domingo, 4 de agosto de 2019

A balança

- Não quero que fique oneroso pra você vir.
- Eu estou indo porque quero. 
- Ok, mas mesmo assim, não quero que tudo isso fique dispendioso. 

O custo de algumas escolhas tem não é só financeiro. Tudo que fazemos custa algo de nós. Se comemos doce excessivamente, o custo disso é um futuro diabetes. Se dormimos mais do que produzimos, o custo disso é uma vida cheia de sonhos, mas vazia. 

O custo de se importar com as pessoas também é alto. Porque é um esforço constante pelo outro. É muita energia que se vai tentando fazer o outro feliz.

Fora energia, tem outras coisas que custam alto quando você se importa com alguém. Quando você está apaixonado ou gosta muito de alguém, tudo que a pessoa fala importa pra você. Você vai ouvi-la e se importar com sua opinião, ao contrário do que você faz com a maioria das pessoas ao seu redor. Você vai se importar. Cada conselho que ela der sobre suas coisas, sobre seu trabalho, sobre você. Ah! E quando é sobre você?

Existe uma balança emocional em cada um de nós. É uma balança invisível muito poderosa. Nós ponderamos nela erros e acertos da vida. Para a nossa infelicidade, a opinião das pessoas sobre nós pesa muito em nossa balança emocional. 

Quando elogiam ou criticam uma coisa que você faz, a balança pende. Mas quando falam algo de você, sobre sua essência, a balança pesa muito mais, quase o dobro. Isso por dois motivos:

Você tenta se reconhecer a cada dia. Nós não sabemos tudo sobre nós mesmos, mas nós tentamos nos reconhecer. E vamos construindo em nós o nosso próprio quadro. Quando alguém diz "Como você é generoso!" talvez não tenhamos ainda pintado a consciência da generosidade em nós. 

O outro motivo é justamente o oposto. Quando já pintamos em nós um quadro do que somos, quando já nos reconhecemos de um jeito e alguém fala pra nós que somos o oposto.

No primeiro caso, quando recebemos elogios que antes não havíamos reconhecido em nós, fazemos uma análise do nosso comportamento. "Sou generoso mesmo? Será que não foi meu primeiro ato de generosidade? Será que essa pessoa me conhece mesmo? Talvez eu tenha que ser mais generoso..."

O segundo caso, dói. Porque é como se tirássemos da balança cada pecinha para pintar nosso quadro no chão depois. Quando nos reconhecemos de um modo e alguém nos diz que somos diferentes, a peça volta pra balança e não nos reconhecemos mais. "Eu não sou assim! O que eu fiz pra chegarem nessa conclusão?"

Sim, se importar com as pessoas tem um custo. Existe um custo energético de se esforçar e tentar ser melhor o tempo todo e um custo emocional muio mais alto, de se desmontar muitas vezes. 

Eu tenho um bloqueio muito grande pra lembrar do meu tempo de escola. Eu lembro de poucas coisas, pouquíssimos rostos. Não lembro de matérias que eu fiz ou as classes que eu passei. O que eu lembro da escola são coisas traumáticas. 

Lembro que quase fui abusada por meninos da minha sala da quadra da escola quando eu estava na quinta série. Eu lembro dos rostos dos três meninos me segurando e tentando abrir o zíper do meu shorts, enquanto eu me debatia. Eu lembro com clareza desta cena. E lembro que quando a professora chegou e me tirou de lá, ela me disse:

- Isso é pra você aprender a nunca mais vir pra escola com esse shorts curto pra provocar os meninos!

Eu nunca mais usei shorts. Eu passe o resto da minha infância e a minha adolescência inteira usando calça e camiseta larga. Minha mãe sempre comprava roupas justas, coloridas, que ela achava que combinava com a minha idade e eu nunca usei. Eu nunca associei um fato ao outro. Só depois de adulta, foi que eu vi certa relação. 

Outra vez, quando eu estava na sexta série, a professora liberou os alunos de irem de uniforme. Poderia ir com qualquer roupa. Eu coloquei uma blusa três quartos mais colada no corpo que minha mãe havia me dado. Um garoto da minha sala me disse:

- Nossa! Até que você não é gorda! É só peituda!

Novamente eu voltei a usar só camisetas, com medo de ficarem olhando e reparando no tamanho dos meus seios que estavam em formação e já eram grandes pra idade. 

Mas nada do que aconteceu na escola foi tão traumático pra mim quanto o episódio seguinte. 

Eu tinha treze anos e estava na sétima série do ensino fundamental. Eu lembro de ser uma aluna calada que interagia muito pouco. Sempre gostei de estudar e sempre me esforcei muito pra tirar boas notas. Eu adorava a aula de português, tanto que só me lembro dessas aulas em toda a minha trajetória na escola. Eu tinha uma professora muito boa e a aula dela passava sempre voando. Eu gostava muito de escrever e sempre recebia muito elogio dela nos exames de redação. Até que um dia ela foi promovida a vice-diretora da escola e parou de dar aulas pra gente. 

