna no chão íamos iluminando o caminho quando ouvimos o gado desesperado correndo de um lado para o outro. Foi no chão que vimos o porquê. Pegadas de onça estavam por todo lado no caminho e um biólogo que acompanhava a gente pediu pra desligarmos as lanternas e passarmos em silêncio. Estreitamos o caminho nos apertando em amontoado, todos respirando medo. Mas não medo da(s) onça(s). Medo do gado estourar a cerca e esmagar a gente. Provavelmente a onça estava cercando eles e desesperados eles corriam juntos, mais de cem cabeças de gado vinham até perto da gente e voltavam para o outro lado. A luz poderia atraí-los e seria pior. Era um barulho ensurdecedor e medonho de um gado aflito. Poucas vezes na vida eu senti um medo tão real de morrer.

Mais tarde neste dia tivemos outra surpresa: o carro de apoio que andava na nossa frente passou por cima de uma sucuri. Passamos pelo animal morto com marca dos dois pneus e por mais trágico e egoísta que foi, eu fiquei extasiada de ver esse animal de perto.

Esse dia andamos mais sem paradas. Depois de um dia de descanso eu já estava melhor, mas mesmo assim, foi muito cansativo. Não saber se estava perto ou não de chegar a algum lugar era a pior sensação. Não poder direcionar o próprio limite em função do tempo.

Andamos neste dia oito horas sem parar. Não estava mais aguentando. Queria chorar novamente. Me senti fraca e boba por isso. Sol muito forte, dor no corpo todo e pés esfolados. Meu tênis já estava acabado: era dali pro lixo. Além de tudo isso eu estava com muita fome. Minha barriga doía e me arrependi de não levar nessa viagem algumas barrinhas de cereal. Até que escutamos algo que não era o vento, nem as folhas balançando, nem os pássaros. Ouvimos barulho de água! Êxtase é a palavra ideal pra descrever o que senti. Havia água em algum lugar e isso poderia significar que estávamos chegando ou não, mas que tinha um rio ali. 

Sim! Nós chegamos! Havia uma estrutura de barro batido minúscula escondida no meio da mata de cerrado. Era uma pequena capela e só cabia uma pessoa por vez. Quando chegou minha vez de ver foi incrível. Tinha lá dentro uma imagem de São Francisco de Assis com uma orquídea crescendo em volta. Era uma mina e pingava água abaixo da imagem. Experimentei um sentimento de gratidão por estar ali. Por ter tido a possibilidade de fazer essa viagem. Depois, seguimos o barulho da água até avistar o rio. Não deu tempo de pensar muito. Alguns caíram no rio de roupa e tudo! Eu tirei meu tênis, minha meia estava grudada de sangue. Tinha cortes e bolhas por todo o pé e muita sujeira. As unhas estava pretas. Tirei minha calça, minha camiseta e boné e me joguei na água. Havia um bando de louco extasiados nadando e rindo sem motivo. Exaustão de repente virou felicidade. E realmente: eu estava muito feliz! O rio lavou todo o meu pesar. A sujeira do corpo e da alma e enquanto eu boiava, refletia sobre a minha viagem e o propósito que foi colocado: “gratidão” – eu pensava – “gratidão universo!”. Eu entendi o essencial. Entendi os limites do corpo e aprendi muito de alma!

Na volta, paramos em Caldas Novas/GO e aproveitamos pra conhecer o rio de água quente.

Cheguei na minha cidade já era de madrugada. Chamei um táxi até minha casa. Não havia ninguém acordado, mas em cima da mesa tinha uma toalha bem bonita estendida. Café, pão, frios, um bolo de fubá e um pacote de doce de padaria que eu adoro. Tinha um bilhete da minha mãe dizendo:

                                                             “Bem-vinda de volta! Não importa pra onde você for a partir de agora, sempre terá pra onde voltar”.

E não importa o lugar, eu nunca mais parei de ir. 




