quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

COSTUME DE COMPAIXÃO

 Zé Prosópio – que se conta, daquelas bandas escondidas no meio do caminho para as Bahias de todos os Santos.  De que viveu, ali, um homem medíocre chamado José Prosópio, que por força do sobrenome na laia de quem tem berço, mesmo sendo feito da palhada de milho chamuscada, ficou Zé, mas não perdeu o Prosópio.

Nasceu naquela época sem televisão e muita enxada, da ordem das parteiras trabalhadoras, único filho homem depois de cinco meninas. Teve a chance de nascer na cidade, onde seu pai, mesmo sitiante, vivente do roçado e do garimpo, comprou uma casinha em frente a praça mais badalada da cidade, onde habitavam festas anuais do pião e da cachaça. Zé Prosópio, por assim, ser quase o único entre todos os amigos da idade que não pegava carro do leite para ir para a escola, que morava perto da pracinha da cidade e por ser único filho homem e caçula, foi desobrigado de trabalhar criança, com a penhora de que isso renderia nos estudos. Era sua única obrigação como filho de Seu Arnaldo. Além disso, o único que pôde estudar, já que menina não precisa ser letrada para conseguir casamento feliz e o dinheiro reservado era mesmo só para a esperança de um.

Cresceu sendo essa promessa e quase uma ameaça de que sua obrigação era ser alguém na vida. E tentou. Cresceu e cursou engenharia numa das melhores universidades do Estado. Sustentado pelo velho lavrador, só voltava para casa nas férias, época de ostentar aos amigos roceiros, uma vida completamente desconhecida que jamais alcançariam. Esnobe de carteirinha, só lhe tinha por iguais, o pessoal da faculdade. Depois de seis anos, voltou doutor com seu anel reluzente no dedo e aos poucos, perdeu contato com os amigos que fez por lá.

Zé Prosópio tinha uma personalidade singular. Dono de uma devoção ao culto e tudo que era oculto que surgia, devorou ao longo dos anos, livros e jornais que o tornavam cada vez mais incomunicável com seu povo e por se distanciar tanto da sua essência, se viu um dia falando sozinho sobre coisas complexas da vida. Muita informação sobre tudo, tirou seu eixo engrenador, coisa essencial para arrumar um emprego e se ajeitar. Não parava em lugar nenhum e tinha sempre um projeto arquitetado na cabeça. Sempre que lhe perguntavam, estava sócio de algum empreendimento novo que não durava dois verões, com prazos de vencimento menores que o lucro previsto. Da arte de criar e recriar, sem eira, nem beira, nem o principal que era renda, bendita que foi, a aposentadoria do seu velho pai, agora com todas as filhas bem-casadas e com suas próprias histórias traçadas, o velho acolheu de volta seu filho doutor-sonhador em casa.

Desse finco de desatino nem mesmo conseguiu namorar alguém. Teve pelas bandas da faculdade uma moça que se interessou por ele, com seu jeito galante de falar sobre as estrelas, política, coisa e tal. Tirou seus primeiros beijos e logo o gozo de se ter uma mulher. Mas, nada durou. Sua sociopatia nata repeliu a moça poucos meses depois, que apesar de ansiar por um amor verdadeiro, também era estudada e tinha opções interessantes naquela grande universidade. Depois disso, amores fúteis na penumbra, com um bom pagamento seguido da satisfação.

Com pai e mãe, vivendo na mesma casinha em frente a praça, Zé Prosópio reinventava a cada dia uma matilha de projetos cheios de esperança de dinheiro fácil e desconexos com a realidade. Ali, envelheceu. Ninguém sabe como, mas de certo, fruto das maracutaias em que se metia, Zé Prosópio aposentou sem nunca nem ter carteira assinada. Não se submetia a trabalhar para os outros, afinal, era inteligente demais para servir aos tolos. A mesma lógica não lhe calhava para viver às custas do governo. Dali tirou o sustento das migalhas que comia enquanto sentado no banco em frente a praça, balbuciava sozinho sobre a Constelação de Órion, depois da partida dos pais roceiros. Ignorava a todos. Conselhos das irmãs mais velhas ou atenção aos sobrinhos. A vida alheia lhe parecia simplória, demasiadamente entediante diante da imensidão do universo e novidades do mundo.

Praguejava sobre a festa da cachaça, sobre a banalidade da ocasião, mas em seu íntimo, gostava do momento, que era a chance de rever velhos conhecidos, trocar poucas palavras e expor um pouco de suas ideias, as quais o mundo precisava conhecer.

Meu pai conhecia Zé Prosópio. Mas, diferente dele, só conseguiu sair da roça com dezesseis anos. Deixou aquela cidade com a ajuda dos padrinhos e alçou mundos e fundos para estudar um pouco mais do que o destino impusera. Ao fim, nunca cursou a universidade, se casou, teve três filhos, passa bem. Um dia, no roteiro daquelas visitas anuais aos parentes que nunca se foram daquela cidadezinha, quis me apresentar a Zé Prosópio. Eu, criança, aceitava acompanhar as andanças do meu pai pela cidade, sempre de olho numa sorveteria em frente àquela praça, que cativava minha obediência. Lembro de lamber o sorvete que escorria pelos meus dedinhos, enquanto meu pai segurava minha outra mão. Lembro do completo desprezo de Zé Prosópio por minha existência, enquanto falava sobre projetos infindos que se meteu, com esperança nos olhos, voz de veludo e um vocabulário incompreensível. Em ocasiões posteriores, enquanto crescia, acompanhei meu velho até perceber a completa falta de empatia de Zé Prosópio por meu pai e de certo, me causando tormenta naquelas visitas. Morávamos em outro estado, as visitas à cidadezinha aconteciam apenas uma vez por ano e com tantos parentes para ver, daqueles que se enchiam de alegria ao ver meu pai, forrando mesas fortunadas de café, bolos e biscoitos para compartilhar sua companhia, perdíamos certo tempo ali, de pé, de frente àquela praça, dando ouvidos a quem mal lhe tinha alguma feição. Perguntei a meu pai o porquê de ainda visitar aquele homem, explicando o quanto eu via naquilo, uma verdadeira desventura no nosso passeio. Com toda paciência, meu pai me explicou.

Contou sobre um menino brincalhão que falava sobre as estrelas e de como o mundo era grande. Que produzia as melhores brincadeiras e sempre repartia os lanches com ele na escola. Muitas vezes, era tudo que meu pai comia durante um longo período e o menino, quando percebeu isso, sempre dava a ele o pedaço maior, quando não, dava tudo que tinha. Contou quando o menino apanhou mais que ele numa briga de escola, tentando defendê-lo. De certo, aquele menino um dia se perdeu. Na verdade, ele foi afastado da simplicidade da vida para virar um solitário doutor lunático. Talvez, não fizesse mesmo a menor diferença estarmos ali. Era tão desconexo da realidade e das pessoas, que era impossível saber. Mas, talvez, e somente talvez, ele ficasse esperando todos os anos um amigo vir de longe. Não tinha capacidade nem sensibilidade para oferecer uma xícara de café. Mas, pode ser, que as melhores ideias, ele guardava para contar ao meu pai. Ideias descabíveis, sem fundamentos, que ninguém mais tinha tempo ou paciência para perder ouvindo. Talvez, e apenas, talvez, ele aguardasse alguém, que afortunadamente não vivia apenas de banquetas na praça e em muita vida que tinha para viver, dedicava algumas horas para ouvi-lo.

Para Zé Prosópio, nunca saberemos. Mas, para o meu pai, as visitas, afinal, eram um costume de compaixão.