No final daquele ano, os professores entraram em greve. Era difícil ter aula e alguns professores passaram exercício pra fazer em casa e entregar na secretaria da escola pra fechar as notas. 

Não me lembro da disciplina, mas sei que fui entregar um desses trabalhos na secretaria. Quando cheguei lá, tinham vários alunos gritando e armando uma boa confusão na direção. Não sei o motivo, mas sei que eles gritavam de um lado e a vice-diretora (minha ex-professora) gritava ao berros:

- Silêncio! Eu não quero mais ninguém aqui. Todos pra fora! Eu vou conversar com o pai de cada um de vocês, pede pra eles virem, mas com vocês eu não converso mais! Saiam todos!!!

Eu estava encostada na parede da secretaria enquanto a secretária pegava meu dever e anotava meu nome. Os alunos que estavam protestando foram sendo empurrados pelos inspetores até chegarem perto de onde eu estava, que era a saída da diretoria pra fora. Enfim, acabei entrando no meio da confusão sendo expulsa de lá também. Enquanto eu tentava dizer que só estava deixando meu nome pra entregar o dever, a vice-diretora me viu no meio da confusão e aos gritos me disse:

- Olha quem diria, hein! Quem diria! Bem que os professores falam mesmo, você é uma garota prepotente e imatura! Vergonha de você! Saia já daqui!

Não sei descrever o que eu senti na hora. Eu saí de lá chorando. Fui pra casa sem enxergar a rua de tanto que os olhos estavam lacrimados. Eu cheguei em casa e deitei na cama. Depois levantei e procurei um dicionário. 

Prepotente. Adjetivo. Que demonstra ou expressa prepotência; que abusa do poder ou da autoridade que tem; tirano. Que possui excesso de poder; absolutista. Que faz uso desse poder de modo autoritário; opressor. Etimologia (origem da palavra prepotente). Do latim praepotens.antis.
Imatura. Imatura é o feminino de imaturo. O mesmo que: prematura, antecipada. Que ainda não chegou à maturidade; que não é maduro. Precoce, antecipado: por imaturas, muitas tentativas se frustraram. Inoportuno: surpreendeu-o a morte imatura.

li e reli várias vezes esses dois adjetivos que agora eram meus. Eu nem sabia direito o significado daquilo, mas eu sabia que não era bom. E foi dito por ela, que eu sempre admirei tanto! Prepotente e imatura me pertenceria pra sempre. Eu sempre carregaria esse fado. Eu chorei muito aquele dia e o dia seguinte. Minha mãe perguntava o que tinha acontecido e eu dizia que nada. Era algo meu, esse de colocarem na minha balança emocional, pela primeira vez, algo que eu não sabia que eu era. 

No ano seguinte, no início das aulas, ela passou de sala em sala dando recados da direção. Quando eu vi ela entrar eu abaixei a cabeça e escutei tudo que ela tinha pra falar olhando pra carteira. De repente, ela disse meu nome. Eu olhei pra ela e na frente da sala toda ela disse:

- Me desculpe! Eu estava nervosa e acabei descontando em você. Eu não acho nada daquilo de você. Você é uma boa aluna. 

E saiu. Ninguém entendeu nada. Mas eu entendi. Só que existe um problema quando mexemos na balança de alguém. Não tem mais lugar pra jogar uma peça. É uma coisa que fica... "Bem que os professores falam mesmo..." 

Prepotente e imatura. É como um espinho em mim. Eu cresci e ouvi muitas vezes esses adjetivos, com outros sinônimos, de outras formas. Mas eram eles. Prepotente e imatura. São meus e eu não os escolhi. Eu ganhei, de acordo com o que os outros acham a meu respeito, agora fazem parte da minha balança. Prepotente e imatura. E eu luto constantemente pra não ser. Eu não quero ser! Eu não quero ser! Eu os nego em mim. Prepotente e imatura. Eu não sou! Eu me esforço tanto pra não ser... Eu não sou!

Isso geralmente acontece com pessoas das quais nos importamos. 
Porém, de tudo isso, há um custo. 




quarta-feira, 13 de março de 2019

Agora


Uma das coisas que aprendi é que as maiores mudanças na vida acontecem rapidamente, sem aviso prévio.

