quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A Dois

Eu não quero que esfrie

Eu quero o quente, o ardente, atraente, envolvente
quero o alto e o louco, quero o grito e o rouco

Mas, se perder a chama: que seja a dois!

Eu não quero o agro

Eu quero o lento, o atento, o bem feito, o bem quisto
no jeito, de peito, de alma, que almeja, devora e anseia

Mas, se perder o sabor: que seja a dois!

Quero o arrepio, quero à flor da pele, quero o impulso, quero a loucura
perder a razão, rasgar em tesão, a tensão, a tração, morrer em luxúria

Mas, se perder o toque: que seja a dois!

Eu quero voar, viajar, sonhar, inventar, delirar e compartilhar doçuras
quero escolher estar e assim, me doar
ficar e me dar de presente, como um brinde, um brinquedo, um segredo
a se revelar

Mas, se for pra negar: que seja a dois!

Não há nada como amar.

Não há nada como não ser amado.

Então, que o desencanto, assim como o amor,

Seja a dois.



sábado, 9 de junho de 2018

Meu encanto por Sá e Guarabyra

Fui esses dias, no show da dupla Sá e Guarabyra e, simplesmente, me apaixonei por eles. 

Eu ouço suas canções desde criança por influência do meu pai. Nós tínhamos em casa três vinis com os maiores sucessos da dupla e me familiarizo logo com as letras. 

Troquei um pacote de fralda geriátrica pelo ingresso e posso dizer que foi um dos melhores shows que já fui. Foi num espaço destinado à espetáculos onde todos puderam viver o momento sentados em poltronas confortáveis. 

Uma vez foi num show de um artista consagrado, muito conhecido no Brasil e no resto do mundo. Muito mais que Sá e Guarabyra. Sua frieza e intolerância me fizeram refletir no que é ser artista. Fui embora nesta ocasião pesando o quanto deveria ser difícil passar trinta anos de lugar em lugar, cantando as mesmas canções. Ouvindo o público pedir as mesmas músicas sempre. E como suas novas criações não eram aceitas, somente as que consagraram sua carreira e o escravizaram no tempo. Eu respeitei o artista que, apesar de ser um tanto arrogante, tinha seus motivos. 

Mas depois do show do Sá e Guarabyra, eu mudei de ideia sobre isso. Decidi que qualquer artista tem que se elevar no nível deles, de respeito e atenção ao público sempre! Porque tem muita gente boa fazendo música por aí, em barzinhos e eventos particulares esperando a grande chance que poucos tiveram. E se alguém sai de casa pra te ver, é uma honra! - Pra você.

Sá e Guarabyra foram artistas respeitados na sua época lançando grandes sucessos de novelas com seu "rock rural" além de serem compositores extraordinários - fizeram canções que se consagraram nas vozes de outrem. 

No show, além da nostalgia das canções, a humildade e entrega ao público foram dois dos pontos fortes que me encantaram. E a sutileza das palavras e inteligência nos contos. Eu me vi cativada pela voz, pelo jeito, pela postura. Era como se estivessem fazendo o seu primeiro show sabendo que era nosso primeiro encontro. 

Como disse antes, conheço muitos clássicos da dupla e vibrei muito com canções como Dona, Jesus numa Moto, Roque Santeiro, Espanhola, Sobradinho. Mas entrei em verdadeiro transe quando ouvi uma das minhas músicas preferidas. Daquelas músicas que toca a gente, que fala com a gente, que é a gente! Milton Nascimento a eternizou, mas na voz de seus compositores, Sá e Guarabyra, ela é perfeita. 

Gratidão pelo momento!


Caçador de Mim  

 Sá e Guarabyra



Por tanto amor, por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu, caçador de mim


Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar, longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim?
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim












domingo, 8 de abril de 2018

As Caravanas

A vida está nublada pra nós, realmente. 

Desses diversos acontecimentos políticos que mobilizou o Brasil nos últimos 4 anos acredito que muita coisa se assemelha ao passado. Interesses...

Antes mesmo dos portugueses chegarem, haviam disputas por terras e soberania em vários espaços habitados por tribos indígenas, como descrevem alguns historiadores. É do bicho humano essa coisa de precisar sempre estar por cima. 

Desculpem, índios! É quase injustiça falar de vocês! Mas imagino que quanto mais poder, mais o ser humano estabelece meios de dominar. E a sobreposição de um povo a outro sempre existiu em todas as civilizações. 

E nessa história perde o fraco. E a fraqueza vem de muitas maneiras. Deixando de lado todos os demais fatores que assolam a humanidade e considerando apenas o fator "homem", saindo de uma escala global e olhando pra nós, brasileiros, temos histórias de terror pra chuchu! 

