terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Extraterrestres



De contos, séries, filmes à lendas. Não podemos negar que a ufologia é quase que uma arte. Porque cutuca o buraco do curioso. O interessante é chamativo, vale nossa atenção. ETs são interessantes pois faz-nos um São Tomé. Quem nunca viu, vai duvidar. Quem já viu, vai jurar.

Agora pra te causar aquela leve sensação de descrença embalada na inveja, vou contar a você que eu já vi. E vou relatar como é que foi isso. Aqui, nesses rabiscos de contos verdadeiros e imaginários do blogue, cabe a você dizer se é verdade ou se você é São Tomé hoje.

Lá no norte de Minas, numa cidade famosa pela arte da cachaça, vive um velhinho com seus 90 anos de idade, entre as matas de transição do cerrado. Esse homem é meu vovô. 

Seu nome é José, mas pra nós, seus 22 netos: o vovô Zeca. A gente fala vovô porque depois dos 80, a palavra “vô” obrigatoriamente passa a ganhar mais um “vo”. Porque é muito tempo de vô, entende? E pra um moço que já é bisa faz um tempo, cabe esse carinho. 

Meu vovô é tradicionalmente um caipira. E é sabedoria pura. Nunca teve medo de cobra, escorpião ou qualquer coisa que a mata do curupira possa apresentar. Até alguns anos atrás o vovô tinha apenas um medo nessa vida: assombração. Mas a última vez que o vi, foi com dor e admiração no coração que percebi que o vovô já está pronto pra partir. Ele disse com convicção: “Não tenho medo de nada nessa vida. E só como e bebo porque a carcaça do espírito ainda precisa”. 

Dessa fonte de riqueza já ouvimos muitos relatos de encontros com ETs. Mas como todo caboclo, o vovô aumenta tudo. Um peixe grande, literalmente. Por isso as histórias se misturam com estórias e a gente só aproveita, sem a preocupação com a verdade.

Mas um certo dia...

Fomos visitar o vovô lá no sertão. O sítio dele fica no meio de quilômetros de pura roça, numa paisagem de quadros pintados. A casinha é uma casa melhor hoje. Os filhos cresceram e melhoraram a vida deste velho. É uma casinha confortável, onde cabem todos nós. Em volta da casa, tem todos os pés de frutas que a seca e a quentura do lugar deixou crescer. Tem porco, galinha, pintinho. E tem o barulhinho de água do riacho que passa na baixada do sítio. Nossos hobbies são coisas de Minas Gerais: Comer muito, andar a cavalo, nadar no riacho, ver as estrelas a noite...

E nesse céu, que é o mais estrelado de todos que eu já vi por aí, que vimos o que vimos. 
Nós costumávamos estender um tapete sobre o chão de terra, apagar as luzes e ficar contando as estrelas ao som das histórias do vovô. Até que numa dessas noites, meu primo viu uma estrela diferente. 

Era uma estrela maior, seu brilho era meio avermelhado. Mas ela não pulsava brilho como as outras. Ela fazia um movimento de tremor no mesmo lugar. Como se estivesse sendo chacoalhada por alguém. Ficamos um tempo olhando aquilo. Percebemos que estava mais próximo que as estrelas. Confesso que fiquei com um pouco de medo. Depois como se sempre estivessem ali e nós não tivéssemos percebido, fazendo um triângulo equilátero perfeito, estavam mais duas estrelas iguais a essa. Com a mesma cor e o mesmo movimento. Chamamos o resto do pessoal que estava dentro de casa pra ver. Todos nós, adultos e crianças ficamos deitados no chão olhando os três objetos. Não sei com precisão por quanto tempo, mas ficamos uns 30 minutos olhando. Até que, num movimento rápido, os três objetos saíram do lugar. Ficaram os três bem próximos entre si e mais perto de nós. O formato dos objetos era arredondado e era difícil saber com clareza, tamanho era o brilho que reluzia. E bem devagar eles foram se alinhando em fileira. E ficaram ali por mais uns 15 minutos. Depois, como num passe de mágica, eles foram desaparecendo um a um. 

Confesso uma coisa. Se eu estivesse sozinha, acharia que foi uma visão criada pela minha cabeça. Porque eu tenho mente fértil o suficiente pra enganar a mim mesma. Mas estávamos em várias pessoas e todos nós vimos a mesma coisa. 