domingo, 8 de outubro de 2017

Lembranças

Enquanto recebia a sopa na boca, olhava atentamente para a moça à sua frente. 
- Quem é você?
- Sou a Lívia. 
E voltava a comer e olhá-la. "Lívia!" - pensava. 
- Muito prazer, Lívia! Eu sou Maria. 
- Muito prazer, dona Maria! Mas eu já conheço a senhora. 
Mais uma colherada. 
- De onde é que você me conhece?
- Ah... Conheço a senhora faz muito tempo...
Ela estava confusa. Não conhecia Lívia de lugar nenhum. Também não reconhecia o quarto. As cores incomodavam-a um pouco. Pensou em João. 
- Onde está meu marido?
- Ele não está aqui agora. 
- Você pode chamar ele? Eu quero vê-lo.
- Infelizmente não, dona Maria. Seu João foi comprar pão, ainda não voltou. 
Ah, sim! Ele sempre comprava pão de manhã, logo bem cedo, às seis horas e para o café da tarde. Sempre trazia pão quentinho. Ele chegava, pegava um prato, abria os pães na faca e voltava no saco de pão. Ela nunca questionara-o sobre isso. Sabia que fazia isso pra facilitar a vida de todos. 
- João gosta de pão sem miolo, sabia?
- Verdade? Eu também gosto de pão sem miolo! Acho que eu e João somos muito parecidos...
Ela teve um pouco de ciúme. Quem era essa tal de Lívia pra dizer isso! Enquanto comia a sopa foi franzindo a testa num tom de desaprovação. 
- A senhora não precisa se preocupar! Seu João me falou uma vez que só a senhora e mais ninguém era o amor da vida dele. 
Ela riu de canto.
- Eu sei. 
- Vou pegar a sobremesa. Hoje tem pudim de chocolate, o que acha?
Torceu o nariz.
- Chocolate me dá espinhas! 
- Mas esse chocolate é diferente! Ele não tem gordura nenhuma e vai deixar a pele da senhora lisinha que nem de bebê. E o melhor de tudo: ele tem vitaminas, vai deixar a senhora bem forte!
Enquanto Lívia saía do quarto, ela olhava tudo em sua volta. Que coisa estranha! Nunca tinha visto aquele lugar mas lhe parecia ser muito familiar... Olhou pra sua mão e num susto observou o quanto estava enrugada. As unhas curtas pintadas num tom de rosa claro e os dedos encurtados, como se fossem um dia maiores. - Como estou velha! - Lívia chegava com o pudim.
- Que lugar é esse? 
- Aqui é seu quarto, dona Maria. 
- Meu quarto? Mas não gosto dessa cor na parede! E essa cortina não é minha!
- A senhora mesmo pediu pra pintar o quarto de verde, dona Maria. Essa cortina foi presente meu pra senhora.
Olhava pra Lívia novamente. Seu cabelo ruivo de tamanho médio cacheado estava preso num rabo de cavalo. Era branca com o rosto cheio de sardas vermelhas. Parecia uma pintura, seus olhos e boca bem desenhados, cílios e sobrancelhas cor de fogo, olhos castanhos claros. Deveria ter uns trinta anos, no máximo. Ela a observava. 
- O que foi, dona Maria? 
- Você é minha enfermeira?
- Podemos dizer que sou também. 
- Você é tão bonita!
Lívia sorriu e lhe pareceu ainda mais bela. 
- Obrigada, dona Maria! A senhora é muito gentil!
Ela deveria atrair muitos rapazes. Sim! Deveria fazer muito sucesso. 
- Você é casada?
- Sim, sou casada. 
"Sorte do rapaz."
- E têm filhos?
- Ainda não. Mas quero ter mais pra frente, talvez. 
- A senhora tem filhos, dona Maria?
Ela ficou confusa. Era difícil responder isso. Lembrava de crianças brincando com ela e de bebês no seu colo. Mas poderia ser de qualquer um. Sobrinhos talvez... A confusão a aborreceu. 
- Onde está João?
- Eu já lhe disse, foi comprar pão e ainda não voltou. 
É verdade, ela havia lhe dito. Mas tudo estava tão confuso, embaçado em sua cabeça. Aquela mistura de ideias não claras parecia se misturar com sonhos e quanto mais ela forçava-se a lembrar, mais confusa ficava. 
- Estou cansada, acho que vou dormir um pouco. 
- Mas ainda não acabou o pudim!
- Não quero mais. Quero dormir. 
- Tudo bem. 
Lívia juntou na bandeja as sobras do pudim, limpou o canto de sua boca com um pano e ajeitou os travesseiros de modo que seu corpo deitasse sobre a cama. 
- Durma bem, dona Maria. Qualquer coisa, a senhora chama. Estarei lá fora. 
Ela sentiu profundo afeto pela moça. Saber que ela estaria lá fora e não a deixaria sozinha foi reconfortante. Estendeu os dois braços e fez um bico para dá-lhe um beijo. Lívia então se inclinou na cama e ela a embalou num abraço forte e um beijo estalado do rosto. 
- Boa noite, querida!
"Tomara que João pague bem essa moça! Ela é muito boa!"
Virou-se de lado e cochilou. 

Lívia saiu do quarto a meia luz. Eram duas horas da tarde e estava bem claro nos outros cômodos da casa. Foi até a cozinha lavar a louça. Ouviu a porta da frente ser destrancada e logo depois sentiu seu marido lhe beijar o rosto por trás. 

- Como foi seu dia?
- Foi bom, obrigada. E o seu?
- Muito trabalho, como sempre. Mas satisfatório. Como ela está hoje?
- Está bem! Conversou um pouco. Estava calma e pouco aborrecida. 
- Alguma novidade?
- O mesmo de sempre. Lembrou apenas de papai, reclamou do chocolate e das cores da parede. Quando perguntei se ela tinha filhos, acho que ficou confusa e aborrecida, desconversou e pediu pra dormir. 
- Você disse o que de seu pai?
- Falei que ele estava comprando pão. Acho que essa é a melhor forma. Parece que ela fica feliz com isso. 
- Mas que bom que ela conversou com você... Isso é muito bom!
- Sim, é sim! Mas sabe que, pensando bem, aconteceu algo diferente... Antes que eu saísse do quarto, ela me abraçou forte e me beijou. - Sorriu lembrando do beijo estalado em seu rosto - E me chamou de querida. Acho que por um instante, ela se lembrou de mim.
- Que ótimo! Com toda certeza! - Concordou o marido - Ela soube quem você é. 















sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Banco da praça

Naquela enfadonha terça-feira, com a reunião na Paulista cancelada, sobrara a ele um tempo raro.

