Ela
não era a chefe. Não era a administradora nem a contadora daquele lugar. Não
era a educadora, a advogada, nem a psicóloga. Era mais uma
espécie de amiga. Mas a cada dia, era uma
nova profissão que assumia. Se desmanchava em várias faces a cada situação
inusitada naquele lugar precioso.
-
Você tem que falar com o Edson! A gente sabe que ele não é de fazer isso, mas é
a segunda vez nesta semana que ele vem trabalhar chapado! E ele faz a rua, né! As
pessoas podem ver!
-
Mas, Vanessa, você é a presidente deste lugar! Você é quem deve chamá-lo e
conversar com ele!
-
Por favor! Você sabe que ele vai ouvir mais você que eu! Fala com ele... Ele é
bonzinho, vai te escutar!
Com
aquele olhar derrotado, pediu que chamasse ele. Ela sempre cedia. Mesmo sabendo
que era errado acumular pra si tantas responsabilidades.
-
Mandô chamá, chefa?!
Ele veio
entre passos arrastados e soluços. Com os lábios molhados e saliva no canto da
boca. Estava realmente bêbado e sujo. Seu trabalho com lixo e sol deixava-o imundo
e suado. Mas na porta daquela sala pequena, o odor de pinga se misturava com
seu cheiro de trabalhador. Era forte e desagradável.
-
Edson, você sabe que não sou sua chefe, não me chame assim!
Ele torceu
o canto da boca, com olhar de desdém.
-
Você tem um minuto pra conversar comigo? Senta aí na cadeira, se quiser fechar
a porta...
Ele entrou
meio receoso, foi sentando na cadeira com o olhar desafiador. Estava
desconfiado e já armava-se contra qualquer tipo de ataque. Ficou com a cadeira
virada, olhando para a porta aberta.
-
Não quer fechar a porta?
- Tá
calor e eu tô fedido. Se eu fechar essa porta nóis dois vamo morrê! Que é que
cê quer de mim?
Ela pensou
por um instante. Agora não adiantava voltar atrás, tinha que incorporar a
personagem. Tinha que se vestir com sua armadura invisível também.
-
Sabe, Edson, essa semana eu fiquei pensando numas coisas... Fiquei refletindo
sozinha “Nossa! Como a equipe da rua trabalha! Eles são os primeiros a chegar,
pegam o caminhão, encaram sol e chuva o dia todo andando, carregando peso e são
os últimos a ir embora... Realmente são os maiores trabalhadores daqui.” Aí pensando
nisso, eu pensei em cada um de vocês da rua. Eu lembrei da planilha de horas
que vocês fazem, da falta que faz pra equipe quando alguém falta do trabalho, da
dedicação de cada um. Então, sabe o que eu pensei de você?
Olhando
pro chão perto da porta, ele estava prestando atenção.
- Eu
pensei: “Poxa, o Edson é um cara muito trabalhador! Ele nunca falta. Ele nunca
reclama do serviço. Ele sempre faz por ele e pelos outros. Poxa vida! Como o
Edson é generoso! Se dá bem com todo mundo, sempre participa das vaquinhas de
aniversário, sempre sorridente, brincalhão. Acho que não tem um só cooperado
que não goste dele!”.
Com as
mãos cruzadas, tocando inquietamente os dois dedões encardidos, ele foi se desarmando. A boca
zangada foi abrindo num riso de canto, mudando sua feição.
- É
verdade, eu sou muito trabalhadô!
-
Pois é! Foi exatamente isso que pensei! Só que essa semana, não sei... Parece
que você está meio triste. Não está muito pra conversas. Tem algo errado que
queira me contar?
-
Tsu, tsu.
-
Bom, eu queria poder ajudar, mas se você não confia em mim...
-
Então...
Num
supetão, ele levantou e fechou a porta, mas não virou a cadeira. E foi falando,
alto e desenfreadamente, como alguém confessando-se a um padre, por dever.
