sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Ser tormenta

 De que tanto sofre esse corpo moribundo?

O que tanto anseia, o que se quer com tudo isso?

Das quedas e picos de estranha criatura que me sinto

Numa prisão eterna de sentidos sufocados

Sentimentos atordoados

Depois, como se numa nuvem passageira

Tudo se esvai


Do que é feita essa célula?

Essa aqui, que pulsa aguda 

E tão perene, tão profunda

Feito vela queimando a cera

Lenta e ardentemente fugaz

Passa o pico, desce a montanha

E pega a estrada como se não houve 

Se esquece da subida

Simplesmente vai


Que sufoco é ser essa alma

Um misto de alegria e dor

Ser e estar, depois não estar e nem mais querer ser

Das paredes uterinas e cordas vocais

Insano, tenso, é doido de se ver

E sobe e desce e faz a curva

Tudo aqui, nesse tempo rápido e cruel

Que é de um filme no mesmo mês


Eles nunca entenderão

É impossível sentir o mesmo

É inexplicável e incompreensível

É dolo e culpa, alegria e prazer

Que beira a insanidade, que faz adoecer


Não há como saber

O pulso é livre e preso

A terra é a própria entranha

Quando a carne abre clamando o abismo 

E depois o céu


Eu clamo que deus não exista

Que nada seja retornável

E que ninguém volte de novo

Porque dessa experimentação que vivo

Desse luxo de existência e resistência

Não tolero mais a loucura que é ser

Em mais que uma vida

Mulher





sexta-feira, 14 de julho de 2023

Filha

 Venha ver o que eu fiz!

Só que venha ligeiro, que não posso esperar 

É bonito e tem dengo, só que é tudo de grão  

Logo assim que demores, porque é feito de tempo 

Pode, de supetão, tudo desmoronar 


Chega aqui, por favor! 

Me ensine a lidar 

Sem espera sequer, não sei o que fazer, 

Eu na rua, brincando, de repente, mulher! 

E eu não quero crescer, sem nem me preparar! 


Mãe, vou aí no domingo! 

Por favor, mesa pra três 

Que eu levo os filhos da filha, que são pra você mimar 

Também levo a sobremesa, não se preocupe com a etiqueta 

O pai não vai acompanhar, será só nós dessa vez 


Mãe, vamos tomar um café? 

Me diz, como você está? 

Que a vida passou depressa, e às vezes, nos prega peças 

Estamos aqui conversando, como duas amigas velhas 

Que se esforçam pra se encontrar 


Minha mãe, tens que comer! 

Me ajude a te cuidar 

Que o alimento da alma é o amor, mas do corpo é o sabor 

Que recusas, tão descrente, que um dia, existiu a gente,  

E no meio dessa dor, resta só te alimentar


É que ontem eu te olhei

Num olhar apaixonado, dentro de minha pequenez

De um ser desamparado, que precisa de um colo

Cantava morena dengosa e me vestias de cuidado

E correu o mundo depressa, tempo tão subestimado!

Que minha vez, enfim, chegou, de ser teu materno solo