Precisava esperar dar o tempo do seu próximo compromisso e nada poderia ser mais agoniante na sua vida agitada que esperar. Lembrou que ainda estava com o romance policial de Patricia Cornwell na maleta e achou uma boa ideia sentar no banco daquela praça por algum tempo e colocá-lo em dia. Fazia meses que não saía do segundo capítulo.

Sentou. Colocou o relógio pra despertar em uma hora, caso ficasse demasiadamente entretido. Era um homem metódico. Usava traje social impecavelmente passado por ele mesmo. Cabelos cortados na mesma semana e o rosto desprovido de barba, verificada todos os dias. Sentia-se nele o Gucci que usava com orgulho e pudor. Era jovem e bonito, um homem elegante, vaidoso, ambicioso e notoriamente bem sucedido por sovinice. Seus pequenos delitos de consumo eram apenas consigo.

Abriu o livro e tentou concentrar-se. Uma senhora passou por ali com um bebê e um menino por volta dos seus cinco anos. Sentou no banco em frente ao dele. Ele olhou de canto e continuou sua leitura.

- Sente-se ali do lado daquele moço que eu vou precisar usar o banco pra trocar seu irmão, meu anjo.

Era só o que faltava! - pensou o homem – trocando uma criança no meio de uma praça? O que é isso? Cada coisa!

O garoto veio, segurando um trator de brinquedo na mão, com muito esforço, sentou-se ao seu lado.

O homem olhava pro livro sem dar atenção, imóvel.

O garoto olhou pra avó do outro lado e atestou alto sua vitória:

- Consegui sentar, vovó.

- Eu vi, meu anjo.

Sem mover a cabeça, o menino foi passando os olhos no joelho do homem, depois no seu colo, no livro que ele segurava e bem devagar, subindo até perto do seu ombro onde alcançava sem se mexer. O homem percebeu e olhou para o menino que disfarçou abaixando a cabeça, tímido.
Durou pouco tempo até que a curiosidade o tomasse, por fim.

- Você tá lendo esse livro?

- Sim, estou.

- Eu não sei ler ainda. Mas eu já sei escrever meu nome. Minha mãe me ensinou!

- Que bom. – Desinteressado, respondeu.

- Mas ano que vem eu vou aprender a ler e escrever. Que eu já tô indo pra escola e a professora falou que ano que vem a gente vai saber ler tudo já.

- Hum.

- Esse livro aí é de quê?

Haja paciência! – pensou o homem. Tamanha foi sua expressão de incômodo que fez a avó do garoto chamar sua atenção.

- Pára de incomodar o moço, meu anjo! Você tá atrapalhando ele!

O menino parou. Ficou ali do lado pensando. Pensava que um dia saberia ler e leria um livro daquele tamanho todinho. O homem ficou constrangido por demonstrar desgosto. Quis se retratar.

- Eu não sei bem ainda o que vai acontecer porque estou no começo. Mas é uma história que tem um detetive, um policial e um bandido.

A primeira associação que o menino fez foi externada:

- E teve tiro?

- Sim. Teve um crime. Uma mulher morreu. Agora o detetive está investigando pra saber quem é o assassino.

A avó tirou da bolsa um lanche caseiro e deu para o menino, tirando o brinquedo da sua mão. Ela não precisou dizer nada.

- Você quer? – Ofereceu ao homem.

- Não, obrigado.

- De nada. Esse lanche aqui minha vovó que faz. Ela vende pra cantina da escola da minha irmã, mas pra mim ela faz de graça.

- Você tem sorte, então.

- Ela faz outras coisas também, mas não vende.  O que eu mais gosto de comer que ela faz é bolo de chocolate que ela coloca bastante chocolate por cima, mas é só de vez em quando que ela faz. E de salgado, eu gosto de batata amassada com carninha e feijão, mas quando ela faz isso eu não gosto que põe arroz. Você gosta de batata?

- Sim, gosto.

- Então, o Igor, meu amigo, ele não gosta de batata. Daí um dia ele foi lá em casa e não quis comer porque minha vovó não sabia e fez batata. Aí ele separou no prato. Mas ele não falou também que não gostava né? Se ele tivesse falado, ela tinha feito outra coisa pra ele comer. Ele é bem legal, a gente brinca bastante junto, mas às vezes eu acho ele muito chorão. Tipo assim, quando a gente brinca e ele perde, sempre fica bravo e chora. Mas na escola ele é meu melhor amigo porque a gente senta junto com a carteira encostada. Lá ele não chora muito. Só nas primeiras vezes que ele chorou muito porque não queria ir pra escola mas agora que ele é meu amigo ele gosta mais. Minha mamãe falou que ele chora assim porque ele não tem irmão, porque se ele tivesse um irmão que nem o meu ele iria cansar de choro e ia chorar menos.

