Uma das coisas que aprendi é que as maiores
mudanças na vida acontecem rapidamente, sem aviso prévio.
Uma mulher estava grávida de seis meses. Um dia,
ela estava lavando a calçada de casa quando sentiu uma dor de cabeça muito forte.
Em menos de um minuto, caiu no chão. Uma vizinha a socorreu. A ambulância a
levou à tempo e não foi fatal, mas foi trágico. Uma pequena veia importante que
passa pelo cérebro de todo mundo se rompeu na cabeça dela. Eles conseguiram
induzi-la ao coma para tentar salvar a criança. Foram 2 meses de adrenalina e ansiedade.
A criança nasceu de oito meses, prematura, porém nasceu bem. A mulher continuou
em coma por quase oito meses. Depois, saiu do coma, mas respira até hoje com
ajuda de aparelhos e vive em estado quase que vegetativo.
Um segundo atrás era uma mulher saudável, que
estava grávida e lavando a calçada.
As tragédias são assim, súbitas. É como a lama
que atingiu Brumadinho ou um acidente de automóvel que leva milésimos de
segundo para ocorrer. Não há tempo pra despedidas. Não há espaço para chamar o
padre e se confessar, se redimir.
Uma coisa que aprendi sobre a vida é que a
coisa mais poderosa que existe é o tempo. Porque o espaço só existe no tempo.
As ideias e vivências só existem no tempo. E podemos viver com o passado e com
o presente. Mas nunca viveremos o futuro, que é a magia do tempo.
Um amigo me disse certa vez: “não me force a dizer
que estou gostando de agora, deste momento. Porque vai demorar pelo menos um
pouco de tempo para que “caia a ficha” de como agora está sendo tão bom. Amanhã,
talvez, o agora tenha um sabor incrível, mas depois de amanhã, esse momento
aqui será verdadeiramente nostálgico. É pura mentira quem diz viver o agora,
porque demora um pouco pra saber do quanto foi bom o momento”.
Se é verdadeira essa conclusão, que pena! Porque
devemos saborear o momento.
A moça grávida tinha um marido. Eles tinham
verdadeira paixão um pelo outro e sempre tiveram o sonho de se tornarem pais. Esse
desejo virou uma obsessão pra ele, pois não conseguiam engravidar e a juventude
de ambos passava com o tempo. Fizeram alguns tratamentos de fertilidade e
depois de anos, ela engravidou. Aí pararam de viver um pelo outro e passaram a
viver o futuro. Tudo que faziam e pensavam era na expectativa da chegada do
bebê. Seria uma nova etapa e preencheria de vez suas vidas.
Quando veio o derrame cerebral da esposa, tudo
mudou. Por dois meses, a expectativa do homem era salvar sua vida. Sim, ele
queria o bebê do mesmo modo que sempre quis. Mas a possibilidade de perder o
amor da sua vida estava fora de cogitação. Salvaram o bebê! E pra ele foi um
grande alívio. Mas não foi um nascimento emocionante. Foi um momento de
verdadeira agonia. O bebê ficou ainda um mês e meio no hospital. Era quase sua
casa já. Seu negócio próprio ficou aos cuidados da irmã enquanto ele vivia naqueles
corredores, na expectativa de viver junto ao seu filho e sua esposa. O bebê
saiu do hospital, mas a mulher não. Ela passou nove longos meses naquele leito.
Oito meses em coma e um mês antes de conseguirem leva-la para casa com os
aparelhos.
O homem vivia por ela. Ele revezava com sua mãe
os cuidados com o filho e com a sogra os cuidados com a mulher. Enquanto toda a
sua energia estava depositada na recuperação da esposa, o filho crescia. Passou
os primeiros meses de vida, os meses de maior dependência de um ser humano, com
um pai partido ao meio. Viveu essa agonia. O pai fazia o filho dormir com a dor
no peito. Abraçava o filho com sofrimento e solidão. Pensava vinte e quatro
horas por dia na esposa. O filho deu seu primeiro sorriso sonhando, depois
acordado, e esboçou as primeiras palavras, e engatinhou a primeira vez. E não
havia reação no pai.
A esposa foi pra casa da mãe dela. Ambos concordaram
que lá ela seria melhor cuidada. O homem passava de manhã e a tarde para vê-la.
E a noite, quando seu filho já estava no berço dormindo, ele assistia ao vídeo do
seu casamento ou pegava os álbuns de fotografia de quando namoravam e de seus
muitos passeios juntos. Lia e relia as cartas de amor que um dia recebeu dela. Como
ele a amava! Passou a viver das lembranças de quando a mulher vivia ao seu lado
e não apenas coexistia. Ficou, enfim, refém do passado.
O tempo passa. E certas coisas são irrecuperáveis.
Momentos passados, bons e ruins, se vão. E coisas mudam, o tecido da existência
é muito fino e delicado. Basta um batimento errado no coração para que nossos
planos tenham um fim.
Não é sobre o tempo. É sobre
mudanças. É sobre viver. Porque aproveitar o agora é difícil demais para nós. Mas
devemos o fazer. Saborear devagarinho cada coisa na vida por mais que seja azeda
ou amarga, pois vai passar. E se for doce, passa do mesmo jeito e o importante é
ter aproveitado enquanto estava lá.
Viver.
Agora.