Eu lembro que um dia fui criança e vi um mundo todo azul. Me recordo de quantas vezes, fui dormir pensado “nunca mais posso esquecer o dia de hoje, foi o melhor da minha vida!”. Quantos melhores dias da minha vida eu tive... Muitos deles foram tão simples e nossa! Foram mágicos! E muitos melhores dias foram noites de natal, pois é...
A família se reunia para a Santa Ceia. Os adultos montavam a árvore de natal na garagem da minha casa em cima de um grande tapete. Deixávamos o portão aberto pro Papai Noel poder entrar, afinal minha casa não tinha chaminé.
Recordo-me de ser tão feliz que chegava a doer achar que aquele dia ia passar.
Acreditava fielmente que o Papai Noel viria. E que naquele ano eu poderia vê-lo. Poderia pegá-lo de mancinho a colocar os presentes debaixo da árvore. Eu o agradeceria por todos os outros anos que não pude agradecer. E depois diria pra toda a primaiada que eu o vi. E diria como ele realmente era em cada detalhe. Desde seu rosto, suas roupas, até suas Renas, seu trenó...
Eu nunca o vi. Mas todos os anos ele conseguia entrar. Deixava um presente pra cada criança. Todos ganhavam. E cada ano era uma surpresa melhor que a outra.
Papai Noel nunca me fez mal. Nem mesmo quando passei a entender que meu Papai sempre foi mais Noel que ninguém. Mesmo sabendo disso, a magia me fez um dia muito feliz. Porque na noite de natal, o mundo ficava mágico. Imaginava que as pessoas paravam para cantar “Noite Feliz” e que neste dia não havia maldade. Só paz e felicidade, como a minha.
O que aconteceu comigo? Cadê as luzes brilhantes iluminando meu coração?
Esse ano é o primeiro que passo na angústia. Na aflição de ser adulta. Queria tanto ser criança novamente! Queria agradecer a Jesus por ter nascido nesta noite e queria esperar atrás da porta o Papai Noel chegar. Queria ficar ansiosa pela Ceia e poder ver todos reunidos novamente.
Só nesta noite, não queria ter problemas, nem pensamentos ruins. Queria poder passar o Natal sabendo que todos estão comendo e bebendo como eu. Queria muito isso. Queria que no meu coração, reinasse sentimentos bons como paz, felicidade, caridade, amor, respeito, ternura, queria de novo a inocência nessa hora.
Queria que meus Natais daqui pra frente fossem mágicos novamente. Queria (só por um dia) que as pessoas parassem de falar que Papai Noel não existe e que é tudo uma grande jogada de marketing pra aumentar as vendas no final do ano. Queria que parassem de falar que o Natal é uma data estratégica e não deveria ser comemorado, pois nem mesmo Jesus nasceu neste dia. E daí? Quantas crianças hoje deixam de sonhar por causa disso? Por causa de adultos sem magia, sem imaginação?
Queria poder acreditar que todas as crianças têm pais iguais aos que eu tive que alimentavam meus sonhos de menina e me ajudavam a criar um mundo de fantasia. Naquele momento eu não queria ser madura. Eu queria apenas ser criança. E graças a eles, fui por muitos anos.
Para as crianças, é esse o Natal que desejo. Para os adultos insanos e embaraçados como eu: perseverai no amor. É isso que tento nos meus Natais sem brilho.