Uma mulher estava grávida de seis meses. Um dia, ela estava lavando a calçada de casa quando sentiu uma dor de cabeça muito forte. Em menos de um minuto, caiu no chão. Uma vizinha a socorreu. A ambulância a levou à tempo e não foi fatal, mas foi trágico. Uma pequena veia importante que passa pelo cérebro de todo mundo se rompeu na cabeça dela. Eles conseguiram induzi-la ao coma para tentar salvar a criança. Foram 2 meses de adrenalina e ansiedade. A criança nasceu de oito meses, prematura, porém nasceu bem. A mulher continuou em coma por quase oito meses. Depois, saiu do coma, mas respira até hoje com ajuda de aparelhos e vive em estado quase que vegetativo.

Um segundo atrás era uma mulher saudável, que estava grávida e lavando a calçada.

As tragédias são assim, súbitas. É como a lama que atingiu Brumadinho ou um acidente de automóvel que leva milésimos de segundo para ocorrer. Não há tempo pra despedidas. Não há espaço para chamar o padre e se confessar, se redimir.

Uma coisa que aprendi sobre a vida é que a coisa mais poderosa que existe é o tempo. Porque o espaço só existe no tempo. As ideias e vivências só existem no tempo. E podemos viver com o passado e com o presente. Mas nunca viveremos o futuro, que é a magia do tempo.

Um amigo me disse certa vez: “não me force a dizer que estou gostando de agora, deste momento. Porque vai demorar pelo menos um pouco de tempo para que “caia a ficha” de como agora está sendo tão bom. Amanhã, talvez, o agora tenha um sabor incrível, mas depois de amanhã, esse momento aqui será verdadeiramente nostálgico. É pura mentira quem diz viver o agora, porque demora um pouco pra saber do quanto foi bom o momento”.

Se é verdadeira essa conclusão, que pena! Porque devemos saborear o momento.

A moça grávida tinha um marido. Eles tinham verdadeira paixão um pelo outro e sempre tiveram o sonho de se tornarem pais. Esse desejo virou uma obsessão pra ele, pois não conseguiam engravidar e a juventude de ambos passava com o tempo. Fizeram alguns tratamentos de fertilidade e depois de anos, ela engravidou. Aí pararam de viver um pelo outro e passaram a viver o futuro. Tudo que faziam e pensavam era na expectativa da chegada do bebê. Seria uma nova etapa e preencheria de vez suas vidas.

Quando veio o derrame cerebral da esposa, tudo mudou. Por dois meses, a expectativa do homem era salvar sua vida. Sim, ele queria o bebê do mesmo modo que sempre quis. Mas a possibilidade de perder o amor da sua vida estava fora de cogitação. Salvaram o bebê! E pra ele foi um grande alívio. Mas não foi um nascimento emocionante. Foi um momento de verdadeira agonia. O bebê ficou ainda um mês e meio no hospital. Era quase sua casa já. Seu negócio próprio ficou aos cuidados da irmã enquanto ele vivia naqueles corredores, na expectativa de viver junto ao seu filho e sua esposa. O bebê saiu do hospital, mas a mulher não. Ela passou nove longos meses naquele leito. Oito meses em coma e um mês antes de conseguirem leva-la para casa com os aparelhos.

O homem vivia por ela. Ele revezava com sua mãe os cuidados com o filho e com a sogra os cuidados com a mulher. Enquanto toda a sua energia estava depositada na recuperação da esposa, o filho crescia. Passou os primeiros meses de vida, os meses de maior dependência de um ser humano, com um pai partido ao meio. Viveu essa agonia. O pai fazia o filho dormir com a dor no peito. Abraçava o filho com sofrimento e solidão. Pensava vinte e quatro horas por dia na esposa. O filho deu seu primeiro sorriso sonhando, depois acordado, e esboçou as primeiras palavras, e engatinhou a primeira vez. E não havia reação no pai.

A esposa foi pra casa da mãe dela. Ambos concordaram que lá ela seria melhor cuidada. O homem passava de manhã e a tarde para vê-la. E a noite, quando seu filho já estava no berço dormindo, ele assistia ao vídeo do seu casamento ou pegava os álbuns de fotografia de quando namoravam e de seus muitos passeios juntos. Lia e relia as cartas de amor que um dia recebeu dela. Como ele a amava! Passou a viver das lembranças de quando a mulher vivia ao seu lado e não apenas coexistia. Ficou, enfim, refém do passado.

O tempo passa. E certas coisas são irrecuperáveis. Momentos passados, bons e ruins, se vão. E coisas mudam, o tecido da existência é muito fino e delicado. Basta um batimento errado no coração para que nossos planos tenham um fim.

Não é sobre o tempo. É sobre mudanças. É sobre viver. Porque aproveitar o agora é difícil demais para nós. Mas devemos o fazer. Saborear devagarinho cada coisa na vida por mais que seja azeda ou amarga, pois vai passar. E se for doce, passa do mesmo jeito e o importante é ter aproveitado enquanto estava lá.

Viver.

Agora.