Estava lendo suas letras para mim. Fora um tempo despendido
em conquista, em deslumbre. Tinha o formato da retenção de interesse, ainda que
sem cuidados. Era maior do que a gente e talvez, nunca será desvendado o como,
nem o porquê. Um dia nos achamos, isso é história. Fica agora a única questão
sufocante:
Onde foi que nos perdemos?
A gente segurava a tensão. A gente mantinha o vínculo. Teve
aquele ano tão intenso quanto decisivo. Eram muitas palavras imperdoáveis e o
que manteve as arestas foi o magnetismo inexplicável da tensão e do desejo. A
paixão nos segurou num espaço onde não havia escolha. O caminho possível era só
um: permanecer. Foi um ano intenso e desafiador. Mas, confesso olhando
nostalgicamente pra trás. Foi um dos melhores.
Onde foi que nos perdemos?
A singularidade de cada um aflorou aos poucos, a
individualidade pediu permissão, precisava falar. Foi assim que, um pouco
junto, um pouco distante, aqui e ali, longe e perto, adaptações foram surgindo.
É necessário, claro, foi inevitável, de certo.
Onde foi que nos perdemos?
Acordei um dia e observei a sua individualidade. De repente,
não conseguia mais te ler. Você não falava muito, nem olhava muito nos meus
olhos. Nem eu, talvez, me olhasse mais. Tem limites se perder pelo outro. Tem limites
ir até lá ou li, ou acolá. Senão nós, pela consciência do indivíduo que somos,
nossa alma pede: volta!
Onde foi que te perdi?
Pendurei a corda nos meus pés. Confesso que a sensação de
despencar em queda livre não me ajudou a perder o medo de altura. Desci até o
abismo sem nós. Tenho certeza de que não imaginou que seria assim, pungente.
Talvez porque não conseguisse me ler também.
Onde foi que nos perdemos?
Mas, pela própria força do impulso, fui puxada de volta pela
corda. Depois de subir, desamarrei as cordas e saí andando. Fui obrigada: não
havia mais o porquê de estar ali, admirando o penhasco, por mais atrativo que
estivesse. Voltei a ter fôlego, controlei meus impulsos, segui.
Onde foi que me perdeu?
Nem eu sei dizer. Eu pondero muito pouco tudo isso. Não
gosto de lembrar. É que essa noite sonhei muito com aquele ano. Sonho
misturado, meio insano, com muitos flashs vívidos e outras tantas histórias
inventadas na mente, que não houve. É que todos os dias penso em você, ainda
que nem sempre eu lembre as coisas boas.
Onde foi que nos perderam?
Tem dias que lembro de toda a confusão inicial e das coisas
ditas sem necessidade. Palavras cravadas no coração que eu posso desenterrar
agora para te manter longe daqui de dentro. Eu nunca mais serei tratada assim.
Decidi isso por mim, assim como aprendi a bloquear qualquer sentimento que me
faça lembrar de dançar encostada em seu peito. Relações dão trabalho, afinal. É
muito mais fácil ser, por fim, dona do título que sempre recebi: egoísta. Agora
sei como é, e confesso que é bom. Não vou deixar ninguém entrar mais aqui. Nem
quero também, entrar em algum lugar e me perder de novo.
Onde posso me achar agora?
Descobri ontem, depois de mais um episódio de devaneios do inconsciente,
que eu nunca mais serei livre e não tentarei fugir disso. Eu sempre vou
celebrar o que passou. Ainda que eu tente acordada me dispersar, quando encosto
a cabeça no travesseiro, é proposital do corpo e da alma, nos trair.
Por onde devemos seguir?