domingo, 15 de abril de 2012

O sabor das canções


Eu não sou a primeira e, claro, não serei a ultima a falar sobre isso. Mas é que é uma coisa tão curiosa e eloqüente que deve ser lembrada sempre. Esse poder que temos de sentir prazer, lembranças, momentos, pessoas ao escutar canções. Sentimentos que se misturam quando ouvimos algo que entra em contato com o nosso passado, com nossas alegrias e tristezas vividas, músicas que ajudaram a construir nossa história. Quem nunca ouviu ou pensou a seguinte frase: “a primeira vez que ouvi esta música...” ou então “estava tocando esta música quando isso aconteceu...” ou ainda “ela adorava esta canção, eu nunca vou me esquecer disso...”
São lembranças que guardamos no nosso intimo e as canções servem como trilhas sonoras em nossas vidas. Mas não é nisso que quero chegar... quero falar de algo diferente.

 Sempre tem aquela canção que toca profundamente na mais obscura sala da nossa mansidão e mansão alma. Sim, aquela melodia feita particularmente para os nossos corações que, não importa a época ou quem a criou, fez especialmente para nós.
 Essas canções trazem muito mais que lembranças e emoções, dão sentido. Têm cheiro, cor e sabor. E quando você a ouve, algo da música entra em você, lhe envolve. E em vez de despertar o passado, aquilo que você viveu, desperta a sua alma, aquilo que você é, e sempre será. Desperta a sua personalidade, as emoções escondidas que você encontra ao longo da canção. A canção da sua vida. Aquela que lhe acompanhará e talvez um dia vire lembrança, mas uma lembrança diferente, não mais de acontecimentos e pessoas, mas daquilo que você é, sempre foi,e talvez, se deixou perder.

Qual é a sua canção?


O amargo gosto de viver


Juro que às vezes tento! Mas é tão difícil conviver com isso! Arrepia pensar em tudo o que passo todos os dias. O propósito da vida é que nada é tão bom quanto morrer.
Viver é muito difícil! Acordar todos os dias e ser levado por essa onda que move o nosso universo. Ninguém é realmente livre! Eu por exemplo, tenho o dever de trabalhar, estudar e me portar bem. Se eu fugir disso ganho os famosos defeitos de quem não segue a rotina. Isso é viver? E se eu quiser me aventurar por aí com apenas um real no bolso? Ah, me esqueci, isso é não seria correto. Pessoa honesta trabalha, estuda e vive conforme o cotidiano alheio. Que coisa chata! E se eu quiser quebrar barreiras? Vamos, pegue sua mochila, vamos conhecer o mundo, trocar idéias... Vamos saborear um novo gosto. Sabe as massas e maçãs? Então, vamos?

Tenho muito que aprender... Preciso aprender a ser rotineiro... Por que não sou! Não nasci pra isso... Que maravilha é tocar violão, comer chocolate e viver de poesia! E os boêmios eram criticados por fazerem disso seu jeito leve de viver. Preciso aprender! Juro que às vezes tento! Mas é tão difícil conviver com isso...

Segredos na Velhice


“Inconsequente. É isso que a senhora é!” Lembro-me da caçula falando. Essas crianças crescem e começam a pegar no nosso pé. Tratam-nos como crianças imaturas que não sabem nunca o que é melhor pra si. Eu sei o que é melhor pra mim. Não preciso dos “chatos” dos filhos enchendo o saco. E que diabo é ter filhos! Nos dão um trabalhão a vida toda e falam ainda que estragamos nossos netos, é um insulto! Eu mesmo cuidei a vida toda daqueles ingratos e agora que eu quero me divertir um pouco não deixam. Mas eu não arredo o pé. Sábado mesmo fui ao forró. “Ô trem bão” que é o forró. Dançar faz bem pra alma e paquerar então...
Corro todos os dias no calçadão e é isso que irrita tanto a caçula. Eu tenho lá meus probleminhas de saúde, mas eu sei me cuidar. Nunca caí, muito menos desmaiei. Meu sangue é forte. Não precisam lembrar-me que sou velha que disso eu sei muito bem. Setenta e quatro firmes. Ah! Esqueci de dizer: voltei a estudar. Sei que isso não é novidade nos dias de hoje, pois o que há de velho fazendo faculdade... E nem me lembre, tem um na minha sala de aula que é um chuchu (ou como diz as afilhadas: uma gracinha!)
Mas o negócio é ser feliz. Tenho lá meus momentos de vovó e de mãe e faço tudo que posso pra viver bem. A mais velha sempre me apoiou em tudo e sei que ela entende meus anseios de viver. Sou viúva e na flor da idade! Não posso me dar ao luxo de esperar pra realizar meus desejos. Esperar não dá mais. O jeito é botar pra fazer antes que a morte me leve. E prefiro morrer uma velha realizada que morrer uma velha sem sonhos. Pois morrer velha eu sei que vou, só tento construir a cada dia uma nova lembrança de que vivi intensamente.

