Eu
tinha acabado de fazer dezoito anos. Parece que a gente espera uma vida inteira
até ter dezoito! Ainda que a gente não faça nada de especial, há um prazer
diferente de aniversariar: o mistério e o orgulho de ser “maior de idade” e as
promessas que tem cheiro de independência.
“Vou
viajar sozinha!” - Foi a primeira coisa que pensei. E como uma luva, a
oportunidade veio com um amigo de um amigo.
Era
uma excursão bem diferente. Organizada por uma ordem de freiras da Igreja Católica,
a proposta era uma jornada espiritual. Seguindo os preceitos de Francisco de
Assis, o intuito era um encontro pessoal com o "eu" interior de cada um. Se conhecer e reconhecer
através dos sentidos. Eu achei a proposta boa, sempre fui admiradora de
Francisco, era um bom desafio e barato: só pagaria o transporte que na época
ficou por volta de oitenta reais. Os cinco dias de jornada com alimentação e
hospedagem não teriam custos. Mais tarde eu entenderia o porquê.
É
incrível pensar que com essa idade eu já não causei nenhuma preocupação aos
meus pais. Eu morava com eles, mas há algum tempo criava minha
independência nas atitudes. Quando falei que queria viajar foi quase como uma
afirmação e não um pedido. “Se cuida” –
disseram.
Procurei
uma das irmãs e me inscrevi. Era uma mulher bem velha, baixinha, com o andar
vagaroso e a voz doce. Ela recomendou:
-
Essa é uma viagem que tem gosto de terra molhada, de libertação. Leve algum
dinheiro, mas não se preocupe com isso. Lá é muito quente, leve muito protetor solar,
boné, roupas confortáveis e um bom tênis de caminhada: você irá andar bastante.
E o mais importante: leve na mala apenas o essencial! Leve aquilo que é
realmente indispensável pra sua existência e vá de alma aberta a receber tudo que
essa viagem tem pra lhe proporcionar!
Então
eu fui. Saí do interior de São Paulo num ônibus fretado sentido à Nova Xavantina,
no Mato Grosso com parada em Goiás para descansar. Quando entrei no ônibus,
passei olhando rosto por rosto, cumprimentando a todos na esperança de
reconhecer alguém. Ninguém! Seria uma viagem de oportunidades.
Logo
nas primeiras horas me bateu uma angústia, medo, talvez. Mas a longa viagem até
Goiânia me preparou algumas amizade no ônibus. Isso me deixou mais segura, não
sabia ao certo o que me esperava.
Passamos
uma noite em Goiânia, dormindo numa unidade do convento das irmãs e seguimos no
outro dia cedo para o Mato Grosso. Depois de muito tempo chegamos num vilarejo
longínquo chamado Vale dos Sonhos. Paramos num ginásio grande, que aparentemente era a única coisa grande daquele lugar. Além do nosso ônibus
haviam mais dois: um de Goiás e outro do Rio Grande do Sul. Umas cento e cinquenta pessoas para a
jornada. Todos abriram suas barracas e no meu caso, um saco de dormir, e tomamos
banho no vestiário do próprio ginásio. Mais tarde a organização montou um
banquete: no meio do ginásio colocaram à disposição panelões cheios de
feijoada, arroz, salada, três tipos de carne, macarrão, suco, arroz doce de
sobremesa. Duas caixas grandes de som tocavam música sertaneja, típica do local.
Um jantar bem farto. Comemos e socializamos com os demais participantes. Conheci muitas pessoas com sotaques e culturas diferentes e descobri
aí, a primeira maravilha de viajar sozinha: conhecer pessoas incríveis.