Deu umas mordidas no lanche, passou um braço no nariz pra secar secreção que saia da alergia da poluição da cidade e continuou:

- Aquele ali é meu irmãozinho. Ele é meio chorão também, mas é mais quando tá com fome ou com dor de barriga, tadinho. E o choro é meio diferente, sabia? Quando ele tá com fome é de um jeito tipo assim “inhéinhéinhéinhé” e quando é de dor é mais alto e é “inhéééééééinhééééééééínhééééé´” e ele quase que perde o ar. Você tem irmão?

- Tenho dois.

- Eles choram assim também?

- Eles já são grandes, mas choravam assim também quando eram bebês.

- Então, irmãos choram mesmo. É bem normal irmão chorar, na verdade. Minha irmã não chora porque ela é menina, mas eu também choro, às vezes. Quando eu caí brincando de pega-pega na escola eu chorei bastante. Você chora?

- Eu já chorei bastante, hoje eu não choro mais.

- Por quê?

- Por que o quê?

- Por que você não chora mais?

- Acho que porque eu não brinco mais de pega-pega. Daí eu não caio pra chorar.

- É. Até que faz sentido.

A vó então decide levantar e seguir o rumo.

- Vamos, meu anjo?

- Agora eu já vou embora, moço. – Desceu do banco agora com a ajuda da mão do homem ao seu lado, pegou na mão da vó e acenou com a outra mão. – Tchau!

- Tchau!

Enquanto o menino ia embora segurando na mão da avó, o homem olhava e ria de canto. Talvez em alguns anos, esta tenha sido a conversa mais rápida e com mais conteúdo que já teve com alguém. Falaram de livro, de ler e escrever, comida, irmãos, choro de bebês... E de forma leve. Ah! Foi leve...

O garoto andava com a avó pensando que homem quando cresce não chora mais porque não brinca mais de pega-pega e não corre o risco de cair.

- Legal aquele moço, né vovó?!

- Muito legal, querido.

- Ele cheirava perfume. – Lembrou o menino.






sábado, 5 de agosto de 2017

Paletó e Terno

Eu fiz nhoque pra ela. Peguei a receita na internet.

Depois de um tempo, a gente percebe que coisas pequenas significam tanto... A gente se reinventa, se enxerga de outro jeito. A gente muda. Muda mesmo.

Os pés firmam no chão, ainda que os sonhos nos movam. Podemos ver, ainda que a vida seja nublada, cada coisa de forma mais clara que antes.

Eu já fui águia. Já fui paletó, gravata, carro do ano. Eu olhava para frente. E para baixo. Foi quando águia que a conheci.

Ela era jovem. Muito, muito mais que eu. Tinha brilho no olhar, era elétrica e apaixonada pela vida. Não era nada imatura, apesar da idade. Era inteligente, bem humorada. Também era livre e voava, como só os pássaros são capazes.

Não era amor, mas era bom. Era gracioso e, ao mesmo tempo, muito prazeroso.

A gente se guardava nas palavras. A gente trocava muito e o fazia com o olhar.
Era bom, era realmente bom. Mas não achava que já era a hora de sentar e descansar. Ainda tinha muito pra andar, também era jovem e estava ao passo de decolar.

Então, ela engravidou.
Nós engravidamos.

Juntamos os trapos.

Minha vida de solteiro acabou. Minha maravilhosa vida de homem solteiro. Freei o avião. Fui obrigado a parar antes mesmo de decolar. Eu pensava muito nela, na sua situação e como era difícil pra ela também ter que mudar. Mas pensava mais em mim. Que bobagem eu fiz!

De maneira tranquila, sem pressa, devagar, quando dava, nós fomos.
Nós somos.

As coisas mudaram tanto! O tempo é capaz de mudar tudo!

Hoje, eu cozinho pra ela. Minha preocupação: se ela gostará. Talvez ela goste mas não fale nada, pelo cansaço do dia, mas talvez ela elogie. Se ela elogiar, eu repito o prato no domingo, quando as crianças vierem almoçar conosco. Se não, eu tento outra receita, afinal, domingo eu não posso arriscar. A comida é a isca pra eles sempre voltarem. Bem sei que comer pizza e miojo todo dia enche o saco. Também tive essa fase.

Engraçado pensar nisso, mas hoje meu coração é mais frágil. Não sou forte como antes. Fora o sapato velho, sou emocionalmente mais atingível, vamos dizer. Posso me machucar facilmente como semana passada, que a mais velha chegou e ao invés de comer o pastel que preparei com tanto carinho, tomou banho e foi beber com os amigos. Fui no mercado, comprei os ingredientes, pensei comigo - "ela chegará muito cansada e com muita fome, vou caprichar" - pra nada.

