domingo, 16 de julho de 2017

Insuflo

Naquele dia, ela acordou diferente. Desligou o despertador e não olhou para o lado. Saiu da cama, tomou seu banho sereno e sem pressa. Vestiu-se e se maquiou, como raramente fazia. Não olhou pra cama. Fez café um pouco mais forte que de costume e saiu. Não pensou muito, não olhou pra trás. Fechou a porta e andou.

Naquele dia, ela trabalhou mais que de costume. Fez questão de ocupar o seu dia. Esforçou-se pra tirar das gavetas tarefas inacabadas. Passou um pouco do horário.

Naquele dia, ela foi à academia. Fez sua série de exercícios corretamente, como nunca havia feito. Teve foco no que fazia. Não prestou atenção em mais nada, apenas em si.

Tudo a sua volta era apenas mundo e naquele dia, o mundo era desinteressante, não lhe chamava a atenção.

Naquele dia, ela não voltou pra casa. Entrou num bar, pediu um drink. O mais caro. Saboreou o álcool e as frutas vagarosamente. Pediu outro.

Um homem sentou ao seu lado e pediu o mesmo. Puxou assunto. Apática, ela o encarou com olhos vazios, sem expressão. Não precisou dizer muito. Ele entendeu e saiu.

Seu telefone na bolsa, no modo silencioso, não parava de vibrar. Era ele. Ela então se lembrou. Perdida em pensamentos deixou que chamasse por muito tempo, vibrando dentro da bolsa, em seu colo.

- Mais um desse, por favor!

Curiosamente, ela não pensava em nada em específico. Era como se alguém estivesse em sua mente, fazendo uma faxina. Estava realmente vazia de sentimentos. Era diferente pra ela, que sempre foi explosão. E se viu observando que ser destituída era bom.

Ficou ali, tomando seu último drink. Nem mesmo olhava para o lado. O bar estava cheio, voz e violão trovava Djavan.

Ela despertou daquele transe que a consumia e resolveu sair. Pagou e se foi.

Mas naquela noite, ela não voltou pra casa. Pegou seu carro e resolveu dirigir. Sem rumo, apenas foi. Na estrada, não se sabe onde, ela viu o letreiro do hotel. Estava cansada, então parou.

No quarto, tomou outro banho. Lavou seus cabelos, usou o secador. Passou no corpo um creme hidratante que tinha na bolsa. Ligou a tv e desligou. Nem mesmo um bom livro tinha ali. Teve que, inevitavelmente, recorrer ao celular.

Muitas chamadas perdidas e mensagens de texto. Eram dele.

Ela não se deu ao trabalho de ler. Não naquele dia. Talvez em outro, quando voltasse a sentir.

Apenas deu-se o trabalho de mandar-lhe uma única mensagem. Não tinha saudação, advertência ou recomendações. Não haviam explicações ou lição de moral. Seria seu último esforço com ele:

Não vou mais voltar.