E o pior é que hoje o impacto dessa "história de cão" é abordado num contexto meramente superficial, apolítico e extremamente partidário. Chegamos ao ponto de considerar todas as lutas de classe, a tentativa de diálogo e a troca de saberes como "mimimi" e reduzi-las a rótulos: coxinhas e mortadelas. A que ponto chegamos!

Eu não li livros suficientes pra saber se algo tão polarizado já aconteceu antes na história do Brasil como vivemos hoje, mas me parece que essa erupção partindo de todas as classes sociais é nova. 

Ir pra rua de caras pintadas na década de 1990 não era um movimento que contemplava todos. Era um movimento da capital, dos polos estudantis mobilizados e comerciais do Brasil. E nem mesmo a consciência da época da ditadura é algo generalizado. A grande maioria dos brasileiros desta época estava trabalhando duro pra sobreviver, no campo e na cidade, sem tempo pra estudar, muito menos pra discutir política. 

Hoje vejo algo diferente. As pessoas, ainda que superficialmente e baseadas na comunicação midiática, se expressam em todos os lados e recantos. 

Me espanto com a grosseria e falta de empatia alheia nos comentários políticos de pessoas comuns que tomaram pra si ódio pelos rótulos que encaixotaram a população. Mas, ao mesmo tempo, viva a esse movimento de expressão! Todos têm voz, ao menos. Vamos esperar pra ver o que acontece dos lados bom e ruins dessa coisa toda.

Chico Buarque fadou o seu rótulo quando se dispôs a  apoiar a campanha do segundo turno da Dilma em 2014. De intelectual respeitado pela grande mídia  passou a ser um mero "arrogante petralha apoiador de mortadelas". Assim vemos as pessoas serem reduzidas no atual Brasil. 

Que seja!

Pra mim não deixou de ser um grande compositor. Seu novo trabalho lançado em 2017 traça a sua personalidade singular. Ouvi sem querer numa faixa de MPB aleatória no Spotify algumas músicas do álbum "Caravanas" com letras geniais e a música principal, título do álbum, foi como um soco na cara! Misturando bossa com funk carioca, me surpreendeu mais uma vez pela audácia ao falar o quanto incomoda quando os "fracos" se misturam aos "soberanos".

Me lembrou muito um samba eternizado pelo baterista e compositor Wilson das Neves em 1996 que também vou colocar aqui. 

A diferença é muito simples: Wilson das Neves era pobre, nascido e criado na Ilha do Governador, zona norte do Rio. Ganhou a vida no samba e tocava as experiências pessoais. Chico Buarque nasceu em berço nobre, da família tradicional do Rio de Janeiro "Buarque de Hollanda" com pai historiador e mãe pianista. Teve todas as oportunidades de um jovem abastado, inclusive morar fora do país, aprender outros idiomas e de cursar a faculdade em plena década de 1960. 

Me pergunto: Por que um coxinha como esse canta aos mortadelas?
 

As Caravanas

Chico Buarque 

 


É um dia de real grandeza, tudo azul
Um mar turquesa à la Istambul enchendo os olhos
Um sol de torrar os miolos
Quando pinta em Copacabana
A caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba


A caravana do Irajá, o comboio da Penha
Não há barreira que retenha esses estranhos
Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
A caminho do Jardim de Alá
É o bicho, é o buchicho, é a charanga

Diz que malocam seus facões e adagas
Em sungas estufadas e calções disformes
É, diz que eles têm picas enormes
E seus sacos são granadas
Lá das quebradas da Maré


Com negros torsos nus deixam em polvorosa
A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné


Sol
A culpa deve ser do sol que bate na moleira
O sol que estoura as veias
O suor que embaça os olhos e a razão
E essa zoeira dentro da prisão
Crioulos empilhados no porão
De caravelas no alto mar


Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria
Filha do medo, a raiva é mãe da covardia
Ou doido sou eu que escuto vozes
Não há gente tão insana
Nem caravana do Arará
Não há, não há


Sol
A culpa deve ser do sol que bate na moleira
O sol que estoura as veias
O suor que embaça os olhos e a razão
E essa zoeira dentro da prisão
Crioulos empilhados no porão
De caravelas no alto mar

Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria
Filha do medo, a raiva é mãe da covardia
Ou doido sou eu que escuto vozes
Não há gente tão insana
Nem caravana
Nem caravana
Nem caravana do Arará



O dia em que o morro descer e não for carnaval

Wilson das Neves

 

 


O dia em que o morro descer e não for carnaval
ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu
vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil
(é a guerra civil) 


No dia em que o morro descer e não for carnaval
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral

e cada uma ala da escola será uma quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha
e a alegoria um tremendo arsenal
o tema do enredo vai ser a cidade partida
no dia em que o couro comer na avenida
se o morro descer e não for carnaval 
 O povo virá de cortiço, alagado e favela
mostrando a miséria sobre a passarela
sem a fantasia que sai no jornal
vai ser uma única escola, uma só bateria
quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
que desfile assim não vai ter nada igual 


Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga
nem autoridade que compre essa briga
ninguém sabe a força desse pessoal
melhor é o Poder devolver à esse povo a alegria
senão todo mundo vai sambar no dia
em que o morro descer e não for carnaval.








sexta-feira, 16 de março de 2018

Bala de Coco Caramelizada

O ônibus já saía da rodoviária quando ele sinalizou para esperar mais um pouco. Paciente, o motorista abriu a porta detrás e com uma pesar lentidão, ele subiu. 