Não saiu de lá um Zepelim gigante, nem um Et fazendo aquela saudação esquisita com a mão de Star Wars. Mas todos nós descartamos a possibilidade de serem estrelas ou cometas, pelo modo sincronizado e diferente dos movimentos. 

Eu, que não tenho dúvidas que existem ETs, fiquei em choque e morrendo de medo de um contato. Meu pai, um descrente, apoiou a teoria do descarte, mas não acreditou na teoria dos ETs. Pra ele era um objeto não identificável. 
Para a ciência, o que não se explica não pode ser comprovado. Para a ufologia esse termo significa “Óvnis”. 

No final da discussão, todos olhamos pro vovô, de cócoras no chão, como se esperando um veredito final da situação. 
Ele levantou devagar, colocou o chapéu na cabeça e exclamou:

- Eu vô dumi. Deus bençoe ocês.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Gosto por Neruda

Não sou muito fã de poesias. Penso, às vezes, que para ser poeta e gostar de poesias é preciso ter a sensibilidade a flor da pele. É necessário entender o oculto. Sou muito superficial pra isso. Sou explosão de sentimentos meramente superficiais. Mesmo assim, já li e leio de vez em quando alguns poemas. 

Desse modo, poetas já me tocaram o coração. Cecília Meireles com suas Luas Adversas e Patativa do Assaré com seu (Meu) Protesto, por exemplo. Cada poeta tem seu tempo e sua verdade. E como é legal observar essas verdades que refletem suas personalidades. 

Hoje vou falar de um conterrâneo latino muito conhecido e prestigiado: Pablo Neruda. Gosto dele. 

A primeira poesia que li de Neruda é essa que vou colocar aqui. Me tocou a pele. Eu a senti. E o interessante disso é que Neruda morreu em 1973. E novamente esse fascínio atemporal. 
Gosto da biografia do Neruda e de suas frases emblemáticas como:

"Um homem só encontra a mulher ideal quando olhar no seu rosto e ver um anjo e, tendo-a nos braços, ter as tentações que só os demônios provocam". 

Ele foi um homem ousado e um poeta romântico e apaixonado. 
Paixão e romance: boemia pura. 

Ah! Peço perdão aos poetas por rabiscar baboseiras aqui de vez em quando. 


Soneto LXVI 
Pablo Neruda

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não querer-te chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.

Quero-te só porque te quero.
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te como um cego.

Talvez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,

Nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor, a sangue e fogo.

 

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Festas surpresas

Festa de aniversário não é um consenso. Tem gente que gosta de aniversariar e adora comemoração, festa, presentes. Outras pessoas não. Tem quem não goste nem que lembre do dia que nasceu.

Eu sou meio termo. Gosto que lembrem do meu aniversário e sempre faço algo com meus amigos, como sair e beber uma cerveja. Mas não gosto de me expor e eles sabem disso. Gosto de coisas simples, como um gesto de carinho, uma mensagem, um cartão. Não ligo pra presentes caros. Ligo pra presença. E por isso valorizo o aniversário dos outros também.

Durante a minha vida, lembro que eu tive duas festinhas surpresas. Uma quando fiz 7 anos, organizada pelos meus pais e outra quando fiz 13, pelos meus amigos. Confesso que, apesar de hoje eu sentir gratidão por terem feito isso, não gosto de festas surpresas. Gosto que me surpreenda, mas de coisas discretas, como já disse.

Vou contar como foi minha primeira festa surpresa, a dos 7.

Deus me livre de mim nessa época. Eu era uma criança da peste! 

Minha mãe teve muito trabalho pra organizar, pois eu era muito esperta. Uns dias antes, fui convencida a dormir na casa da minha tia, o que já foi um sacrifício. Minha irmã era recém nascida e eu achava que era a responsável legal dela.  Ela não sobreviveria sem mim! Mas eu fui, e me convenceram da seguinte forma: 

- Se você for, depois de amanhã, nós te levamos pra comer pastel na festa da igreja.

Não tinha coisa mais emocionante na vida do que ir na festa da igreja comer pastel! Primeiro, porque meus pais não eram religiosos, sendo o local sempre novidade. E segundo que essa festa lotava, enchia de adultos, que não eram meus pais. Eu me sentia importante e adulta indo na festa da Matriz. Enquanto estava na casa da minha tia, minha mãe mandou um vestido lindo pra eu usar na festa. Mas eu odiava vestidos e já dei meu primeiro nó. Foi difícil minha tia me convencer a usá-lo. Seu melhor argumento foi:

- Nossa! Parece que você está fazendo dezoito anos em alguns dias, não sete!

