Zé Prosópio – que se conta, daquelas bandas escondidas no meio do caminho para as Bahias de todos os Santos. De que viveu, ali, um homem medíocre chamado José Prosópio, que por força do sobrenome na laia de quem tem berço, mesmo sendo feito da palhada de milho chamuscada, ficou Zé, mas não perdeu o Prosópio.
Nasceu
naquela época sem televisão e muita enxada, da ordem das parteiras
trabalhadoras, único filho homem depois de cinco meninas. Teve a chance de
nascer na cidade, onde seu pai, mesmo sitiante, vivente do roçado e do garimpo,
comprou uma casinha em frente a praça mais badalada da cidade, onde habitavam
festas anuais do pião e da cachaça. Zé Prosópio, por assim, ser quase o único
entre todos os amigos da idade que não pegava carro do leite para ir para a
escola, que morava perto da pracinha da cidade e por ser único filho homem e
caçula, foi desobrigado de trabalhar criança, com a penhora de que isso
renderia nos estudos. Era sua única obrigação como filho de Seu Arnaldo. Além
disso, o único que pôde estudar, já que menina não precisa ser letrada para
conseguir casamento feliz e o dinheiro reservado era mesmo só para a esperança
de um.
Cresceu
sendo essa promessa e quase uma ameaça de que sua obrigação era ser alguém na
vida. E tentou. Cresceu e cursou engenharia numa das melhores universidades do Estado.
Sustentado pelo velho lavrador, só voltava para casa nas férias, época de
ostentar aos amigos roceiros, uma vida completamente desconhecida que jamais alcançariam.
Esnobe de carteirinha, só lhe tinha por iguais, o pessoal da faculdade. Depois
de seis anos, voltou doutor com seu anel reluzente no dedo e aos poucos, perdeu
contato com os amigos que fez por lá.
Zé
Prosópio tinha uma personalidade singular. Dono de uma devoção ao culto e tudo
que era oculto que surgia, devorou ao longo dos anos, livros e jornais que o
tornavam cada vez mais incomunicável com seu povo e por se distanciar tanto da
sua essência, se viu um dia falando sozinho sobre coisas complexas da vida.
Muita informação sobre tudo, tirou seu eixo engrenador, coisa essencial para
arrumar um emprego e se ajeitar. Não parava em lugar nenhum e tinha sempre um
projeto arquitetado na cabeça. Sempre que lhe perguntavam, estava sócio de
algum empreendimento novo que não durava dois verões, com prazos de vencimento
menores que o lucro previsto. Da arte de criar e recriar, sem eira, nem beira,
nem o principal que era renda, bendita que foi, a aposentadoria do seu velho
pai, agora com todas as filhas bem-casadas e com suas próprias histórias
traçadas, o velho acolheu de volta seu filho doutor-sonhador em casa.
Desse
finco de desatino nem mesmo conseguiu namorar alguém. Teve pelas bandas da
faculdade uma moça que se interessou por ele, com seu jeito galante de falar
sobre as estrelas, política, coisa e tal. Tirou seus primeiros beijos e logo o
gozo de se ter uma mulher. Mas, nada durou. Sua sociopatia nata repeliu a moça
poucos meses depois, que apesar de ansiar por um amor verdadeiro, também era
estudada e tinha opções interessantes naquela grande universidade. Depois
disso, amores fúteis na penumbra, com um bom pagamento seguido da satisfação.
Com
pai e mãe, vivendo na mesma casinha em frente a praça, Zé Prosópio reinventava
a cada dia uma matilha de projetos cheios de esperança de dinheiro fácil e
desconexos com a realidade. Ali, envelheceu. Ninguém sabe como, mas de certo,
fruto das maracutaias em que se metia, Zé Prosópio aposentou sem nunca nem ter
carteira assinada. Não se submetia a trabalhar para os outros, afinal, era
inteligente demais para servir aos tolos. A mesma lógica não lhe calhava para viver
às custas do governo. Dali tirou o sustento das migalhas que comia enquanto
sentado no banco em frente a praça, balbuciava sozinho sobre a Constelação
de Órion, depois da partida dos pais roceiros. Ignorava
a todos. Conselhos das irmãs mais velhas ou atenção aos sobrinhos. A vida
alheia lhe parecia simplória, demasiadamente entediante diante da imensidão do universo
e novidades do mundo.
