Eu ouço suas canções desde criança por influência do meu pai. Nós tínhamos em casa três vinis com os maiores sucessos da dupla e me familiarizo logo com as letras.
Troquei um pacote de fralda geriátrica pelo ingresso e posso dizer que foi um dos melhores shows que já fui. Foi num espaço destinado à espetáculos onde todos puderam viver o momento sentados em poltronas confortáveis.
Uma vez foi num show de um artista consagrado, muito conhecido no Brasil e no resto do mundo. Muito mais que Sá e Guarabyra. Sua frieza e intolerância me fizeram refletir no que é ser artista. Fui embora nesta ocasião pesando o quanto deveria ser difícil passar trinta anos de lugar em lugar, cantando as mesmas canções. Ouvindo o público pedir as mesmas músicas sempre. E como suas novas criações não eram aceitas, somente as que consagraram sua carreira e o escravizaram no tempo. Eu respeitei o artista que, apesar de ser um tanto arrogante, tinha seus motivos.
Mas depois do show do Sá e Guarabyra, eu mudei de ideia sobre isso. Decidi que qualquer artista tem que se elevar no nível deles, de respeito e atenção ao público sempre! Porque tem muita gente boa fazendo música por aí, em barzinhos e eventos particulares esperando a grande chance que poucos tiveram. E se alguém sai de casa pra te ver, é uma honra! - Pra você.
Sá e Guarabyra foram artistas respeitados na sua época lançando grandes sucessos de novelas com seu "rock rural" além de serem compositores extraordinários - fizeram canções que se consagraram nas vozes de outrem.
No show, além da nostalgia das canções, a humildade e entrega ao público foram dois dos pontos fortes que me encantaram. E a sutileza das palavras e inteligência nos contos. Eu me vi cativada pela voz, pelo jeito, pela postura. Era como se estivessem fazendo o seu primeiro show sabendo que era nosso primeiro encontro.
Como disse antes, conheço muitos clássicos da dupla e vibrei muito com canções como Dona, Jesus numa Moto, Roque Santeiro, Espanhola, Sobradinho. Mas entrei em verdadeiro transe quando ouvi uma das minhas músicas preferidas. Daquelas músicas que toca a gente, que fala com a gente, que é a gente! Milton Nascimento a eternizou, mas na voz de seus compositores, Sá e Guarabyra, ela é perfeita.
Gratidão pelo momento!
Caçador de Mim
Sá e Guarabyra
Por tanto amor, por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu, caçador de mim
Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar, longe do meu lugar
Eu, caçador de mim
Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim?
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim
Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim