quarta-feira, 13 de março de 2019

Agora


Uma das coisas que aprendi é que as maiores mudanças na vida acontecem rapidamente, sem aviso prévio.

Uma mulher estava grávida de seis meses. Um dia, ela estava lavando a calçada de casa quando sentiu uma dor de cabeça muito forte. Em menos de um minuto, caiu no chão. Uma vizinha a socorreu. A ambulância a levou à tempo e não foi fatal, mas foi trágico. Uma pequena veia importante que passa pelo cérebro de todo mundo se rompeu na cabeça dela. Eles conseguiram induzi-la ao coma para tentar salvar a criança. Foram 2 meses de adrenalina e ansiedade. A criança nasceu de oito meses, prematura, porém nasceu bem. A mulher continuou em coma por quase oito meses. Depois, saiu do coma, mas respira até hoje com ajuda de aparelhos e vive em estado quase que vegetativo.

Um segundo atrás era uma mulher saudável, que estava grávida e lavando a calçada.

As tragédias são assim, súbitas. É como a lama que atingiu Brumadinho ou um acidente de automóvel que leva milésimos de segundo para ocorrer. Não há tempo pra despedidas. Não há espaço para chamar o padre e se confessar, se redimir.

Uma coisa que aprendi sobre a vida é que a coisa mais poderosa que existe é o tempo. Porque o espaço só existe no tempo. As ideias e vivências só existem no tempo. E podemos viver com o passado e com o presente. Mas nunca viveremos o futuro, que é a magia do tempo.

Um amigo me disse certa vez: “não me force a dizer que estou gostando de agora, deste momento. Porque vai demorar pelo menos um pouco de tempo para que “caia a ficha” de como agora está sendo tão bom. Amanhã, talvez, o agora tenha um sabor incrível, mas depois de amanhã, esse momento aqui será verdadeiramente nostálgico. É pura mentira quem diz viver o agora, porque demora um pouco pra saber do quanto foi bom o momento”.

Se é verdadeira essa conclusão, que pena! Porque devemos saborear o momento.

A moça grávida tinha um marido. Eles tinham verdadeira paixão um pelo outro e sempre tiveram o sonho de se tornarem pais. Esse desejo virou uma obsessão pra ele, pois não conseguiam engravidar e a juventude de ambos passava com o tempo. Fizeram alguns tratamentos de fertilidade e depois de anos, ela engravidou. Aí pararam de viver um pelo outro e passaram a viver o futuro. Tudo que faziam e pensavam era na expectativa da chegada do bebê. Seria uma nova etapa e preencheria de vez suas vidas.

Quando veio o derrame cerebral da esposa, tudo mudou. Por dois meses, a expectativa do homem era salvar sua vida. Sim, ele queria o bebê do mesmo modo que sempre quis. Mas a possibilidade de perder o amor da sua vida estava fora de cogitação. Salvaram o bebê! E pra ele foi um grande alívio. Mas não foi um nascimento emocionante. Foi um momento de verdadeira agonia. O bebê ficou ainda um mês e meio no hospital. Era quase sua casa já. Seu negócio próprio ficou aos cuidados da irmã enquanto ele vivia naqueles corredores, na expectativa de viver junto ao seu filho e sua esposa. O bebê saiu do hospital, mas a mulher não. Ela passou nove longos meses naquele leito. Oito meses em coma e um mês antes de conseguirem leva-la para casa com os aparelhos.

O homem vivia por ela. Ele revezava com sua mãe os cuidados com o filho e com a sogra os cuidados com a mulher. Enquanto toda a sua energia estava depositada na recuperação da esposa, o filho crescia. Passou os primeiros meses de vida, os meses de maior dependência de um ser humano, com um pai partido ao meio. Viveu essa agonia. O pai fazia o filho dormir com a dor no peito. Abraçava o filho com sofrimento e solidão. Pensava vinte e quatro horas por dia na esposa. O filho deu seu primeiro sorriso sonhando, depois acordado, e esboçou as primeiras palavras, e engatinhou a primeira vez. E não havia reação no pai.

A esposa foi pra casa da mãe dela. Ambos concordaram que lá ela seria melhor cuidada. O homem passava de manhã e a tarde para vê-la. E a noite, quando seu filho já estava no berço dormindo, ele assistia ao vídeo do seu casamento ou pegava os álbuns de fotografia de quando namoravam e de seus muitos passeios juntos. Lia e relia as cartas de amor que um dia recebeu dela. Como ele a amava! Passou a viver das lembranças de quando a mulher vivia ao seu lado e não apenas coexistia. Ficou, enfim, refém do passado.

O tempo passa. E certas coisas são irrecuperáveis. Momentos passados, bons e ruins, se vão. E coisas mudam, o tecido da existência é muito fino e delicado. Basta um batimento errado no coração para que nossos planos tenham um fim.

Não é sobre o tempo. É sobre mudanças. É sobre viver. Porque aproveitar o agora é difícil demais para nós. Mas devemos o fazer. Saborear devagarinho cada coisa na vida por mais que seja azeda ou amarga, pois vai passar. E se for doce, passa do mesmo jeito e o importante é ter aproveitado enquanto estava lá.

Viver.

Agora.