segunda-feira, 5 de maio de 2014
Gente Desinteressante, Gente Desinteressada
Eu conheço e convivo com muitas pessoas todos os dias, mas observando profundamente minhas relações, concluo que apenas coexisto. Não convivo. Isso é triste mas é verdade.
Observo que as pessoas estão a todo tempo conectadas às redes sociais, postando e compartilhando acontecimentos. E no final do dia, pouco convivem, compartilham, apenas reproduzem.
Faz muito tempo que não sinto a sensação de estar em um lugar e não querer ir embora, ou não querer que aquele momento acabe.
De não ver a hora passar. De gargalhar até doer a barriga ou falar de coisas interessantes, ainda que banais.
O que me entristece é que no ato de ser quem somos no dia a dia, quando o convívio é o agora, encontramos pessoas desligadas. Pessoas simplesmente desinteressadas por nós. E pessoas extremamente desinteressantes, que falam de pessoas e insistem no passado. Não olham pra frente, não procuram o novo. Não inspiram ideias e ideais.
Lendo algumas colunas e crônicas, observo que não sou a única que sofre desse mal que é a saudade do interessante. E qual é a dificuldade desses caminhos se encontrarem? O que nos impede de contatar o "legal"?
sábado, 29 de março de 2014
De todos os Chicos
Como pude me esquecer que de todas as pessoas, dessas fantásticas que conhecemos na vida e nos valem cada minuto juntos, o maior merecedor é o velho Chico! Acabei deixando passar parte dessa vida de devaneios literários sem contar a história mais interessante.
Tenho que admitir, o Chico é meu amigo mais velho. E mais novo, com toda
certeza. São 78 anos na data deste texto, o que vai se estender muito, claro.
Espero! Mas sua alma é sorrateira, sagaz e desliza nesse mundo de forma
incrivelmente jovem, logo você entenderá.
Ele mesmo, pelo fato de somente existir já nos dá ideia de sua grandeza. Parece muito com aquelas figuras animadas, personagens do Wall Disney. Alto, magro, com uma leve saliência abdominal que fica maior na sua corcundez, tem ralos cabelos brancos, orelhas pontudas e grandes que seguram seus óculos fundo de garrafa. Na maior parte do tempo, usa camisa social por dentro da calça passada por um cinto marrom. Ora está de sandálias, ora de sapatos, sempre combinando com o cinto, em gesto elegante de “tom sobre tom”. Anda de forma lenta, com passos miúdos e por vezes, com ajuda de uma bengala. A idade chegou, enfim, para a matéria. Sua voz é grave e alta e seu maior orgulho é de ser vegetariano desde criança, o que já vi ser causa de gritos insatisfatórios em bufês que não consideraram sua dieta.
Penso que talvez, por sua notória vida de desafios e sua idade já em seu
esplendor, lembra muito nos momentos de prosa de seus tempos de professor de
ciências, onde a luta pelas causas ambientais que discutimos hoje, justamente
originaram. E ele participou. Ele sempre participa de tudo que surge. É como um
livro ambulante onde podemos tirar as melhores histórias.
Permito-me, pela intimidade que tenho com o Chico, de falar, de fato quem ele
é. E para começar, confesso que é bem rabugento. O Chico é maestro da teimosia.
E tem uns lapsos de repouso imediato, que na sua idade é compreensível. Ele
dorme! Em reuniões, palestras, enfim, apaga. E acorda. Antes de terminar o
evento, abre os olhos e volta aos poucos e como um bom participante, quer dar
sua opinião, mesmo que o assunto não seja mais o de antes de seu repouso. Ainda
assim, sob essa desmedida e frequente manifestação inoportuna, todos respeitam e
deixam o Chico falar. Sabem o quanto ele é especial e simplesmente lhe dão o
momento. Outra característica nata do Chico é amolar. Ele atormenta todo mundo.