Mais
tarde, uma moça bonita, elegante, pegou o microfone. Ela deu boas-vindas e se
apresentou. Era a enfermeira da jornada. Explicou como tudo seria:
-
A Jornada será realizada em três dias. A ideia é que vocês subam a montanha e
desçam pelo outro lado, passando por paradas estratégicas que receberão vocês
para as refeições. O desafio da jornada é testar o limite de cada um. Quando
chegamos próximo ao nosso limite, nos conhecemos melhor, mergulhamos na
essência e esse é o propósito. No primeiro dia, vocês andarão de manhã, a tarde
e à noite até chegar na fazenda do tio João. No segundo dia, passaremos o dia fazendo
algumas atividades da própria fazenda dividindo-as por equipe. Porém, nesse dia
tem uma regra rígida: é o dia do silêncio. Ninguém falará nenhuma palavra com
ninguém até o sol se pôr. No outro dia seguiremos em caminhada até o nosso último
destino. Vocês não saberão se estará perto ou longe uma parada da outra. Mas
saibam que o percurso total é de 128km. Haverá um carro de apoio o tempo todo
fornecendo água pra garrafinha de vocês e primeiros socorros se precisarem. Se
alguém passar mal, poderá seguir no carro. Um ponto importante: a partir de
amanhã quando começarmos, as malas ficarão no ônibus e vocês só terão acesso a
elas no ponto final da jornada. No carro de apoio poderá seguir apenas
acessórios de dormir: barracas, cobertores e sacos de dormir. Todo o resto que
julgarem essencial deverá ser levado com vocês, na mochila nas costas. Uma última
coisa: boné e protetor são essenciais. Aqui a temperatura média durante o dia é
de 39 graus. Amanhã sairemos daqui pontualmente às 3h30 da manhã. Descansem
bem.
Eu
já comecei a sofrer ali. Eu era preguiçosa e não me agradava nada andar tanto
com peso nas costas! Mas o sofrimento estava apenas começando.
Acordamos
as 3h, fizemos alongamento e no horário estipulado estávamos saindo em caravana
rumo à montanha. Eu entendi ali que os horários eram cumpridos severamente. Nas
primeiras três horas subindo a montanha fomos conversando e nos distraindo com
o céu maravilhosamente estrelado do lugar. O nascer do sol foi incrível e me fez
pensar em Deus. Mas logo a subida íngreme começou a pesar e as costas e as
pernas começaram a doer. Depois de quatro horas caminhando eu já não aguentava
mais e queria desesperadamente sentar. Paramos em algumas pedras pra descansar.
Mal sabia eu que ainda andaríamos mais duas horas. Já era de manhã quando avistamos a única fazenda
naquele meio do nada. Eu rezava para aquela ser uma das paradas. Era! Chegamos na porteira e fomos recebidos por um fazendeiro muito simpático.
Entramos e havia uma mesa com pão, leite, café e frutas à vontade. Eu
quis tirar o tênis, meus pés latejavam. A enfermeira viu de longe eu
desamarrando os cadarços e veio em minha direção.
-
Vai por mim, não tira! Depois que você tirar o tênis será muito mais difícil
controlar a dor e você ainda usará muito seus pés.
Obedeci.
Meia hora depois estávamos andando novamente e o sol cada vez mais forte. A dor
no corpo era generalizada. Eu era muito sedentária, não tinha estrutura para
aquela aventura. Não conseguia mais conversar com ninguém. Estava realmente
penoso pra mim, quase que um calvário. Por volta das duas horas da tarde,
depois de mais quatro horas andando, avistamos outra fazenda.
Essa
segunda era mais majestosa, grande, com várias cabeças de boi. Tinha uma casa
enorme e uma piscina olímpica atrás. Havia também um lago e um estábulo grande.
Ali foi nosso almoço. Nunca agradeci tanto por poder sentar. O cansaço era
tanto que mesmo com muita fome só conseguia pensar nas dores na costas e nos
pés. “Não tire o tênis!” – repetia pra mim mesma. Almocei com os amigos que fiz
no ônibus e mais alguns de Goiás que riam do nosso sotaque paulista puxando o "r" no meio das palavras. O tempo de descanso foi maior dessa vez. Por uma hora e
meia pudemos apenas curtir o descanso. Esse foi outro aprendizado que tive.