Feijão com Arroz


Meu tio até que em fim casou. Achei que não dava mais tempo. Ele já não é bonito, nem muito simpático, e velho, achei que ninguém iria mais querer.
Mas a Rosa quis. Essa é uma flor de verdade. Um doce de mulher. Bonita e gentil. Se eu fosse uns trinta anos mais velho eu mesmo casava. Mas se ela me esperasse tanto tempo talvez não vivesse mais.
É difícil admitir, mas até que eles combinam. Mesmo não combinando em nada. Sei lá, é assim mesmo a vida. “Algumas coisas são complicadas de entender”. Foi o que a Rosa respondeu quando eu perguntei o que ela encontrou de tão especial no gordo do meu tio.
Talvez isso seja o amor. Sou novo ainda pra saber. Às vezes me assusta a idéia de conhecer uma velha, gorda, chata, e me apaixonar perdidamente. Por isso vou tomar a primeira precaução: casar bem novo. Se eu vejo que já estou passando da hora, coloco um anúncio no jornal, Igual meu pai faz com a loja dele quando precisa de empregados. Depois vou querer só mulher magra igual a Rosa. Minha mãe diz que mulher quando casa fica gorda, imaginem se eu caso com uma que já é gorda. Depois disso tem que ser pelo menos agradável. Nada de mulher feia na minha praia. Tenho certeza que antes de se apaixonar, na hora da paquera, o que a gente olha é a beleza. Mais um motivo pra eu não entender a Rosa. Talvez seja verdade essa coisa de “amor a primeira vista”, porque não dá pra imaginar a Rosa paquerando meu tio por beleza!
E é disso que eu tenho medo. Desde novo planejando tudo isso, aí aparece uma “baranga” e me leva na bagagem de graça...
Mas voltando a falar do “chato” do meu tio e da Rosa, não teve jeito! Nasceram um pro outro mesmo. Não se parecem em nada, mas não vivem separados. Sabe aquela coisa de feijão com arroz?
Se bem que ás vezes eu prefiro arroz com bife. Sem feijão no meio.
A Rosa bem que poderia ser mais nova, talvez uns vinte anos já dessem. Essa é pra casar. Por que justo meu tio? Se fosse o primo Toni até que combinava. Ele é legal. Mas bem que minha mãe fala, arroz dá certo com tudo, mas com feijão é imbatível. 



Cadê a droga do papel?


Ás vezes vem aquela onda de idéias super original. Aqueles sórdidos pensamentos interessantes. Aquela loucura de poetas famintos. Nessa hora não falta força nem imaginação. Não é preciso pensar muito pra que saiam de mentes normais, histórias brilhantes. Simplesmente a onda vem. Mas logo desaparecem. Aquele breve momento de inspiração vai embora. Aí pensamos: ”cadê a droga do papel nessa hora?” era só o bendito que faltava. O mais difícil nós tínhamos. Fico imaginando quantos poetas instantâneos morrem por falta de um papel e um lápis. Enquanto malas conturbadas são levadas de um lado para o outro com canetas e papeis dentro sem nenhum uso longe de cheques ou boletos, outros param no parque e respiram ar puro enquanto bebem um suco e pensam na vida. “cadê a droga do papel?” ta na mala de algum executivo, sem uso, até chegar à sala do escritório onde obviamente estarão sobre a mesa centenas de papéis e canetas.
Aí está o segredo do verdadeiro poeta: ele cultiva as idéias. Anda sempre de papel e lápis na mochila a espera de um novo vendaval de pensamentos únicos. Que até na cabeça dos mais implacáveis, se demorar muito, tchau...