Aí eu coloquei ele. Eu tinha essa coisa de querer ser adulta. Talvez porque os adultos se respeitassem mais. Fiquei dois dias sonhando com aquela muvuca toda. Todo mundo jogando bingo, dançando, conversando e aquele pastel delicioso... hum... 

Até que o dia da festa chegou. Minha tia até deixou eu usar o perfume dela. Antes de ir pra festa, ela falou que teve uma ideia.  

- E se a gente passasse na sua casa pra ver se seus pais querem ir também?

Fiquei brava. Já estava imaginando toda a independência sem meus pais e minha tia tem essa ideia?! 

- Acho ruim.
- Mas e se sua mãe quiser pastel também?
- Ela vai outro dia e compra.
- Está bem. Não vou chamar eles. Mas, vamos ter que passar na sua casa pra que eu pegue meu casaco que ficou lá, tudo bem?
 E eu lá, tinha escolha?

Chegando na minha casa, percebi que a rua estava cheia de carros, mas não desconfiei de nada. As luzes estavam todas apagadas e já pensei comigo: "Eu saio e eles apagam as luzes! Será que eles não sabem que o bebê não gosta de escuro?? Tenho que ensinar tudo!"

Quando minha tia bateu no portão, minha mãe abriu a porta e de repente:

- SURPRESA!!!

Acenderam-se as luzes, meus olhos ficaram num clarão só por um instante até que consegui enxergar de onde vinha aquele barulho todo. Uma multidão de pessoas me rodeando por todos os lados, olhando pra mim e cantando alucinada e freneticamente "parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida". Tentei localizar alguém conhecido e parecia naquele instante que eram todos ETs, que minha família inteira tinha sido abduzida desse mundo e que a cabeça de todo mundo estava naquele momento mais inchada, como um balão. Olhei pra frente e localizei minha mãe com aquele sorriso de orelha a orelha me olhando, empolgada. Olhei para o meu pai num cantinho afastado balançando minha irmã no colo. Olhei pro lado, havia uma mesa, com um bolo enorme, cheia de doces e outras duas do lado, cheias de salgados, pães com salsicha, refrigerantes (festa anos 90, saudades!). Naqueles momentos finais do parabéns foi que comecei a entender o que estava acontecendo. E as cabeças inchadas foram começando a esvaziar e fui reconhecendo tios, tias, primos, primas, vizinhos, amigos dos meus pais, mineiros infiltrados, o papa. 

Até que o parabéns acabou. 
Todo mundo que estava sorrindo foi parando com a excitação e ficaram olhando pra mim, com cara de curiosidade. O ambiente foi silenciando ainda mais até que só escutava-se o grilo no jardim. 

Foi então, que um conhecimento súbito se apropriou de mim. Arregalei os olhos pra minha mãe na minha frente, virei a cabeça e olhei pra minha tia atrás de mim e me empoderei de uma raiva muito grande, me fazendo gritar bem alto, soletrando cada sílaba:

- EU QUE RO CO MER PAS TEL NA I GRE JA!!!

Sim, eu era terrível.



sábado, 3 de setembro de 2016

Roda Viva, MPB4, o Velho Chico, novamente + Engenheiros do Hawaii

Senti vontade de falar de música de novo.O blogue é meu, bom ou ruim, posso falar do que eu quiser né? E hoje quero misturar tudo. Porque estou com vontade e pronto.

Eu sempre gostei de velharia. Desde criança ouço canções da Elis Regina, Clara Nunes, Chico Buarque. Um pouco, por influência do meu pai que tinha muitos vinis de MPB. E porque sempre tive um espírito meio velho mesmo. Temo ter nascido um pouco atrasada, mas talvez se nascesse na década de 70, por exemplo, gostasse de coisas da década de 50 e assim por diante, pois talvez o que eu goste mesmo seja contrariar a vida, a roda viva.

Por falar em Roda Viva, está aí uma das canções que adoro.
Ela foi escrita por Chico Buarque para uma peça teatral dele mesmo, chamada também Roda Viva. Nada tinha a ver com a ditadura (como muitos pensam) e sim uma reflexão sobre a história de um cantor "engolido" pela massificação midiática. O que aconteceu é que em 1968, enquanto a peça estava rolando, o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) invadiu o teatro, depredou todo o cenário e meteu o cassete em todo mundo. Por isso, a música foi associada à ditadura militar e ficou tão famosa.