Quando uma pausa realmente é necessária, como ela é importante e como tudo tem
mais cor e sabor quando “precisamos”.
15h30 voltamos a andar. Achei que o descanso seria importante para
reativar as energias mas tive uma surpresa ingrata. O corpo esfriou e todas as
feridas que fiz nos pés tornou muito pior a caminhada seguinte. Andamos por
mais quatro horas e meia até a fazenda do tio João. Os últimos quarenta minutos
eu fui mais isolada, penosa. Comecei a chorar sem nem saber bem o motivo. Lá haviam
mangueiras improvisadas para o banho de uma galera imunda sedenta por limpeza. Foi
o melhor banho da minha vida! Tinha canja com pão e suco de janta.
Fui
deitar exausta e tinha a impressão que dormiria em dois segundos. Mas meu
saco de dormir e uma coberta que levei não foram suficientes pra queda de
temperatura que fazia na varanda da fazenda. Eu tremia de frio. Experimentei
nessa situação a graça da solidariedade. As pessoas que passavam e viam eu
tremendo dentro do saco começaram a jogar em cima de mim cobertores. Nem
consegui ver quem foram, mas conseguiram acalmar meu frio. Dormi pesadamente
sem sonhar.
No
outro dia acordamos às 7h, era o dia do silêncio. Fiquei no grupo que era responsável pelas
vacas. Tiramos leite, escovamos os pelos, separamos os bezerros, tudo em
silêncio. A hora não passava! Não poder falar nada era o mesmo que pausar o
relógio do tempo. Experimentei então algo que poucas vezes tinha feito.
Conversei com o olhar.
Em
grupo nós trabalhávamos e íamos nos entendendo pelo olhar. Percebi que a
afeição ficava cada vez maior entre nós pois éramos obrigados a olhar um nos
olhos dos outros e isso intimida, mas também aproxima. Conversar com o olhar
esse dia foi quebrar barreiras pra mim que sempre fui muito tímida. Ainda me
pego, às vezes, desviando o olhar dos outros e considero isso uma fraqueza, fruto
da timidez. Esse dia me fortaleci neste trabalho.
Quando
você não fala, você pensa bastante! E você encaixa pensamentos. Depois que o
sol se pôs houve uma espécie de cultural na fazenda. Uma celebração de festa
junina com várias comidas típicas! Podíamos enfim, falar. Conversei, dancei e
festejei. Conheci mais pessoas que não tive oportunidade antes. Lembro-me de um
garoto que tinha mais ou menos minha idade, sério, bem sereno que veio até mim:
-
Não conversamos muito, meu nome é Arthur! Muito prazer!
-
Muito prazer, Arthur.
-
Prazer! Eu observei você hoje. Não lhe conheço mas por incrível que pareça, eu
já gosto muito de você!
E
fizemos uma boa amizade nesta viagem. Lembrei-me muito da passagem do Pequeno
Príncipe com a Raposa. Ele me contou sua história de vida e que estava na
jornada pra cumprir uma promessa. Sua mãe teve câncer de mama e lutou dois anos
contra a doença. Ele havia feito uma promessa que andaria 70km se sua mãe fosse
curada. E ele achou que a benção foi tão grande que resolveu ir para a Jornada
que era ainda maior. “E sua mãe está bem?” – perguntei. “Sim. Ela morreu o ano
passado.” – e sorriu sereno. Eu entendi e admirei muito um garoto tão jovem e
maduro.
Conheci outras pessoas tão admiráveis quanto o Arthur e percebi mais um
ensinamento de viagem: o mundo é tão grande, tem tanta gente! E cada pessoa
carrega um mundo dentro de si.
No
outro dia, saímos novamente às 3h30. Esse dia experimentei o pior sentimento
que podemos sentir: medo. Ainda estava escuro quando passamos do lado de uma
fazenda. Com a lanterna no chão íamos iluminando o caminho quando ouvimos o
gado desesperado correndo de um lado para o outro. Foi no chão que vimos
o porquê. Pegadas de onça estavam por todo lado no caminho e um biólogo que
acompanhava a gente pediu pra desligarmos as lanternas e passarmos em silêncio.