- É
que tipo assim, eu sô um cara trabalhadô! Sô trabalhadô pra carai! Daí que o
que cê falô é verdade! Eu num falto, eu num recramo, todo mundo gosta de eu,
sabe! Eu sô do bem memo! Eu ajudo todo mundo... E lá em casa, ninguém tem o que
recramá não! Minha muié, meus fio! Num falta arroz, feijão, mistura. Todo
domingo tem refrigerante e sobremesa. Todo domingo! Daí que quando é dia das
criança, aniversario, dia das mãe, dia de natal todo mundo ganha uma
lembrancinha. Eu reservo um dinheirinho todo mês pra isso, sabe? Que o Biru disse pra mim que fazia isso e dava certo, aí eu resolvi fazê também e deu
certo que nem deu pra ele! Daí que no final do mês, tipo, quando nóis recebe o
pagamento, eu deixo os fio cá vó e levo a muié no forró lá do bairro. Nóis come
um churrasco, bebe uma breja. Óia! Ninguém naquela casa tem do que recramá! Eu
sou uma pessoa muito boa! Eu sô muito trabalhadô! Num falta nada pra eles!
-
Mas qual o problema então, Edson?
-
Calma que eu tô falando! Então, daí que sexta nóis tava lá fazendo a rua, daí
nóis parou num comércio lá e ficamo esperando o homem ir buscar os papel. Aí eu
vi uma loja... Olha! Que loja era aquela! Uma loja toda desenhada na frente
cheia dos boné no vidro da frente. Mas que loja da hora! E cada boné! Pai
eterno! Eu fiquei lá olhando aqueles boné, até que eu vi um verde, que... Você
sabe que eu gosto de boné, né? Então, eu vi um verde lá, que, Nossa Senhora Aparecida!
O boné mais da hora que eu já vi na vida! Sabe quanto? Duzentos e quarenta pau!
Acho que eu fiquei umas meia hora olhando praquele boné! Fiquei tentando
calcular na minha cabeça como que eu ia fazer pra ter aquele boné. Daí eu
pensei que se eu economizasse uns três mês na minha caixinha, dava pra eu
comprar aquela beleza. Daí fui embora pensando naquele boné. Só que no final de
semana, matutei demais sobre isso, rapá! E daí eu vi que eu ia ter que deixá de
lado o presente de aniversário de duas cria e deixá a muié sem o forró por dois
mês. Daí eu senti um trem esquisito, um negócio que vinha do estongo, e subia
na garganta. Sei lá, uma sensação ruim, tá ligado? Daí foi me dando uma
tristeza, uma tristeza... Uma vontade de tomar uma pinga. Mas daí eu tomei pinga e num passava a sensação! Era que nem uma revolta de drento sabe? Porque
eu sou muito trabalhadô e eu só queria a porcaria daquele boné verde! Sei lá,
daí eu tô assim, meio chateado...
-
Poxa, Edson, eu te entendo... E se a gente fizesse uma vaquinha pra te dar o
boné de aniversário?
- Cê
num entendeu, né? Eu queria, EU ir lá, com meu dinheiro suado, entrar naquela
loja chique e falar pra moça “Me dá aquele boné lá da vitrine! Qual a forma de
pagamento? À vista, amiga! Vou pagar aqui ó! À vista!”
-
Entendi. Poxa, Edson, eu sinto muito!
Ficaram
naquele silêncio profundo, lamentando o dilema do boné.
- Você
não consegue vir no sábado? A gente pode encaixar você na banca por, sei lá, um
mês. Esse dinheirinho a mais da banca daria pra comprar seu boné...
- Num sei trabalhá na banca.
- Mas você é tão esperto! Tenho certeza que aprende rapidinho. Se você quiser...
- É
uma ideia, né? É acho que, talvez... É até que é bom né? Gostei! Você vê com a
Vanessa se eu posso vir?
-
Sim, eu te falo ainda hoje.
- É.
Nossa! Quando eu botá minhas mão naquele boné! Nossa Senhora! Brigado mesmo,
chefa! Foi boa a ideia.
- Por
nada. Mas só mais uma coisa, Edson. Quero te pedir um favor de amiga.
- Se
eu pudé ajudá...
-
Você sabe que são regras rígidas não trabalhar bêbado né? Pois bem, quero te
pedir pra não beber sua pinga nem antes nem durante o serviço, porque pode
acontecer tanta coisa! Tanto problema pra você e pra cooperativa! Você sabe,
né? Podemos combinar assim?
-
Ah! Tá beleza! Vou fazer mais isso não.
-
Combinados então. Toca aqui!
Mão
na mão, ele se virou e saiu, mas antes deu uma olhada pra trás, batendo no
peito, num gesto cúmplice.
-
Chefa, é nóis!
Naquela sala pequena, claustrofóbica, onde cabiam apenas uma mesinha com computador, papeis empilhados e só ficavam duas pessoas por vez, ela apenas crescia.