O mundo também me comove mais. Eu choro como antes não o fazia. Eu vejo barbaridades no jornal e não consigo me conformar. Eu me emociono em filmes clássicos, livros bons, músicas nostálgicas. Eu brigo mais também. Por política, principalmente. Porque, simplesmente, eu não me conformo e isso nunca vai mudar. E essa minha velhice me dá o direito de extravasar.

Detalhes me fazem tão eu de um eu tão diferente do que era...

Já fui águia, hoje sou joão de barro.
Já fui paletó, hoje só sou terno.

Eu fiz nhoque pra ela. Peguei a receita na internet.

Depois de um tempo, a gente percebe que coisas pequenas significam tanto... A gente se reinventa, se enxerga de outro jeito. A gente muda. Muda mesmo.











domingo, 16 de julho de 2017

Insuflo

Naquele dia, ela acordou diferente. Desligou o despertador e não olhou para o lado. Saiu da cama, tomou seu banho sereno e sem pressa. Vestiu-se e se maquiou, como raramente fazia. Não olhou pra cama. Fez café um pouco mais forte que de costume e saiu. Não pensou muito, não olhou pra trás. Fechou a porta e andou.

Naquele dia, ela trabalhou mais que de costume. Fez questão de ocupar o seu dia. Esforçou-se pra tirar das gavetas tarefas inacabadas. Passou um pouco do horário.

Naquele dia, ela foi à academia. Fez sua série de exercícios corretamente, como nunca havia feito. Teve foco no que fazia. Não prestou atenção em mais nada, apenas em si.

Tudo a sua volta era apenas mundo e naquele dia, o mundo era desinteressante, não lhe chamava a atenção.

Naquele dia, ela não voltou pra casa. Entrou num bar, pediu um drink. O mais caro. Saboreou o álcool e as frutas vagarosamente. Pediu outro.

Um homem sentou ao seu lado e pediu o mesmo. Puxou assunto. Apática, ela o encarou com olhos vazios, sem expressão. Não precisou dizer muito. Ele entendeu e saiu.

Seu telefone na bolsa, no modo silencioso, não parava de vibrar. Era ele. Ela então se lembrou. Perdida em pensamentos deixou que chamasse por muito tempo, vibrando dentro da bolsa, em seu colo.

- Mais um desse, por favor!

Curiosamente, ela não pensava em nada em específico. Era como se alguém estivesse em sua mente, fazendo uma faxina. Estava realmente vazia de sentimentos. Era diferente pra ela, que sempre foi explosão. E se viu observando que ser destituída era bom.

Ficou ali, tomando seu último drink. Nem mesmo olhava para o lado. O bar estava cheio, voz e violão trovava Djavan.

Ela despertou daquele transe que a consumia e resolveu sair. Pagou e se foi.

Mas naquela noite, ela não voltou pra casa. Pegou seu carro e resolveu dirigir. Sem rumo, apenas foi. Na estrada, não se sabe onde, ela viu o letreiro do hotel. Estava cansada, então parou.

No quarto, tomou outro banho. Lavou seus cabelos, usou o secador. Passou no corpo um creme hidratante que tinha na bolsa. Ligou a tv e desligou. Nem mesmo um bom livro tinha ali. Teve que, inevitavelmente, recorrer ao celular.

Muitas chamadas perdidas e mensagens de texto. Eram dele.

Ela não se deu ao trabalho de ler. Não naquele dia. Talvez em outro, quando voltasse a sentir.

Apenas deu-se o trabalho de mandar-lhe uma única mensagem. Não tinha saudação, advertência ou recomendações. Não haviam explicações ou lição de moral. Seria seu último esforço com ele:

Não vou mais voltar.

domingo, 21 de maio de 2017

O Biro e a Corrupção

Era uma cooperativa de reciclagem. Um novo desafio em minha vida. Eu era tão nova e precisava ser madura naquele espaço. Eles eram em 50. Homens, mulheres, jovens, velhos, brancos, negros e pardos. Ex-reclusos, dependentes de álcool, drogas, bolsa família. Era uma soma de desafios. Todas as variáveis que comportam um negócio somados à sua peculiaridade.

De uma coisa eu sabia: tinha que ganhar a confiança deles. Minha melhor arma era o carisma que tive que tirar da cartola já que nunca foi meu forte. Todos os dias de manhã eu descia no galpão pra desejar um bom dia pra cada um que trabalhava internamente. Procurava almoçar no refeitório junto com eles, cada dia procurando sentar com um grupo diferente. Perguntava a eles coisas simples. Pedia dicas, que explicassem o que faziam e me ensinassem. 

Meu primeiro mês foi difícil. Eram muito desconfiados. Os mais velhos foram os que cederam primeiro e aos poucos, fui incluída na vida deles. Mas a amizade mais difícil que eu fiz foi com o Biro.

Ele tinha 62 anos quando entrei lá. Era um homem magro e baixinho, quase menor que eu. Cabelos e barba grisalhas e uma feição humilde e simpática. Tinha as mãos ásperas e sujas, mas pequenas e ágeis que junto a sua honestidade incontestável, era o seu diferencial para a cooperativa. Ele era o separador de materiais nobres. Ouro, prata e cobre tirados de placas mãe e outras peças de materiais eletrônicos ficavam com o Biro. Apenas ele tinha a chave do quartinho onde guardava os materiais separados e ele mesmo vendia no final do mês. Ele era um cooperado fundamental, era de confiança e fazia seu trabalho com muita eficiência.