Mesmo assim, é uma letra reflexiva. Acho uma obra prima, dentre muitas desse poeta.

Gosto dessa música cantada pelo quarteto MPB4 do qual sou uma grande fã desde menina. Não sei o que realmente me faz gostar tanto deles, mas eu gosto muito, muito mesmo. E é uma das minhas metas de vida, ir no show deles. Do Chico não faço muita questão, mas deles sim. E preciso realizar logo meu desejo, já que não são tão jovens assim mais. (Queria ver o Vander Lee também, admiro muito sua história, e o cara me morre tão novo!).

Outra música que amo e acho que compartilha um pouco da reflexão de Roda Viva sobre a massificação das coisas e a desvalorização do indivíduo é Terra de Gigantes, dos Engenheiros do Hawaii. Comecei a ouvir os caras com meus 11 pra 12 anos de idade e desde então gosto muito.

Pronto, vou parar por aqui, senão eu continuo escrevendo, escrevendo e escrevendo sem parar, porque hoje estou empolgada. E deixo aqui meu apreço por tudo isso embolado que citei.

Roda Viva
Chico Buarque


Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

Roda mundo, roda-gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

Roda mundo, roda-gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

https://www.youtube.com/watch?v=HvK2LYDYLj8

Terra de Gigantes
Engenheiros do Hawaii


Hey, mãe!
Eu tenho uma guitarra elétrica
Durante muito tempo isso foi tudo
Que eu queria ter

Mas, hey, mãe!
Alguma coisa ficou pra trás
Antigamente eu sabia exatamente
O que fazer

Hey, mãe!
Tem uns amigos tocando comigo
Eles são legais, além do mais
Não querem nem saber
Mas agora, lá fora
O mundo todo é uma ilha
A milhas e milhas
De qualquer lugar

Nessa terra de gigantes
Que trocam vidas por diamantes
A juventude é uma banda
Numa propaganda de refrigerantes

Hey, mãe!
Já não esquento a cabeça
Durante muito tempo
Isso era só o que eu podia fazer
Mas, hey, mãe!
Por mais que a gente cresça
Há sempre alguma coisa que a gente não consegue entender

Por isso, mãe
Só me acorda quando o sol tiver se posto
Eu não quero ver meu rosto
Antes de anoitecer
Pois agora lá fora
O mundo todo é uma ilha
A milhas e milhas e milhas
E milhas e milhas e milhas e milhas

Nessa terra de gigantes
Que trocam vidas por diamantes
A juventude é uma banda
Numa propaganda de refrigerantes

Mega, ultra, hiper, micro
Baixas calorias
Quilowatts
Gigabytes
Traço de audiência, tração nas quatro rodas
E eu, o que faço com esses números?
Eu, o que faço com esses números?!

E nessa terra de gigantes
Eu sei, já ouvimos tudo isso antes
A juventude é uma banda
Numa propaganda de refrigerantes

Hey, mãe
Hey, mãe

 https://www.youtube.com/watch?v=LU9deI7Czy8











sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Meu primeiro namorado



Esses dias, estava relembrando com minha mãe o dia que comecei a namorar. Meu primeiro namorado. Devo até desculpas a ele, pois nem mesmo lembro quem é. Lembro do nome dele, mas não do rosto. Talvez se eu ver ele na rua, vinte anos depois, eu o reconheça e caia na gargalhada ou talvez não. A questão é que foi uma mistura de inocência, comédia e muita paixão envolvida, que minha mãe lembra dos detalhes muito mais que eu. 

Eu tinha cinco anos. E era meu primeiro ano na escola. Na época eu ainda era filha única e tinha poucos primos meninos que vieram a nascer depois. Por isso, esse foi meu primeiro contato próximo com tantos batutinhas do sexo oposto.

Lembro como se fosse hoje a vergonha que tive no primeiro dia de aula. Queria muito voltar pra casa e ficar com minha mãe. E antes que você pense que fui uma criança tímida, na verdade não. Sempre fui muito intensa. Sempre. Mas quando criança eu era ainda pior. Porque tudo que eu sentia era com muita veemência. Se eu estava tímida, era muita timidez, se estava brava, era muita raiva envolvida, mas se era pra fazer drama, eu era a rainha. E quando eu achava que era hora de sofrer, eu sofria de verdade, mas com bastante força mesmo! Meu primeiro dia foi de muita “sofrência”. 