Faz piada, cumprimenta, mesmo não conhecendo a pessoa. Ele se dá esse direito
de aporrinhar. Ele grita você no meio da multidão, faz piada sobre uma situação
da sua vida, com humor e sagacidade que só um bom articulador de ascendência italiana pode fazer. Tudo
com muita maestria e respeito. De certo, às vezes perde o fio da meada e debocha
até demais. E quem liga, afinal?
Às vezes, ficamos de mal. Não é raro, nós brigamos bastante. Mas, assim como
vem a chateação, não termina o dia sem que voltemos a brincar. Somos como dois
amigos de seis anos de idade brigando por coisas bobas. A diferença é que o
Chico é só cinquenta e poucos anos mais velho que eu, o que nunca foi caso na nossa amizade.
Ah, sim! Nossa amizade! Preciso contar-lhe a parte do Chico que ninguém lembra comumente. Não são elogios, apesar de parecer. São qualidades da personalidade deste velho enigmático.
O Chico é extremamente humilde. Tão, mas tão humilde que chega me dói.
Ele não se eleva por nenhuma razão, mesmo que seja o maior entendedor do
assunto. Ele está sempre disposto a aprender e se encanta com o conhecimento
dos outros. Ele admira pessoas inteligentes. Ele nunca cansa de elogiar suas
qualidades e se você faz algo básico, mas único, nunca será visto com pequenez
por ele. Ele considera dons. Ele se alegra com suas conquistas. Ele até chora
por você! Hoje, alguém chora por você?
O Chico é uma das pessoas mais generosas que já conheci. Ele partilha o que tem
e sua ambição é a bondade humana. Ele dá espaço para você se sentir especial.
O Chico tem esperança no mundo. Sabe o quanto isso é difícil hoje? Ele acredita
que as coisas vão mudar, que as pessoas serão melhores, que o rio Tietê será
limpo, que o mundo tem jeito. Imagino quantas desilusões ele sofreu em toda sua
vida e ainda assim, ele chora quando lembra de algo bonito que viu ou alguém
falou.
E o que mais gosto no Chico é que ele me deixa ser amiga dele. Não colega - menina
que ele conheceu - garotinha que tem muito o que aprender com a vida... Não!
Ele me deixa ser sua amiga. E amizade significa você colocar a pessoa no mesmo
patamar que você, deixar a pessoa participar da sua vida, dando-lhe conselhos e
conversando sobre tudo... Nós trocamos ideias e como isso nos faz bem. Eu
enriqueço minha vida com o Chico e ele tem minha companhia para qualquer hora
que precisar.
O que paira sobre nossas árvores são ventos de reciprocidade. Não existe etarismo sobre nós. E por isso, é belo e fácil!
Eu adoro o nome Chico. Lembro-me de São Franscisco de Assis que preenche as prateleiras da estante na casa do Chico e que eu já avisei que serão todos meus quando ele morrer (na falácia de que o Chico irá primeiro!). Como eles são parecidos...
O Chico é puro, é limpo. A maldade que seus pés pisam, não transmuta seu coração. E se existe um céu, de certo, sua chave já está nas mãos do Chico.
Mas, calma! Antes de partir nesta jornada e encontrar tudo aquilo que ele
sempre quis ver aqui: rios de águas cristalinas, bosques de árvores balançando
com a brisa suave de seu deus, com todos os animais correndo livres pelo paraíso e
pessoas compartilhando ternura sem sofrimento, antes de tudo isso, quero
aproveitá-lo. É um privilégio conhecer, neste espaço-tempo, o Chico. Ele é único
no mundo! Sua partida deixará o mundo menos colorido. O arco-íris da vida
perderá uma camada, aquela dourada de pontas arcadas, pois sua luz erradia. A
natureza se curvará, triste, por mais que sua energia seja eterna.
Penso que eu e o Chico achamos um ao outro
neste mundo e permutamos nossa amizade por motivos divinos. E deveras isso me incomoda, dada minha fé desnuda. Mas, não tem explicação.
Chicos assim, estão em extinção. E por isso, essa saudosa manifestação de
carinho. Agradeço ao meu velho amigo por essa jornada de conhecimento e
aprendizado e afirmo que de todos os Chicos, o meu é o mais especial.