Mas o Biro era extremamente tímido. Não falava muito com ninguém. Ele ria das piadas alheias na hora do almoço e sorria pra todo mundo. Mas pouco falava. Os meus “bons dias”, respondia com um aceno, de cabeça baixa. Depois de um tempo fui entender o porquê. O Biro tinha dificuldade na fala. Tinha a língua presa e quase nenhuma dicção. Sua fala era parecida com a de um fanho e o tornava quase incomunicável.

Quando descobri isso, resolvi investir na confiança do Biro. Além do bom dia, fazia perguntas que dava-lhe o poder de responder apenas acenando “sim ou não” com a cabeça. E aos poucos ele foi se soltando. Um dia, cheguei apressada e não desci no galpão pra falar com eles. Pouco depois, na metade da manhã, alguém bateu na porta da minha sala. Era o Biro com um sorriso de orelha a orelha. Me disse com todo o seu embaraço na fala:

- Bom dia, flor do dia! Se Maomé não vai até a montanha, a montanha vai a Maomé!

Fechou a porta e foi embora. Neste dia tive a certeza: criamos um vínculo.

Depois de um tempo aprendi a decifrar a fala do Biro. O convívio facilitou. E um dia, na hora do almoço, enquanto ele me contava um causo sem ponto nem virgula, me peguei pensando no início de tudo e de como evoluímos.

Certo dia, o Biro me pediu um favor. Me contou que fazia alguns meses que estava recebendo o pagamento no mês na sua conta, que era na faixa de R$900,00 mas o banco estava tomando R$500,00 de tarifa. Ele explicou que pegou um empréstimo do banco mas fazia mais de um ano que já estava pago. Queria ir ao banco resolver esse problema mas não conseguia se comunicar com a gerente. Prontamente aceitei ajudá-lo e na mesma tarde descemos até a agência.

O Biro falava e eu, ao seu lado, traduzia seu impasse pra gerente à nossa frente.

Analisando os dados bancários do Biro, a gerente ficou confusa.

- Não temos no sistema nenhuma cobrança da sua conta, senhor!

- Você pode tirar o extrato de pelo menos três meses pra gente dar uma olhada juntos, por favor? – Pedi a ela.

- Vou tirar de seis meses.

Ela se levantou, pegou os extratos impressos e nos entregou. 
Olhando junto com o Biro eu percebi que todos os meses havia dois saques no mesmo dia. E era no dia do pagamento. Mostrei pra ele que olhou sem entender nada. Me disse que tinha dificuldades de manusear o cartão no caixa eletrônico, assim como a senha. Então, todos os meses, ele chamava sua filha que tinha por volta dos trinta anos e já era casada, que o auxiliava no caixa eletrônico e retirava de uma vez só todo o dinheiro da conta. Sua filha até mostrava pra ele o saldo antes do saque. De fato, o Biro era idoso e semianalfabeto. Sua dificuldade era compreensível.

Ficamos nós três sem entender o que estava acontecendo com o sumiço do dinheiro do Biro. 
Foi a gerente quem teve a ideia que resolveu o caso. Ela sugeriu de pegar as gravações das câmeras do banco, nos dias e horas dos saques registrados no extrato da conta.

Quando ela chegou com as imagens foi uma surpresa nada agradável. 
O segundo saque era realizado à tarde, perto das 18h, e mostrava o Biro e sua filha no caixa eletrônico. A primeira imagem era no mesmo dia, no período da manhã e mostrava a filha do Biro sozinha.

Olhamos todas as imagens e em todos os meses era a mesma situação.

Olhei pra gerente que refletiu meu olhar infeliz. Olhamos pro Biro, ele estava com os olhos nas imagens e com o olhar perdido em pensamentos. Pus minhas mãos nas costas do Biro num gesto de carinho.

- Eu sinto muito, meu amigo!

Um nó na garganta me apossou quando o Biro olhou nos meus olhos. Era desolação, era profunda decepção, era um olhar incrédulo e triste. Eu me tomei de raiva, minha vontade era caçar a filha dele e enchê-la de pancada. Mas eu precisava manter a postura ali.

- Por favor, bloqueie o cartão do Biro. É possível que ele cadastre a digital quando chegar o novo cartão? – Perguntei.

- Sim, claro! Vou providenciar isso.

- Biro, vai ser assim, vamos bloquear seu cartão e pedir outro. Quando o novo chegar, venho com você na agência pra gente cadastrar sua digital e eu vou te ensinar a sacar com a digital. Se não chegar o cartão até mês que vem, eu peço pra te pagarem em cheque, tudo bem? Quanto a sua filha, Biro, é uma atitude que você tem que tomar sozinho. E você é adulto e pai, vai saber o que fazer, certo?

Ele não disse mais nada. Abaixou a cabeça e acenou concordando. Eu agradeci a gerente e saí da agência com o Biro. 