Tinha por volta de seus 75 anos. Sua pele era expressivamente enrugada e morena de sol. Seus cabelos, apesar da idade aparente, ainda davam-se ao luxo de serem escurecidos. Trajava calça jeans de cós alto com um cinto preto e camisa social branca dentro da calça. Protegendo a cabeça, um boné azul e um chinelo confortável nos pés. 

Sem pensar muito, sentou no primeiro banco perto da porta que era preferencial, por sinal. Carregava consigo uma caixa de isopor grande e uma cestinha. Ao sentar no banco, retirou cuidadosamente quatro maçãs do amor e uma porção de balas de coco caramelizadas da caixa de isopor e colocou dentro da cesta, acima da caixa. Olhou pra trás do ônibus e para frente e pra quem o estivesse olhando, sorriu como só um bom vendedor o faz.

Mas estava muito cansado e não teve forças para apresentar a mercadoria de forma genuína. Passava das seis horas da tarde e expô-la daquela forma era o seu máximo para o momento de exaustão. 

Não demorou mais que dez minutos até que o corpo sentisse o peso do dia. O balançar foi quase como um berço ninando um bebê. Ele tentou resistir por algum tempo até se entregar por completo. Com uma mão sobre a coxa e outra no banco, inclinou a cabeça sobre o corpo numa posição nada confortável e fechou os olhos. Dormiu todo o caminho. 

Ah! O caminho que os ônibus fazem... 

É poderoso! 

Tinha uma mulher logo em frente e, durante o caminho, ela pôde responder sua comadre.
- Viu! Logo que eu chegar em casa, vou fazer janta, tomar um banho e chego mais na sua casa pra gente botar o papo em dia, vtá amiga! Agora eu não posso que eu tô no ônibus!

Tinha um homem sentado do lado da mulher. Ele ouvia, nostálgico, uma música que tocava na rádio preferida do motorista e que marcou o momento que pediu sua esposa em casamento. Ele sorriu de canto.

Em pé, perto do homem, tinha um estrangeiro haitiano recém-chegado ao Brasil que pouco entendia português, mas muito da hostilidade do país que o acolhia. Era desconfiado e sua insegurança o deixava vazio e com saudades. No caminho, pensava em seus amigos e na sua casa. 

Tinha um senhor em pé na porta que não quis sentar quando ofereceram lugar. Ele segurava firme na coluna do ônibus e sua cara era amarrada e antipática. Ele pensava no seu irmão com câncer de estômago e como poderia ajudá-lo financeiramente com as despesas do tratamento, já que não conseguia, por falta completa de aptidão, ajudar com cuidados físicos. 

Tinha um homem sentado no último banco. Ele transpirava de calor e limpava com um pano bege o suor do rosto. No caminho, lembrava das possíveis questões que poderiam cair. Estava ansioso pra prestar o exame da OAB no dia seguinte. 

Havia uma mulher com um bebê dormindo em seu colo. Ela estava sentada perto do homem que transpirava. Pensava no que poderia ser feito pra amenizar a dor que sentia nas mamas ao alimentar a criança.

Havia um jovem com fone de ouvido em pé perto da mulher. Ele ouvia Linkin Park e pensava no encontro com sua recente paixão no sábado passado. Estava indeciso entre mandar outra mensagem ou esperar. 

Tinha um homem de meia idade no meio do ônibus. Ele sofria de uma gama de sentimentos antagônicos. Havia sido mandado embora a pouco menos de meia hora e estava feliz e aliviado de deixar o emprego que tanto detestava. Mas com raiva de o terem despedido apenas no final do dia e preocupado com as contas à pagar em casa e a criação dos filhos.  

Tinha uma moça que olhava o senhor vendedor de balas dormindo e sentia tristeza observando o cansaço de um idoso daquela idade, que deveria ter a chance de escolher ficar em casa e só trabalhar no jardim, por hobbie. Sentia também profunda frustração por não ter dinheiro na carteira pra comprar toda a mercadoria muito bem vendida com o sorriso amarelo que ganhou. 


E nessa mistura de vidas e imensidões: o caminho que os ônibus fazem... 

É poderoso!


Faz a gente esquecer as balas de coco caramelizadas na cesta ao lado e sonhar