terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Nexo

 

Estava lendo suas letras para mim. Fora um tempo despendido em conquista, em deslumbre. Tinha o formato da retenção de interesse, ainda que sem cuidados. Era maior do que a gente e talvez, nunca será desvendado o como, nem o porquê. Um dia nos achamos, isso é história. Fica agora a única questão sufocante:

Onde foi que nos perdemos?

A gente segurava a tensão. A gente mantinha o vínculo. Teve aquele ano tão intenso quanto decisivo. Eram muitas palavras imperdoáveis e o que manteve as arestas foi o magnetismo inexplicável da tensão e do desejo. A paixão nos segurou num espaço onde não havia escolha. O caminho possível era só um: permanecer. Foi um ano intenso e desafiador. Mas, confesso olhando nostalgicamente pra trás. Foi um dos melhores.

Onde foi que nos perdemos?

A singularidade de cada um aflorou aos poucos, a individualidade pediu permissão, precisava falar. Foi assim que, um pouco junto, um pouco distante, aqui e ali, longe e perto, adaptações foram surgindo. É necessário, claro, foi inevitável, de certo.

Onde foi que nos perdemos?

Acordei um dia e observei a sua individualidade. De repente, não conseguia mais te ler. Você não falava muito, nem olhava muito nos meus olhos. Nem eu, talvez, me olhasse mais. Tem limites se perder pelo outro. Tem limites ir até lá ou li, ou acolá. Senão nós, pela consciência do indivíduo que somos, nossa alma pede: volta!

Onde foi que te perdi?

Pendurei a corda nos meus pés. Confesso que a sensação de despencar em queda livre não me ajudou a perder o medo de altura. Desci até o abismo sem nós. Tenho certeza de que não imaginou que seria assim, pungente. Talvez porque não conseguisse me ler também.

Onde foi que nos perdemos?

Mas, pela própria força do impulso, fui puxada de volta pela corda. Depois de subir, desamarrei as cordas e saí andando. Fui obrigada: não havia mais o porquê de estar ali, admirando o penhasco, por mais atrativo que estivesse. Voltei a ter fôlego, controlei meus impulsos, segui.

Onde foi que me perdeu?

Nem eu sei dizer. Eu pondero muito pouco tudo isso. Não gosto de lembrar. É que essa noite sonhei muito com aquele ano. Sonho misturado, meio insano, com muitos flashs vívidos e outras tantas histórias inventadas na mente, que não houve. É que todos os dias penso em você, ainda que nem sempre eu lembre as coisas boas.

Onde foi que nos perderam?

Tem dias que lembro de toda a confusão inicial e das coisas ditas sem necessidade. Palavras cravadas no coração que eu posso desenterrar agora para te manter longe daqui de dentro. Eu nunca mais serei tratada assim. Decidi isso por mim, assim como aprendi a bloquear qualquer sentimento que me faça lembrar de dançar encostada em seu peito. Relações dão trabalho, afinal. É muito mais fácil ser, por fim, dona do título que sempre recebi: egoísta. Agora sei como é, e confesso que é bom. Não vou deixar ninguém entrar mais aqui. Nem quero também, entrar em algum lugar e me perder de novo.

Onde posso me achar agora?

Descobri ontem, depois de mais um episódio de devaneios do inconsciente, que eu nunca mais serei livre e não tentarei fugir disso. Eu sempre vou celebrar o que passou. Ainda que eu tente acordada me dispersar, quando encosto a cabeça no travesseiro, é proposital do corpo e da alma, nos trair.

Por onde devemos seguir?

Enfim, agora lidaremos com esse fardo. Sei que daí, a mesma sina. Fadário o dia em que nos encontramos, foi traçado que um dia nos perderíamos, sem a opção de voltar ao ponto da ignorância da nossa história.