sexta-feira, 24 de março de 2017

O Boné

Ela não era a chefe. Não era a administradora nem a contadora daquele lugar. Não era a educadora, a advogada, nem a psicóloga. Era mais uma espécie de amiga. Mas a cada dia, era uma nova profissão que assumia. Se desmanchava em várias faces a cada situação inusitada naquele lugar precioso. 

- Você tem que falar com o Edson! A gente sabe que ele não é de fazer isso, mas é a segunda vez nesta semana que ele vem trabalhar chapado! E ele faz a rua, né! As pessoas podem ver!

- Mas, Vanessa, você é a presidente deste lugar! Você é quem deve chamá-lo e conversar com ele!

- Por favor! Você sabe que ele vai ouvir mais você que eu! Fala com ele... Ele é bonzinho, vai te escutar!

Com aquele olhar derrotado, pediu que chamasse ele. Ela sempre cedia. Mesmo sabendo que era errado acumular pra si tantas responsabilidades.

- Mandô chamá, chefa?!

Ele veio entre passos arrastados e soluços. Com os lábios molhados e saliva no canto da boca. Estava realmente bêbado e sujo. Seu trabalho com lixo e sol deixava-o imundo e suado. Mas na porta daquela sala pequena, o odor de pinga se misturava com seu cheiro de trabalhador. Era forte e desagradável.

- Edson, você sabe que não sou sua chefe, não me chame assim!

Ele torceu o canto da boca, com olhar de desdém.

- Você tem um minuto pra conversar comigo? Senta aí na cadeira, se quiser fechar a porta...

Ele entrou meio receoso, foi sentando na cadeira com o olhar desafiador. Estava desconfiado e já armava-se contra qualquer tipo de ataque. Ficou com a cadeira virada, olhando para a porta aberta.

- Não quer fechar a porta?

- Tá calor e eu tô fedido. Se eu fechar essa porta nóis dois vamo morrê! Que é que cê quer de mim?

Ela pensou por um instante. Agora não adiantava voltar atrás, tinha que incorporar a personagem. Tinha que se vestir com sua armadura invisível também.

- Sabe, Edson, essa semana eu fiquei pensando numas coisas... Fiquei refletindo sozinha “Nossa! Como a equipe da rua trabalha! Eles são os primeiros a chegar, pegam o caminhão, encaram sol e chuva o dia todo andando, carregando peso e são os últimos a ir embora... Realmente são os maiores trabalhadores daqui.” Aí pensando nisso, eu pensei em cada um de vocês da rua. Eu lembrei da planilha de horas que vocês fazem, da falta que faz pra equipe quando alguém falta do trabalho, da dedicação de cada um. Então, sabe o que eu pensei de você?

Olhando pro chão perto da porta, ele estava prestando atenção.

- Eu pensei: “Poxa, o Edson é um cara muito trabalhador! Ele nunca falta. Ele nunca reclama do serviço. Ele sempre faz por ele e pelos outros. Poxa vida! Como o Edson é generoso! Se dá bem com todo mundo, sempre participa das vaquinhas de aniversário, sempre sorridente, brincalhão. Acho que não tem um só cooperado que não goste dele!”.

Com as mãos cruzadas, tocando inquietamente os dois dedões encardidos, ele foi se desarmando. A boca zangada foi abrindo num riso de canto, mudando sua feição.

- É verdade, eu sou muito trabalhadô!

- Pois é! Foi exatamente isso que pensei! Só que essa semana, não sei... Parece que você está meio triste. Não está muito pra conversas. Tem algo errado que queira me contar?

- Tsu, tsu.

- Bom, eu queria poder ajudar, mas se você não confia em mim...

- Confio sim. Eu confio!

- Então...

Num supetão, ele levantou e fechou a porta, mas não virou a cadeira. E foi falando, alto e desenfreadamente, como alguém confessando-se a um padre, por dever.