Praguejava
sobre a festa da cachaça, sobre a banalidade da ocasião, mas em seu íntimo,
gostava do momento, que era a chance de rever velhos conhecidos, trocar poucas
palavras e expor um pouco de suas ideias, as quais o mundo precisava conhecer.
Meu
pai conhecia Zé Prosópio. Mas, diferente dele, só conseguiu sair da roça com
dezesseis anos. Deixou aquela cidade com a ajuda dos padrinhos e alçou mundos e
fundos para estudar um pouco mais do que o destino impusera. Ao fim, nunca cursou
a universidade, se casou, teve três filhos, passa bem. Um dia, no roteiro
daquelas visitas anuais aos parentes que nunca se foram daquela cidadezinha,
quis me apresentar a Zé Prosópio. Eu, criança, aceitava acompanhar as andanças
do meu pai pela cidade, sempre de olho numa sorveteria em frente àquela praça, que
cativava minha obediência. Lembro de lamber o sorvete que escorria pelos meus
dedinhos, enquanto meu pai segurava minha outra mão. Lembro do completo desprezo
de Zé Prosópio por minha existência, enquanto falava sobre projetos infindos
que se meteu, com esperança nos olhos, voz de veludo e um vocabulário incompreensível.
Em ocasiões posteriores, enquanto crescia, acompanhei meu velho até perceber a
completa falta de empatia de Zé Prosópio por meu pai e de certo, me causando
tormenta naquelas visitas. Morávamos em outro estado, as visitas à cidadezinha
aconteciam apenas uma vez por ano e com tantos parentes para ver, daqueles que se
enchiam de alegria ao ver meu pai, forrando mesas fortunadas de café, bolos e
biscoitos para compartilhar sua companhia, perdíamos certo tempo ali, de pé, de
frente àquela praça, dando ouvidos a quem mal lhe tinha alguma feição. Perguntei
a meu pai o porquê de ainda visitar aquele homem, explicando o quanto eu via naquilo,
uma verdadeira desventura no nosso passeio. Com toda paciência, meu pai me
explicou.
Contou
sobre um menino brincalhão que falava sobre as estrelas e de como o mundo era
grande. Que produzia as melhores brincadeiras e sempre repartia os lanches com
ele na escola. Muitas vezes, era tudo que meu pai comia durante um longo
período e o menino, quando percebeu isso, sempre dava a ele o pedaço maior,
quando não, dava tudo que tinha. Contou quando o menino apanhou mais que ele
numa briga de escola, tentando defendê-lo. De certo, aquele menino um dia se
perdeu. Na verdade, ele foi afastado da simplicidade da vida para virar um solitário
doutor lunático. Talvez, não fizesse mesmo a menor diferença estarmos ali. Era
tão desconexo da realidade e das pessoas, que era impossível saber. Mas,
talvez, e somente talvez, ele ficasse esperando todos os anos um amigo vir de
longe. Não tinha capacidade nem sensibilidade para oferecer uma xícara de café.
Mas, pode ser, que as melhores ideias, ele guardava para contar ao meu pai.
Ideias descabíveis, sem fundamentos, que ninguém mais tinha tempo ou paciência
para perder ouvindo. Talvez, e apenas, talvez, ele aguardasse alguém, que afortunadamente
não vivia apenas de banquetas na praça e em muita vida que tinha para viver, dedicava
algumas horas para ouvi-lo.
Para
Zé Prosópio, nunca saberemos. Mas, para o meu pai, as visitas, afinal, eram um
costume de compaixão.