Pensamentos Péssimos


Filosofia era a matéria mais incompreendida da escola. Ou pelo menos pela minha turma. Não porque era difícil, mas a preguiça de pensar movia um paradoxo em sala de aula. Enquanto o professor explicava a maneira genial no pensamento de Sócrates, Platão e Aristóteles, os meninos faziam aviãozinho e as meninas lixavam as unhas ou faziam cartinhas de amor.
Eu até tentava entender, mas meu problema é que eu pensava demais. Pensava tanto que acabava pensando em besteira. Por exemplo, imaginava como uma pessoa poderia ser normal com um nome tão esquisito como “Aristóteles”. Tinha que ser filósofo mesmo! Com um nome desses tinha tudo pra “viajar na maionese”...
Mas por incrível que pareça, eu adorava essa matéria. Gostava de descobrir como as pessoas pensavam, na maneira que viam o mundo. Talvez isso despertasse em mim uma vontade enorme de escrever meus pensamentos. Saber se as pessoas pensavam da mesma maneira que eu.
Então um dia, resolvi escrever uma crônica. Eu tinha doze anos.
Levei algumas horas para escrever no infinito azul, cantinho escuro, meu quarto. Eu escrevia uma parte e ia até a cozinha comer alguma coisa. Ao contrário de Deus, que descansou no último dia da criação, eu resolvi bolar intervalos de escritas. Sempre tive um sangue preguiçoso. E assim se fez. Minha primeira crônica! Fez minha mãe se encher de orgulho e mostrar pra todo mundo que aparecia em casa.
Mas tinha um problema. A crônica era algo “por demais” de pessimista. Eu “metia o pau” em tudo e em todos. E isso não era muito bom. Talvez fosse bom, até eu escutar do meu professor de filosofia a frase “uma pessoa ao escrever seus pensamentos, revela aos outros o que ela é!” e eu conclui desde então que eu era o cúmulo da “péssima impressão alheia”.
O que me salvou foi começar a perceber nas pessoas o amargo gostinho de achar que tudo está ruim. Ver que algumas pessoas eram mais pessimista que eu, otimizou meu lado negro.
Um dia conversando com meu professor, contei a ele como me sentia vendo as coisas daquele jeito. Ele então sorriu. Disse que eu não era pessimista e sim crítica. E isso era maravilhoso. Contou que os maiores filósofos eram pessoas críticas que abriam suas mentes para ver os lados bons e ruins do mundo. Senti-me importantíssima naquele dia. E muito feliz por conseguir pensar como eles (mesmo admitindo que eles “viajavam na maionese”). Mas o que me alivia é saber que meu nome é normal.
Os pais desses caras deveriam ter pensamentos péssimos...


Deus e o pé de manga


É óbvio que Deus não criou o mundo para o homem se deslumbrar das delícias da criação. Até porque são poucos os homens que conseguem entender que estão no jardim. Preferem transformar tudo em cabide. 
Mas Deus não pensou no homem não. Deus estava cansado do nada e resolveu se divertir. Quis deixar sua eternidade mais interessante. 
Quando criou o Sol nunca imaginou que faria tanto calor! (é verdade, Deus não imaginou!). Mas logo resolveu o problema. Criou os mares e rios. Pensou em se refrescar de vez em quando. Essa sensação de calor fez Deus gostar ainda mais de nadar. Deu a Ele uma sensação melhor ainda. 
 Pra quando não quisesse nadar, Deus criou o vento e a chuva. Tudo pra refrescar, quando estivesse descansando debaixo de uma árvore.
As árvores serviram pra isso. Quando Deus cansasse de se divertir, sentava debaixo de uma e admirava sua criação.
Criou os animais pra poder passar a mão e dizer: “oh! Coisinha mais linda do pai!”.
Talvez criasse o elefante pensando que divertido seria escorregar pela tromba sentindo um friozinho na barriga (Deus tem barriga, pode crer!) e dizendo “Iupi!”.
As flores foram um capricho de Deus. Ele quis que tudo fosse perfeito. Ali Ele fez detalhes. Em cada uma colocou um cheiro. Os cheiros mais românticos que Deus imaginou. Criou tudo isso pensando no amor.
 Foi o amor que gerou o homem e a mulher. Deus quis que mais alguém conhecesse seu jardim. Ele pensou: “vou fazer dois. Se eles gostarem de tudo e quiserem partilhar com mais alguém, eles se multiplicam”. Deus só não imaginava que se multiplicariam tanto! 
Deu idéias a eles pra que pudessem criar também. Mas o homem só soube transformar. “tudo bem!” – pensou Deus meio chateado pelo descontentamento do homem.
Aí Deus fez o céu e ficou observando tudinho lá de cima. Tudo de bom e mau, Deus via. Deu um anjo pra cada ser humano. Pra cuidar da criação mais encrenqueira de Deus.
Ás vezes Deus desce escondidinho e vem se divertir. Pula da cachoeira, passa mão no leão e diz: “gatinho mal!”, coça o pé e tira o bichinho do dedão, escorrega na tromba do elefante só pra sentir um medinho de cair. Dá cambalhota na grama junto com um macaquinho. Depois Ele pára num pé de manga e estica a mão pra poder pegar a maior e mais difícil. Olha pra um lado, olha pro outro, dá uma piscadinha e a manga cai na sua mão. Aí ele senta, encosta a cabeça no tronco e suspira satisfeito.
 Toca seu celular (sério! Deus tem celular!), é um anjo da guarda pedindo ajuda:
- o José quer se matar. Diz não ter nenhuma razão para viver nesse mundo mais.
 Deus dá um suspiro, agora cansado:
-ninguém merece!