Não tentei consolá-lo. O nó na minha garganta prevalecia pra isso. Me despedi do Biro na rua com um abraço e fui embora, com postura rígida, sem olhar pra trás.

Já perto da minha casa, numa praça, eu resolvi parar. Sentei no banco à sombra de uma árvore e por fim respirei. Respirei e respirei. E depois, pus minhas mãos sobre o rosto e desabei. Chorei alto e incontrolável como uma criança. Eu sentia raiva, tristeza, pena. Incrédula praguejei com Deus: “Com o Biro? Com o mais honesto e doce? Com o coração mais puro? Por quê?”


Fiquei por ali, com minha birra adolescente lamentando a crueldade do mundo por quase uma hora. Cheguei em casa com os olhos fundos e vermelhos. E naquele dia, cresci mais um pouquinho. 

Não posso dizer que me acostumei com as truculências da vida. Também não posso dizer que me tornei mais forte e que hoje não choraria por isso. Os calvários alheios ainda me tocam, ainda choro pelos outros, talvez mais que por mim. 

Mas essa história não é sobre o que sinto. É sobre esse meu momento com o Biro, é sobre aquele olhar magoado que me foi compartilhado, aquele momento da vida que compartilhamos sentimentos, ainda que ruins. 

Me fez crescer. O Biro segue comigo em meu coração, assim como este episódio que me faz lembrar que a índole, o caráter, nem sempre é de berço. 

É uma escolha individual. 
É um caminho. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

O Boné

Ela não era a chefe. Não era a administradora nem a contadora daquele lugar. Não era a educadora, a advogada, nem a psicóloga. Era mais uma espécie de amiga. Mas a cada dia, era uma nova profissão que assumia. Se desmanchava em várias faces a cada situação inusitada naquele lugar precioso. 

- Você tem que falar com o Edson! A gente sabe que ele não é de fazer isso, mas é a segunda vez nesta semana que ele vem trabalhar chapado! E ele faz a rua, né! As pessoas podem ver!

- Mas, Vanessa, você é a presidente deste lugar! Você é quem deve chamá-lo e conversar com ele!

- Por favor! Você sabe que ele vai ouvir mais você que eu! Fala com ele... Ele é bonzinho, vai te escutar!

Com aquele olhar derrotado, pediu que chamasse ele. Ela sempre cedia. Mesmo sabendo que era errado acumular pra si tantas responsabilidades.

- Mandô chamá, chefa?!

Ele veio entre passos arrastados e soluços. Com os lábios molhados e saliva no canto da boca. Estava realmente bêbado e sujo. Seu trabalho com lixo e sol deixava-o imundo e suado. Mas na porta daquela sala pequena, o odor de pinga se misturava com seu cheiro de trabalhador. Era forte e desagradável.

- Edson, você sabe que não sou sua chefe, não me chame assim!

Ele torceu o canto da boca, com olhar de desdém.

- Você tem um minuto pra conversar comigo? Senta aí na cadeira, se quiser fechar a porta...

Ele entrou meio receoso, foi sentando na cadeira com o olhar desafiador. Estava desconfiado e já armava-se contra qualquer tipo de ataque. Ficou com a cadeira virada, olhando para a porta aberta.

- Não quer fechar a porta?

- Tá calor e eu tô fedido. Se eu fechar essa porta nóis dois vamo morrê! Que é que cê quer de mim?

Ela pensou por um instante. Agora não adiantava voltar atrás, tinha que incorporar a personagem. Tinha que se vestir com sua armadura invisível também.

- Sabe, Edson, essa semana eu fiquei pensando numas coisas... Fiquei refletindo sozinha “Nossa! Como a equipe da rua trabalha! Eles são os primeiros a chegar, pegam o caminhão, encaram sol e chuva o dia todo andando, carregando peso e são os últimos a ir embora... Realmente são os maiores trabalhadores daqui.” Aí pensando nisso, eu pensei em cada um de vocês da rua. Eu lembrei da planilha de horas que vocês fazem, da falta que faz pra equipe quando alguém falta do trabalho, da dedicação de cada um. Então, sabe o que eu pensei de você?

Olhando pro chão perto da porta, ele estava prestando atenção.

- Eu pensei: “Poxa, o Edson é um cara muito trabalhador! Ele nunca falta. Ele nunca reclama do serviço. Ele sempre faz por ele e pelos outros. Poxa vida! Como o Edson é generoso! Se dá bem com todo mundo, sempre participa das vaquinhas de aniversário, sempre sorridente, brincalhão. Acho que não tem um só cooperado que não goste dele!”.

Com as mãos cruzadas, tocando inquietamente os dois dedões encardidos, ele foi se desarmando. A boca zangada foi abrindo num riso de canto, mudando sua feição.

- É verdade, eu sou muito trabalhadô!

- Pois é! Foi exatamente isso que pensei! Só que essa semana, não sei... Parece que você está meio triste. Não está muito pra conversas. Tem algo errado que queira me contar?

- Tsu, tsu.

