sexta-feira, 14 de julho de 2023

Filha

 Venha ver o que eu fiz!

Só que venha ligeiro, que não posso esperar 

É bonito e tem dengo, só que é tudo de grão  

Logo assim que demores, porque é feito de tempo 

Pode, de supetão, tudo desmoronar 


Chega aqui, por favor! 

Me ensine a lidar 

Sem espera sequer, não sei o que fazer, 

Eu na rua, brincando, de repente, mulher! 

E eu não quero crescer, sem nem me preparar! 


Mãe, vou aí no domingo! 

Por favor, mesa pra três 

Que eu levo os filhos da filha, que são pra você mimar 

Também levo a sobremesa, não se preocupe com a etiqueta 

O pai não vai acompanhar, será só nós dessa vez 


Mãe, vamos tomar um café? 

Me diz, como você está? 

Que a vida passou depressa, e às vezes, nos prega peças 

Estamos aqui conversando, como duas amigas velhas 

Que se esforçam pra se encontrar 


Minha mãe, tens que comer! 

Me ajude a te cuidar 

Que o alimento da alma é o amor, mas do corpo é o sabor 

Que recusas, tão descrente, que um dia, existiu a gente,  

E no meio dessa dor, resta só te alimentar


É que ontem eu te olhei

Num olhar apaixonado, dentro de minha pequenez

De um ser desamparado, que precisa de um colo

Cantava morena dengosa e me vestias de cuidado

E correu o mundo depressa, tempo tão subestimado!

Que minha vez, enfim, chegou, de ser teu materno solo