terça-feira, 10 de abril de 2012

O Dia em que o Coelhinho Deixou de Botar Ovos de Chocolate

Como deu pra perceber, fui uma criança sonhadora. Minha imaginação transpassava os contos de fada. Acreditava em tudo que me falavam, até coelhinho da páscoa. Na minha casa então, era impossível não acreditar.
Sempre acordava no domingo de páscoa e meu pai ia logo perguntando – Não vai procurar os ovos?- e aí começava a festa. Eu achava ovos em lugares inusitados, todos muito bem escondidos, e imaginava quantos coelhinhos juntos passaram pela minha casa. Aí minha irmã nasceu e nós dividíamos as buscas.
Mas eu era perversa... É claro que eu queria um coelhinho só pra mim. Um coelhinho mágico que pudesse fazer ovos de chocolate pra mim o ano inteiro e não só na páscoa.
Então teve um ano que eu resolvi pegar o coelho. Fiquei na espreita a noite inteira. Sabia que seria difícil, então amarrei um lençol em forma de rede e fiquei esperando. Mas eu era pequena e uma hora o sono me ganhou. Eu cochilei.  Logo que acordei percebi que não tinha agüentado esperar e corri pra sala. Quando cheguei tive uma surpresa.
Havia uma caixa enorme cheia de ovos de páscoa. Meu pai estava separando quais ele iria esconder e quais ele levaria para dar de presente aos meus primos. Quando me viu, ele falou calmo:
- filha, ajuda o pai a esconder os ovos pra sua irmã procurar...
Então foi que eu entendi. Não existia coelho mágico nenhum. Aqueles ovos eram todos comprados no supermercado pelo meu próprio pai! Meu Deus, como pude ser enganada desse jeito? Com o coração saindo pela boca, engoli o choro e ajudei meu pai a arrumar tudo. Nos anos seguintes, a minha diversão foi ajudar meu pai a esconder os ovos.
Minha irmã era mais esperta que eu e logo sacou a jogada. Depois veio meu irmão pertencente à outra era: a era que as crianças já nascem sabendo. Ele esperou pouco pelo Coelho da Páscoa, Papai Noel e tudo mais. A mídia não deixa mais as crianças acreditarem por muito tempo.
Esse é um episódio da minha vida que lembro com bom humor. E muitos outros também, pois eu fui uma criança bem doida. Minha mãe que o diga. O mais engraçado é que no fundo quem se divertia mais era meu pai, que ficava orgulhoso de ver o tanto que ele escondia bem os ovos e o quanto nós gostávamos disso tudo.
Mas uma coisa é verdade: depois daquela páscoa, nunca mais o chocolate teve o mesmo gosto.


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Hoje, nada sério por favor!

Sabe que o ser humano pensa em média 87% em coisas desnecessárias para a humanidade, que não mudaria as atitudes de ninguém e nem acabaria com a violência. Pensa em coisas vãs, totalmente inúteis. Uma lembrança, um desejo, uma música banal, uma novela boba. Pois é. Somos bobos. Porque na verdade ninguém foi feito pra ser levado a sério. A felicidade não está nas estatísticas. Está dentro de cada um. Então que tal fazer o seguinte: fiquemos de boa! Pensemos de vez em quando em coisas que não agregam valor nenhum, mas que faça nosso corpo e nossa mente descansarem. Pense em uma fruta que faz tempo que você não come, algo engraçado que você viu no ponto de ônibus, a piada sem graça que um amigo contou. Ria um pouco, lembre coisas boas. Porque este tempo nunca é perdido. Ser simples é ser humano. E aí? No que está pensando?