- Bom, eu queria poder ajudar, mas se você não confia em mim...

- Confio sim. Eu confio!

- Então...

Num supetão, ele levantou e fechou a porta, mas não virou a cadeira. E foi falando, alto e desenfreadamente, como alguém confessando-se a um padre, por dever.

- É que tipo assim, eu sô um cara trabalhadô! Sô trabalhadô pra carai! Daí que o que cê falô é verdade! Eu num falto, eu num recramo, todo mundo gosta de eu, sabe! Eu sô do bem memo! Eu ajudo todo mundo... E lá em casa, ninguém tem o que recramá não! Minha muié, meus fio! Num falta arroz, feijão, mistura. Todo domingo tem refrigerante e sobremesa. Todo domingo! Daí que quando é dia das criança, aniversario, dia das mãe, dia de natal todo mundo ganha uma lembrancinha. Eu reservo um dinheirinho todo mês pra isso, sabe? Que o Biru disse pra mim que fazia isso e dava certo, aí eu resolvi fazê também e deu certo que nem deu pra ele! Daí que no final do mês, tipo, quando nóis recebe o pagamento, eu deixo os fio cá vó e levo a muié no forró lá do bairro. Nóis come um churrasco, bebe uma breja. Óia! Ninguém naquela casa tem do que recramá! Eu sou uma pessoa muito boa! Eu sô muito trabalhadô! Num falta nada pra eles!

- Mas qual o problema então, Edson?

- Calma que eu tô falando! Então, daí que sexta nóis tava lá fazendo a rua, daí nóis parou num comércio lá e ficamo esperando o homem ir buscar os papel. Aí eu vi uma loja... Olha! Que loja era aquela! Uma loja toda desenhada na frente cheia dos boné no vidro da frente. Mas que loja da hora! E cada boné! Pai eterno! Eu fiquei lá olhando aqueles boné, até que eu vi um verde, que... Você sabe que eu gosto de boné, né? Então, eu vi um verde lá, que, Nossa Senhora Aparecida! O boné mais da hora que eu já vi na vida! Sabe quanto? Duzentos e quarenta pau! Acho que eu fiquei umas meia hora olhando praquele boné! Fiquei tentando calcular na minha cabeça como que eu ia fazer pra ter aquele boné. Daí eu pensei que se eu economizasse uns três mês na minha caixinha, dava pra eu comprar aquela beleza. Daí fui embora pensando naquele boné. Só que no final de semana, matutei demais sobre isso, rapá! E daí eu vi que eu ia ter que deixá de lado o presente de aniversário de duas cria e deixá a muié sem o forró por dois mês. Daí eu senti um trem esquisito, um negócio que vinha do estongo, e subia na garganta. Sei lá, uma sensação ruim, tá ligado? Daí foi me dando uma tristeza, uma tristeza... Uma vontade de tomar uma pinga. Mas daí eu tomei pinga e num passava a sensação! Era que nem uma revolta de drento sabe? Porque eu sou muito trabalhadô e eu só queria a porcaria daquele boné verde! Sei lá, daí eu tô assim, meio chateado...

- Poxa, Edson, eu te entendo... E se a gente fizesse uma vaquinha pra te dar o boné de aniversário?

- Cê num entendeu, né? Eu queria, EU ir lá, com meu dinheiro suado, entrar naquela loja chique e falar pra moça “Me dá aquele boné lá da vitrine! Qual a forma de pagamento? À vista, amiga! Vou pagar aqui ó! À vista!”

- Entendi. Poxa, Edson, eu sinto muito!

Ficaram naquele silêncio profundo, lamentando o dilema do boné.

- Você não consegue vir no sábado? A gente pode encaixar você na banca por, sei lá, um mês. Esse dinheirinho a mais da banca daria pra comprar seu boné...

- Num sei trabalhá na banca.

- Mas você é tão esperto! Tenho certeza que aprende rapidinho. Se você quiser...

- É uma ideia, né? É acho que, talvez... É até que é bom né? Gostei! Você vê com a Vanessa se eu posso vir?

- Sim, eu te falo ainda hoje.

- É. Nossa! Quando eu botá minhas mão naquele boné! Nossa Senhora! Brigado mesmo, chefa! Foi boa a ideia.

- Por nada. Mas só mais uma coisa, Edson. Quero te pedir um favor de amiga.

- Se eu pudé ajudá...

- Você sabe que são regras rígidas não trabalhar bêbado né? Pois bem, quero te pedir pra não beber sua pinga nem antes nem durante o serviço, porque pode acontecer tanta coisa! Tanto problema pra você e pra cooperativa! Você sabe, né? Podemos combinar assim?

- Ah! Tá beleza! Vou fazer mais isso não.

- Combinados então. Toca aqui!

Mão na mão, ele se virou e saiu, mas antes deu uma olhada pra trás, batendo no peito, num gesto cúmplice.

- Chefa, é nóis!

Naquela sala pequena, claustrofóbica, onde cabiam apenas uma mesinha com computador, papeis empilhados e só ficavam duas pessoas por vez, ela apenas crescia.