sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Dilema

Era um dia cinza, de garoa gelada. A cidade não parava para pergunta-lhe se estava tudo bem, sempre naquele ritmo alucinado de São Paulo. Ele sentia um pouco de frio nos pés. 

Estava de cócoras no chão. Torcia a boca vendo a multidão passar enquanto organizava-se em estratégias para trilhar o caminho daquele dia. Algo atrapalhava ele a pensar, geralmente era mais inteligente e rápido nas decisões. Era fato: precisava comer. 

Resolveu andar. Numa das esquinas que virou, avistou um homem descarregando um caminhão. 

- Moço! Moço! Posso ajudar você a descarregar?

- Sai pra lá, moleque! Não atrapalha!

- Deixa eu ajudar, moço! Eu sou forte! Olha!

- Não tenho dinheiro pra você! Vai pra lá!

Ele continuou andando. Sentou novamente na calçada, agora perto de uma padaria. Viu uma mulher entrando.

- Moça! Moça! Pode comprar um pão pra mim? Tô com fome!

Sabia que mulheres em geral, eram mais solidárias que homens. 

- Onde está sua mãe?

Porém, elas sempre tinham essa e outras perguntas inconvenientes.

- Tenho não, moça. Compra o pão lá, eu tô morrendo de fome! Depois eu vou embora, eu juro! Só quero comer, moça!

A moça entrou, comprou 12 pães, quinhentos gramas de frios, um pedaço de ricota, um pote de patê de ervas temperadas e pro menino, dois salgados e um refrigerante. Saiu e entregou a ele, orgulhosa. Ele olhou o saquinho com a comida e pensou que talvez ele nunca mais ganharia aquele doce de brigadeiro que um dia um senhor lhe deu. 

- Obrigada, moça! Deus te abençoe!

"Deus te abençoe" era a frase cortante. Ele sabia o efeito que ela causava nas pessoas e sempre a usava. Porque de alguma forma, as pessoas se sentiam "em parte com Deus" por cada esmola dada ao menino. E isso era vantajoso pra ele. 

Ele comeu os dois salgados e bebeu o refrigerante, já pensando em que horas almoçaria. Foi até a Praça do Taquí, que tinha outro nome, mas junto com os outros meninos virou esse nome, graças às muitas moitas de plantas ornamentais que facilitava a brincadeira de esconde-esconde em troca, geralmente de corote. Era a aposta do taquí que fazia ele conseguir algumas coisas dos outros meninos. Achou um deles encostado no banco. 

- Fala, mano!

- Meu, onde cê tava essa noite? Ou, você não viu, colou os homi aqui ontem mais tarde, meu, sério, foi por pouco! 

-  Eu fui pro Canto 5 lá, véi. Eu sabia que ia feder, tava muito estranho...

- Ou, deixa eu falar, sabia que o Lecão comeu o Trunca? Mano, esses cara são tudo viado, mano! Eles ficam apostando o toba no jogo, tá louco, bicho!

- Sai fora! Eu já falei que não curto o Lecão por causa disso. O cara é o dobro do nosso tamanho, se ele quiser ele pega a força, não precisa nem ganhar porra nenhuma. Sai fora, tô de boa!

- Ou, e deixa eu te falar um negócio. Mano, eu preciso de uma bike! Meu, eu passei ontem naquela loja lá da esquina da padaria, cé loco, cara! Muito linda uma bike que tem ali. Tipo, ela é toda azul com desenho de fogo, tá ligado? Toda produzida no talento!

-Ah meu, eu também queria uma. Eu vi uma nessa loja que tu tá falando, preta, rebaixadinha assim, sabe? Top! Meu, o jeito vai ser arranjar um esquema pra pegar, não tem outro jeito. 

- Foda, mano. Eu já pensei em colocar na aposta esse trampo aí. Tipo, se perder precisa conseguir pra mim. Só que eu sei que os mano, se fizer uma vez com coisa grande assim, não vão mais parar e uma hora eu que vou perder, aí meu, já começa a complicar pro meu lado... 

- Foda mesmo, mano. É que eu fico pensando que a gente chegaria tão rápido na praça do Pipa por exemplo, tipo, coisa que demora um tempão, tem que ficar pedindo grana pro metrô e pá.... Seria muito mais fácil de bike...

- Tô ligado. Mas também com o trânsito daqui é bem vida loka ir até lá de bike, hein!

- É nada, mano! Qué mais perigo do que a gente ficar andando por aí a pé? Vai mudar muita coisa não! Chega mais rápido pelo menos. 
- Acho que mais viável mesmo é ir pedindo grana, juntar tudo e trocar numa bike mais barata lá na 25. 

