segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Pés Sujos

Hoje ao final do dia, após um bom banho, deitei no colchão e olhei meus pés. Estavam sujos. Sujos de tinta. Ontem eu fiquei mais de uma hora esfregando o corpo todo pra tirar os respingos de verniz embuia após revitalizar meus pallets.

Esfreguei muito meus pés. Passei escova, encharquei o pano de águarras e quase me esfolei na limpeza. Olhando meus pés agora, até sorri. Que coisa! Que trabalho mais mal feito esse que foi limpar meus dedos! Estão todos borrados de tinta como se estivessem encardidos!

E que contradição. Eu revitalizei meus pallets e estou doando agora metade deles. Só Deus sabe o quanto deu trabalho! Lixar, cortar, envernizar, limpar os pés... E no final doei metade. Simplesmente porque deu tanto trabalho e até que não ficou tão bem feito... Enjoei!

Olhando meus pés com reboco de verniz entre as unhas, me reconheci como nunca. Isso é tão eu! Depois me deu uma vontade de me olhar no espelho. Vi que estou precisando de umas manutenções. Fazer a sobrancelha, tirar o buço... Também faz parte de mim esquecer dessas coisas. É o máximo que consigo. Não posso usar de tempo pra pintar as unhas. Ou secar o cabelo ou passar a minha roupa. Não posso fazer essas coisas. Não me cabe, não é de mim. 

Eu sempre tive esse jeito. Pouco me interessa na vida a vaidade. Claro, eu gosto de me sentir bonita, e de ser desejada também. Mas não invisto muito do meu tempo nisso e admiro quem investe. 

Afinal, no que invisto meu tempo? As vezes, me pego pensando nisso. Talvez eu esteja em construção e ainda tenha que lapidar meu tempo no mundo. Distribuir melhor as atividades da vida. 

Mas no final das contas, eu me pego sempre na saga dos pallets. Eu invisto esforço, trabalho em coisas assim, diferentes. Eu defino um objetivo praquilo e faço. Mas, no final, eu mudo de ideia, quase sempre.

Mudar é uma coisa que gosto. De ideia, de hobbies, de rotina. Mas o comodismo também me abraça e eu acabo gostando dele. 

Meus pés sujos não dizem nada, mas falam muito de mim. Talvez haja um certo comodismo em pés sujos. 

Eu gosto de trabalhar! Essa é a minha certeza. Mesmo sem emprego formal, nunca fiquei parada. Fazia trufas e vendia na escola, fazia ovos de páscoa, fazia bico por aí, fui voluntária muitos anos. 

Pode ser que eu mude. 

Pode ser que com o tempo, eu me preocupe mais com os resultados que com o processo.

Pode ser que eu não saia mais de casa sem passar batom. 

Pode ser que eu cuide melhor das unhas. 

Sou mutável. Não me envergonho disso. E me arrependo sim, de muitas decisões que tomei. Coisas ruins que já fiz ou que falei. Estou tentando acertar, e mesmo assim, as vezes erro. 

Ainda tenho pés sujos. Por enquanto ainda sou assim e me amar deve ser difícil por isso. Por essa inconstância, esse jeito estranho-comum. 

As vezes, eu choro. Ontem mesmo chorei um pouco. Vi uma matéria no jornal de um jovem que foi preso injustamente. Já soltaram ele, a base de muito protesto. Mas doeu em mim a história. Não me pressione! Também não sei o porquê. 

Sou força toda! Por mais que eu chore e meus pés estejam sujos. Tenho uma força interna que me energiza. Uso ela pra continuar. 

Me aceite! Sou insignificante no mundo. Só sobrevivo assim como os outros. Assim como você. 

Vivo, convivo e sobrevivo. E meus pés estão sujos de verniz.