O ônibus já saía da rodoviária quando ele sinalizou para esperar mais um pouco. Paciente, o motorista abriu a porta detrás e com uma pesar lentidão, ele subiu.
Tinha por volta de seus 75 anos. Sua pele era expressivamente enrugada e morena de sol. Seus cabelos, apesar da idade aparente, ainda davam-se ao luxo de serem escurecidos. Trajava calça jeans de cós alto com um cinto preto e camisa social branca dentro da calça. Protegendo a cabeça, um boné azul e um chinelo confortável nos pés.
Sem pensar muito, sentou no primeiro banco perto da porta que era preferencial, por sinal. Carregava consigo uma caixa de isopor grande e uma cestinha. Ao sentar no banco, retirou cuidadosamente quatro maçãs do amor e uma porção de balas de coco caramelizadas da caixa de isopor e colocou dentro da cesta, acima da caixa. Olhou pra trás do ônibus e para frente e pra quem o estivesse olhando, sorriu como só um bom vendedor o faz.
Mas estava muito cansado e não teve forças para apresentar a mercadoria de forma genuína. Passava das seis horas da tarde e expô-la daquela forma era o seu máximo para o momento de exaustão.
Não demorou mais que dez minutos até que o corpo sentisse o peso do dia. O balançar foi quase como um berço ninando um bebê. Ele tentou resistir por algum tempo até se entregar por completo. Com uma mão sobre a coxa e outra no banco, inclinou a cabeça sobre o corpo numa posição nada confortável e fechou os olhos. Dormiu todo o caminho.
Ah! O caminho que os ônibus fazem...
É poderoso!
Tinha uma mulher logo em frente e, durante o caminho, ela pôde responder sua comadre.
- Viu! Logo que eu chegar em casa, vou fazer janta, tomar um banho e chego mais na sua casa pra gente botar o papo em dia, vtá amiga! Agora eu não posso que eu tô no ônibus!
Tinha um homem sentado do lado da mulher. Ele ouvia, nostálgico, uma música que tocava na rádio preferida do motorista e que marcou o momento que pediu sua esposa em casamento. Ele sorriu de canto.
Em pé, perto do homem, tinha um estrangeiro haitiano recém-chegado ao Brasil que pouco entendia português, mas muito da hostilidade do país que o acolhia. Era desconfiado e sua insegurança o deixava vazio e com saudades. No caminho, pensava em seus amigos e na sua casa.
Tinha um senhor em pé na porta que não quis sentar quando ofereceram lugar. Ele segurava firme na coluna do ônibus e sua cara era amarrada e antipática. Ele pensava no seu irmão com câncer de estômago e como poderia ajudá-lo financeiramente com as despesas do tratamento, já que não conseguia, por falta completa de aptidão, ajudar com cuidados físicos.
Tinha um homem sentado no último banco. Ele transpirava de calor e limpava com um pano bege o suor do rosto. No caminho, lembrava das possíveis questões que poderiam cair. Estava ansioso pra prestar o exame da OAB no dia seguinte.
Havia uma mulher com um bebê dormindo em seu colo. Ela estava sentada perto do homem que transpirava. Pensava no que poderia ser feito pra amenizar a dor que sentia nas mamas ao alimentar a criança.
Havia um jovem com fone de ouvido em pé perto da mulher. Ele ouvia Linkin Park e pensava no encontro com sua recente paixão no sábado passado. Estava indeciso entre mandar outra mensagem ou esperar.
Tinha um homem de meia idade no meio do ônibus. Ele sofria de uma gama de sentimentos antagônicos. Havia sido mandado embora a pouco menos de meia hora e estava feliz e aliviado de deixar o emprego que tanto detestava. Mas com raiva de o terem despedido apenas no final do dia e preocupado com as contas à pagar em casa e a criação dos filhos.
Tinha uma moça que olhava o senhor vendedor de balas dormindo e sentia tristeza observando o cansaço de um idoso daquela idade, que deveria ter a chance de escolher ficar em casa e só trabalhar no jardim, por hobbie. Sentia também profunda frustração por não ter dinheiro na carteira pra comprar toda a mercadoria muito bem vendida com o sorriso amarelo que ganhou.
E nessa mistura de vidas e imensidões: o caminho que os ônibus fazem...
É poderoso!
Faz a gente esquecer as balas de coco caramelizadas na cesta ao lado e sonhar.