- Ah meu, problema é juntar, véi! Se os cara sabe que você tá dormindo com grana, vai tudo embora! É, e pensando bem, nem bike dá pra ter também. Mano, cê imagina esses filho da puta sabendo que cê tem uma bike? Eles iam fazer de tudo pra colocar ela na aposta, e se não conseguissem ganhar, iam roubar.

- Tô ligado... E pior! Capaz dos hômi colar aí, ver a bike e achar que é de espiantar! Tá loko! Mó dilema ter bike, na real.

- Ah meu, eu só queria mesmo era, tipo, ficar uma semana vivendo de boa, tá ligado? Dormir sem medo, comer umas parada e tipo, poder ter, por uma semaninha só, uma bike!

- Também, véi, também. 

- Já comeu?

- Hoje? Já. Mas tô ficando com fome de novo. Ou, posso te pedir um favor?

- Vish, isso depende.... 

- Péra mano! Não é o toba não! Não dá pra gente tentar arrumar um bagulho, um almocinho  e depois você ficar olhando enquanto eu tiro um ronco em algum canto? Eu não consegui dormir nem uma hora essa noite, mano! Tava frio pra burro e depois que os homi deram a prensa, aí fiquei sem sono.

- Ou, você devia ter ido lá o Canto 5, tava mó de boa. Mas eu olho sim, pode deixar. 

Os dois levantaram e saíram andando. 

- Um dia cê vai ter sua bike, mano! Tu é firmeza!

- A bike não sei, mas bora descolar uma meia aí, né... Mó frio no pé!

Os dois riram. 








segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

O processo

Processo é espera, mudança. E não é do verbo esperançar e sim do verbo esperar mesmo.

Talvez, do que seja o significado da palavra processo, este tenha sido o pior de todos.

Esperar, às vezes, dói.

Todos ali estavam dentro do processo, dentro do esperar. Cada um dando o melhor que podia. Outros acompanhavam o processo de longe, num misto de dor e covardia, que a falta de coragem de viver o intenso lhes traziam. Afinal, cada um vivia o processo como lhe cabia.

Eu fui porque queria fazer parte deste processo. Fui porque precisava ajudar de alguma forma e também me despedir.

Mas ao chegar lá, percebi o quanto fui egoísta. Pouco fiz e querer me despedir justo nesta hora foi puro egocentrismo. Fiquei quatro longos anos sem ir visitá-lo e quis entrar no processo quando seu estado era o mais decadente. Quando não podia mais sentar comigo, tomar um café e contar seus causos.

Foi impactante demais vê-lo daquela maneira. Não tinha mais cabelos e quase nenhum pelo no corpo. Não haviam mais músculos. Eram só pele e osso. Devia estar pesando uns trinta kilos. Estava deitado com os olhos fechados e com a boca, agora sem nenhum dente, entreaberta. Dormia com muita dificuldade em respirar, como se toda a sua energia vital estivesse sendo depositada nisso: continuar respirando.

Elas colocavam água na sua boca com ajuda de uma seringa e ele reclamava muito pra engolir trinta mililitros de água.

Eu peguei na sua mão, acarinhei sua cabeça e disse que estava ali e que o amava. Ele não respondeu. Falava poucas palavras, apenas as necessárias e me responder não era a sua maior necessidade agora.

Eu ajudei a limpar a casa e lavei as louças, ajudei a trocar e dei água para ele. Mas sabia que participar deste processo não ajudou ninguém. Foi por mim.
Mais uma vez fui egoísta. Eu sou, na maioria das vezes.

Uma coisa engraçada sobre o esperar é que ficamos mais egoísta do que já somos.  Parece que nenhum problema é maior que nossa dor. A alegria alheia nesta hora nos ofende. A vida é uma espera. "Não me amole! Não vê que estou esperando?"

Uma tarde, estava passando a mão na sua cabeça e ele acordou. Sorriu pra mim e voltou a dormir. De todos os olhares, esse foi o mais doce. E o mais doloroso da minha vida.

Dessa vez eu não praguejei com Deus. Parecia tão justo! E foi com muita dignidade...

Até que chegou a hora de partir. Juntei minhas coisas, entrei no quarto e segurei sua mão. Era a última vez que eu o veria. Uma dor indescritível se apoderou de mim. Meu coração acelerado, martelava. Nó na garganta, dor no peito. Sentia vontade de gritar.

Eu disse em pensamento que o amava e fiquei mais uns quinze minutos ali. Acredito nas energias que movimentam nossa vida. Acredito nesta troca. Trocamos ali nossa última energia.

Depois disso, fui embora.

E quando chegou a hora, ele também foi.