Até que vi ele: Alessandro! O engraçado é que não lembro do seu rosto, mas consigo imaginar o meu olhando pra ele. Com a cabeça inclinada sobre a carteira eu passava a aula dando aquelas olhadas discretas e abaixando novamente a cabeça. De vez em quando nem mesmo minha cabeça precisava mexer. Aquela olhada que sai do canto do olho e que você enxerga a pessoa sem ela nem sequer saber que você existe, eu fazia com o Alessandro. 

Como meninas são bobas! Fico pensando nisso... O tempo passa e ainda vejo mulheres da minha idade fazendo os mesmos gestos ao paquerar um homem. 

Resumindo: passei a gostar de ir pra escola!

Fiquei um tempão paquerando o Alessandro e o engraçado é que não me interessava que ele nem me desse bola. O meu hobbie era gostar dele, ele retribuindo ou não. E na verdade, é claro que ele não dava. Na época, meninos dessa idade queriam outra coisa que vinha com controle remoto (ainda que esses meninos tenham crescido e que continuem querendo controles remotos!). 

Até que algo, que só pode ser coisa do destino (meu lado intenso), aconteceu.

Minha primeira quadrilha de festa junina. E a professora sorteou os pares para a dança. Eu fechei os olhos com força e mentalizei meu desejo. Mas, com tanta força, que até hoje não sei se todos ouviram meus pensamentos aquele dia. E sim! Ela falou meu nome e o do Alessandro! 

Quase tive um treco com cinco anos. Mas, o mais engraçado do sorteio foi outra coisa. Eu estudava com uma prima. E na nossa sala tinha um garoto que era o mais “ranhentinho” de todos, chamado Mariano. O meu tio, que gostava de pegar no nosso pé, dizia que minha prima quando crescesse iria casar com ele, só pelo gosto de tirar sarro e ver minha prima toda vermelha de tanta raiva. E no sorteio da quadrilha: minha prima caiu com o coitado. Enquanto fui embora rindo, feliz da vida aquele dia, minha prima foi chorando. 

Mas, deixo aqui minha homenagem ao Mariano, um dos poucos que ainda tive contato depois de adulta. E olha, vou te contar! O “ranhentinho” cresceu! E olha, vou te falar! Deixou de ser “ranhentinho”! E olha, vou repetir! Nunca mais vi o Alessandro, mas duvido que dá metade do Mariano!

Do mais, o dia da quadrilha. Foi lindo, foi ótimo, foi uma mistura de paixão e ansiedade de pegar na mãozinha daquele menino, que nossa! Parecia que ele não estava me levando pro caminho da roça, mas pro altar mesmo.

E o que se sucedeu foi o mais engraçado dessa história. Pra ficar legal, vou narrar o fato.

Um dia, cheguei da escola, guardei minha mochila e fui atrás da minha mãe.
- Mãe, tenho um assunto muito sélio pa tatar com você!
Minha mãe, meio preocupada e muito desconfiada me acompanhou até a sala. Sentei num sofá, minha mãe no outro. Cruzei minhas pernas, coloquei minhas mãos sobre elas e falei:
- Mãe, peciso te contar um seguedo. Mas, você não pode contar pra ninguém! Pomete?
- Prometo! – e fez um gesto de zíper na boca.
- Mãe, eu estou namolando. O nome dele é Alessandu. Ele estuda comigo.
Minha mãe olhou pra mim com cara de surpresa:
- Verdade? Mas você gosta tanto assim dele?
Abaixei o rosto num tom sério:
- Mãe! Eu amo ele, mais que tudo! Pomete que não vai contar pu pai?
- Pode deixar. Vai ser nosso segredo.
Coloquei o dedo mindinho e minha mãe retribuiu colocando o dela. Era nosso juramento.
Então, me dei por satisfeita, levantei do sofá em direção ao quarto. No meio do caminho, eu parei, olhei pra trás e complementei com algo importante:
- Mãe, pomete mais uma coisa?
- Ok, pode falar. – Minha mãe disse, rindo de canto.

- Pomete que não vai contar nosso seguedo po Alessandu?