- É que tipo assim, eu sô um cara trabalhadô! Sô trabalhadô pra carai! Daí que o que cê falô é verdade! Eu num falto, eu num recramo, todo mundo gosta de eu, sabe! Eu sô do bem memo! Eu ajudo todo mundo... E lá em casa, ninguém tem o que recramá não! Minha muié, meus fio! Num falta arroz, feijão, mistura. Todo domingo tem refrigerante e sobremesa. Todo domingo! Daí que quando é dia das criança, aniversario, dia das mãe, dia de natal todo mundo ganha uma lembrancinha. Eu reservo um dinheirinho todo mês pra isso, sabe? Que o Biru disse pra mim que fazia isso e dava certo, aí eu resolvi fazê também e deu certo que nem deu pra ele! Daí que no final do mês, tipo, quando nóis recebe o pagamento, eu deixo os fio cá vó e levo a muié no forró lá do bairro. Nóis come um churrasco, bebe uma breja. Óia! Ninguém naquela casa tem do que recramá! Eu sou uma pessoa muito boa! Eu sô muito trabalhadô! Num falta nada pra eles!

- Mas qual o problema então, Edson?

- Calma que eu tô falando! Então, daí que sexta nóis tava lá fazendo a rua, daí nóis parou num comércio lá e ficamo esperando o homem ir buscar os papel. Aí eu vi uma loja... Olha! Que loja era aquela! Uma loja toda desenhada na frente cheia dos boné no vidro da frente. Mas que loja da hora! E cada boné! Pai eterno! Eu fiquei lá olhando aqueles boné, até que eu vi um verde, que... Você sabe que eu gosto de boné, né? Então, eu vi um verde lá, que, Nossa Senhora Aparecida! O boné mais da hora que eu já vi na vida! Sabe quanto? Duzentos e quarenta pau! Acho que eu fiquei umas meia hora olhando praquele boné! Fiquei tentando calcular na minha cabeça como que eu ia fazer pra ter aquele boné. Daí eu pensei que se eu economizasse uns três mês na minha caixinha, dava pra eu comprar aquela beleza. Daí fui embora pensando naquele boné. Só que no final de semana, matutei demais sobre isso, rapá! E daí eu vi que eu ia ter que deixá de lado o presente de aniversário de duas cria e deixá a muié sem o forró por dois mês. Daí eu senti um trem esquisito, um negócio que vinha do estongo, e subia na garganta. Sei lá, uma sensação ruim, tá ligado? Daí foi me dando uma tristeza, uma tristeza... Uma vontade de tomar uma pinga. Mas daí eu tomei pinga e num passava a sensação! Era que nem uma revolta de drento sabe? Porque eu sou muito trabalhadô e eu só queria a porcaria daquele boné verde! Sei lá, daí eu tô assim, meio chateado...

- Poxa, Edson, eu te entendo... E se a gente fizesse uma vaquinha pra te dar o boné de aniversário?

- Cê num entendeu, né? Eu queria, EU ir lá, com meu dinheiro suado, entrar naquela loja chique e falar pra moça “Me dá aquele boné lá da vitrine! Qual a forma de pagamento? À vista, amiga! Vou pagar aqui ó! À vista!”

- Entendi. Poxa, Edson, eu sinto muito!

Ficaram naquele silêncio profundo, lamentando o dilema do boné.

- Você não consegue vir no sábado? A gente pode encaixar você na banca por, sei lá, um mês. Esse dinheirinho a mais da banca daria pra comprar seu boné...

- Num sei trabalhá na banca.

- Mas você é tão esperto! Tenho certeza que aprende rapidinho. Se você quiser...

- É uma ideia, né? É acho que, talvez... É até que é bom né? Gostei! Você vê com a Vanessa se eu posso vir?

- Sim, eu te falo ainda hoje.

- É. Nossa! Quando eu botá minhas mão naquele boné! Nossa Senhora! Brigado mesmo, chefa! Foi boa a ideia.

- Por nada. Mas só mais uma coisa, Edson. Quero te pedir um favor de amiga.

- Se eu pudé ajudá...

- Você sabe que são regras rígidas não trabalhar bêbado né? Pois bem, quero te pedir pra não beber sua pinga nem antes nem durante o serviço, porque pode acontecer tanta coisa! Tanto problema pra você e pra cooperativa! Você sabe, né? Podemos combinar assim?

- Ah! Tá beleza! Vou fazer mais isso não.

- Combinados então. Toca aqui!

Mão na mão, ele se virou e saiu, mas antes deu uma olhada pra trás, batendo no peito, num gesto cúmplice.

- Chefa, é nóis!

Naquela sala pequena, claustrofóbica, onde cabiam apenas uma mesinha com computador, papeis empilhados e só ficavam duas pessoas por vez, ela apenas crescia.