Estreitamos o caminho nos apertando em amontoado, todos respirando medo. Mas
não medo da(s) onça(s). Medo do gado estourar a cerca e esmagar a gente.
Provavelmente a onça estava cercando eles e desesperados eles corriam juntos,
mais de cem cabeças de gado vinham até perto da gente e voltavam para o outro
lado. A luz poderia atraí-los e seria pior. Era um barulho ensurdecedor e
medonho de um gado aflito. Poucas vezes na vida eu senti um medo tão real de
morrer.
Mais
tarde neste dia tivemos outra surpresa: o carro de apoio que andava na nossa
frente passou por cima de uma sucuri. Passamos pelo animal morto com marca dos
dois pneus e por mais trágico e egoísta que foi, eu fiquei extasiada de ver
esse animal de perto.
Esse
dia andamos mais sem paradas. Depois de um dia de descanso eu já estava melhor,
mas mesmo assim, foi muito cansativo. Não saber se estava perto ou não de
chegar a algum lugar era a pior sensação. Não poder direcionar o próprio limite
em função do tempo.
Andamos
neste dia oito horas sem parar. Não estava mais aguentando. Queria chorar
novamente. Me senti fraca e boba por isso. Sol muito forte, dor no corpo todo e
pés esfolados. Meu tênis já estava acabado: era dali pro lixo. Além de tudo
isso eu estava com muita fome. Minha barriga doía e me arrependi de não levar
nessa viagem algumas barrinhas de cereal. Até que escutamos algo que não era o
vento, nem as folhas balançando, nem os pássaros. Ouvimos barulho de água!
Êxtase é a palavra ideal pra descrever o que senti. Havia água em algum lugar e
isso poderia significar que estávamos chegando ou não, mas que tinha um rio
ali.
Sim!
Nós chegamos! Havia uma estrutura de barro batido minúscula escondida no meio
da mata de cerrado. Era uma pequena capela e só cabia uma pessoa por vez.
Quando chegou minha vez de ver foi incrível. Tinha lá dentro uma imagem de São
Francisco de Assis com uma orquídea crescendo em volta. Era uma mina e pingava
água abaixo da imagem. Experimentei um sentimento de gratidão por estar ali.
Por ter tido a possibilidade de fazer essa viagem. Depois, seguimos o barulho da
água até avistar o rio. Não deu tempo de pensar muito. Alguns caíram no rio de
roupa e tudo! Eu tirei meu tênis, minha meia estava grudada de sangue. Tinha
cortes e bolhas por todo o pé e muita sujeira. As unhas estava pretas. Tirei
minha calça, minha camiseta e boné e me joguei na água. Havia um bando de louco
extasiados nadando e rindo sem motivo. Exaustão de repente virou felicidade. E
realmente: eu estava muito feliz! O rio lavou todo o meu pesar. A sujeira do
corpo e da alma e enquanto eu boiava, refletia sobre a minha viagem e o
propósito que foi colocado: “gratidão” – eu pensava – “gratidão universo!”. Eu
entendi o essencial. Entendi os limites do corpo e aprendi muito de alma!
Na
volta, paramos em Caldas Novas/GO e aproveitamos pra conhecer o rio de água quente.
Cheguei
na minha cidade já era de madrugada. Chamei um táxi até minha casa. Não havia
ninguém acordado, mas em cima da mesa tinha uma toalha bem bonita estendida.
Café, pão, frios, um bolo de fubá e um pacote de doce de padaria que eu adoro.
Tinha um bilhete da minha mãe dizendo:
“Bem-vinda de volta! Não importa pra onde você for a partir de agora, sempre terá pra onde voltar”.
“Bem-vinda de volta! Não importa pra onde você for a partir de agora, sempre terá pra onde voltar”.
E não importa o lugar, eu nunca mais parei de ir.