quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O dia que roubaram minhas crônicas

Eram eu, meus pensamentos e um professor de português.
Sempre admirava a maneira como ele ensinava. Sua maneira de portar aos alunos, aquele português perfeito na fala, uma gentileza e humildade que eram só dele, e mais, ele era escritor. Isso tudo fazia de mim sua fã número um. (se ele era bonito? Não.... admiração de aluna mesmo!).
Eu gostava da matéria e gostava de escrever. Um dia tive uma idéia. Com muita timidez, mas grande expectativa, pedi a opinião do professor para algumas de minhas criações.
Meu grande erro.
Ele analisou alguns dos meus textos. Elogiou, deu dicas, corrigiu. E pediu mais. Perguntou se eu não me interessava em publicar. Eu escrevia bem e era novinha. Seria um ponto positivo a meu favor, ele dizia. Quanto mais ele me falava que eu tinha futuro, mais eu me enchia de alegria e sonhos, como uma menina que sonha que um dia será uma grande bailarina para ouvir o clamor da platéia, eu sonhava em escrever para alguém ler, se identificar, em indicar como eu fazia com tantos autores. Queria que alguém fosse tão meu fã quanto eu era daquele professor.
Porém certo dia ele me preocupou. Perguntou se eu tinha patenteado meus textos.  Eu disse que não. Então ele falou que eu tinha que tomar muito cuidado e não mostrar a ninguém, pois era muito fácil roubarem os textos de mim. (Hoje quando lembro penso no Latino :p).
Enfim, o ano correu. Acabaram minhas aulas e minha vontade de publicar os textos. Percebi que não poderia ter fãs. Eu era adolescente com aquele humor bipolar. Uma hora queria escrever um livro, na outra queria rasgar livros! E junto com os elogios viriam as críticas. Não estava preparada para isso. Guardei tudo pra mim mesma. Pelo menos era o que eu achava.
No outro ano, não tive aula mais com ele. Percebi que ele passava por mim sem dar muita bola. Eu era só mais uma ex-aluna. Me conformei.
Certo dia, passando pelo mural de avisos da escola, vi que o professor estaria publicando naquele mês mais um livro. Fiquei super contente por ele. Quando saiu, a escola comprou um.
Então fui até a biblioteca emprestar seu novo livro. Seria indelicado dizer aqui o nome do livro, mas era um título incrivelmente inteligente. Vários contos e crônicas estilo Pedro Bandeira e Fernando Sabino. Estilo eu. Espera aí! Era eu! Era meu! Meu ídolo tinha me roubado. Não gosto muito dessa palavra “roubado” é forte. Ele DEFRAUDOU algumas das minhas crianças.
Que decepção! O cara que eu admirei tanto! Ganhou dinheiro com meus contos... Foi um dia de muita tristeza pra mim. Meu coração sentiu a dor de uma traição diferente. Aquela que gera muito mais amargura que raiva.
Mas aprendi uma lição com tudo isso: Nunca se subestime! Pois é. É essa a lição. Imagino que eu era muito boa mesmo. Pois, pra um adulto roubar meus pensamentos... não é?
Só não me decepcionou mais que no caso do “Prepotente e Imatura”, mas isso é pano pra outra história, um dia eu conto...