domingo, 8 de outubro de 2017

Lembranças

Enquanto recebia a sopa na boca, olhava atentamente para a moça à sua frente. 
- Quem é você?
- Sou a Lívia. 
E voltava a comer e olhá-la. "Lívia!" - pensava. 
- Muito prazer, Lívia! Eu sou Maria. 
- Muito prazer, dona Maria! Mas eu já conheço a senhora. 
Mais uma colherada. 
- De onde é que você me conhece?
- Ah... Conheço a senhora faz muito tempo...
Ela estava confusa. Não conhecia Lívia de lugar nenhum. Também não reconhecia o quarto. As cores incomodavam-a um pouco. Pensou em João. 
- Onde está meu marido?
- Ele não está aqui agora. 
- Você pode chamar ele? Eu quero vê-lo.
- Infelizmente não, dona Maria. Seu João foi comprar pão, ainda não voltou. 
Ah, sim! Ele sempre comprava pão de manhã, logo bem cedo, às seis horas e para o café da tarde. Sempre trazia pão quentinho. Ele chegava, pegava um prato, abria os pães na faca e voltava no saco de pão. Ela nunca questionara-o sobre isso. Sabia que fazia isso pra facilitar a vida de todos. 
- João gosta de pão sem miolo, sabia?
- Verdade? Eu também gosto de pão sem miolo! Acho que eu e João somos muito parecidos...
Ela teve um pouco de ciúme. Quem era essa tal de Lívia pra dizer isso! Enquanto comia a sopa foi franzindo a testa num tom de desaprovação. 
- A senhora não precisa se preocupar! Seu João me falou uma vez que só a senhora e mais ninguém era o amor da vida dele. 
Ela riu de canto.
- Eu sei. 
- Vou pegar a sobremesa. Hoje tem pudim de chocolate, o que acha?
Torceu o nariz.
- Chocolate me dá espinhas! 
- Mas esse chocolate é diferente! Ele não tem gordura nenhuma e vai deixar a pele da senhora lisinha que nem de bebê. E o melhor de tudo: ele tem vitaminas, vai deixar a senhora bem forte!
Enquanto Lívia saía do quarto, ela olhava tudo em sua volta. Que coisa estranha! Nunca tinha visto aquele lugar mas lhe parecia ser muito familiar... Olhou pra sua mão e num susto observou o quanto estava enrugada. As unhas curtas pintadas num tom de rosa claro e os dedos encurtados, como se fossem um dia maiores. - Como estou velha! - Lívia chegava com o pudim.
- Que lugar é esse? 
- Aqui é seu quarto, dona Maria. 
- Meu quarto? Mas não gosto dessa cor na parede! E essa cortina não é minha!
- A senhora mesmo pediu pra pintar o quarto de verde, dona Maria. Essa cortina foi presente meu pra senhora.
Olhava pra Lívia novamente. Seu cabelo ruivo de tamanho médio cacheado estava preso num rabo de cavalo. Era branca com o rosto cheio de sardas vermelhas. Parecia uma pintura, seus olhos e boca bem desenhados, cílios e sobrancelhas cor de fogo, olhos castanhos claros. Deveria ter uns trinta anos, no máximo. Ela a observava. 
- O que foi, dona Maria? 
- Você é minha enfermeira?
- Podemos dizer que sou também. 
- Você é tão bonita!
Lívia sorriu e lhe pareceu ainda mais bela. 
- Obrigada, dona Maria! A senhora é muito gentil!
Ela deveria atrair muitos rapazes. Sim! Deveria fazer muito sucesso. 
- Você é casada?
- Sim, sou casada. 
"Sorte do rapaz."
- E têm filhos?
- Ainda não. Mas quero ter mais pra frente, talvez. 
- A senhora tem filhos, dona Maria?
Ela ficou confusa. Era difícil responder isso. Lembrava de crianças brincando com ela e de bebês no seu colo. Mas poderia ser de qualquer um. Sobrinhos talvez... A confusão a aborreceu. 
- Onde está João?
- Eu já lhe disse, foi comprar pão e ainda não voltou. 
É verdade, ela havia lhe dito. Mas tudo estava tão confuso, embaçado em sua cabeça. Aquela mistura de ideias não claras parecia se misturar com sonhos e quanto mais ela forçava-se a lembrar, mais confusa ficava. 
- Estou cansada, acho que vou dormir um pouco. 
- Mas ainda não acabou o pudim!
- Não quero mais. Quero dormir. 
- Tudo bem. 
Lívia juntou na bandeja as sobras do pudim, limpou o canto de sua boca com um pano e ajeitou os travesseiros de modo que seu corpo deitasse sobre a cama. 
- Durma bem, dona Maria. Qualquer coisa, a senhora chama. Estarei lá fora. 
Ela sentiu profundo afeto pela moça. Saber que ela estaria lá fora e não a deixaria sozinha foi reconfortante. Estendeu os dois braços e fez um bico para dá-lhe um beijo. Lívia então se inclinou na cama e ela a embalou num abraço forte e um beijo estalado do rosto. 
- Boa noite, querida!
"Tomara que João pague bem essa moça! Ela é muito boa!"
Virou-se de lado e cochilou. 

Lívia saiu do quarto a meia luz. Eram duas horas da tarde e estava bem claro nos outros cômodos da casa. Foi até a cozinha lavar a louça. Ouviu a porta da frente ser destrancada e logo depois sentiu seu marido lhe beijar o rosto por trás. 

- Como foi seu dia?
- Foi bom, obrigada. E o seu?
- Muito trabalho, como sempre. Mas satisfatório. Como ela está hoje?
- Está bem! Conversou um pouco. Estava calma e pouco aborrecida. 
- Alguma novidade?
- O mesmo de sempre. Lembrou apenas de papai, reclamou do chocolate e das cores da parede. Quando perguntei se ela tinha filhos, acho que ficou confusa e aborrecida, desconversou e pediu pra dormir. 
- Você disse o que de seu pai?
- Falei que ele estava comprando pão. Acho que essa é a melhor forma. Parece que ela fica feliz com isso. 
- Mas que bom que ela conversou com você... Isso é muito bom!
- Sim, é sim! Mas sabe que, pensando bem, aconteceu algo diferente... Antes que eu saísse do quarto, ela me abraçou forte e me beijou. - Sorriu lembrando do beijo estalado em seu rosto - E me chamou de querida. Acho que por um instante, ela se lembrou de mim.
- Que ótimo! Com toda certeza! - Concordou o marido - Ela soube quem você é.