sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Banco da praça

Naquela enfadonha terça-feira, com a reunião na Paulista cancelada, sobrara a ele um tempo raro.

Precisava esperar dar o tempo do seu próximo compromisso e nada poderia ser mais agoniante na sua vida agitada que esperar. Lembrou que ainda estava com o romance policial de Patricia Cornwell na maleta e achou uma boa ideia sentar no banco daquela praça por algum tempo e colocá-lo em dia. Fazia meses que não saía do segundo capítulo.

Sentou. Colocou o relógio pra despertar em uma hora, caso ficasse demasiadamente entretido. Era um homem metódico. Usava traje social impecavelmente passado por ele mesmo. Cabelos cortados na mesma semana e o rosto desprovido de barba, verificada todos os dias. Sentia-se nele o Gucci que usava com orgulho e pudor. Era jovem e bonito, um homem elegante, vaidoso, ambicioso e notoriamente bem sucedido por sovinice. Seus pequenos delitos de consumo eram apenas consigo.

Abriu o livro e tentou concentrar-se. Uma senhora passou por ali com um bebê e um menino por volta dos seus cinco anos. Sentou no banco em frente ao dele. Ele olhou de canto e continuou sua leitura.

- Sente-se ali do lado daquele moço que eu vou precisar usar o banco pra trocar seu irmão, meu anjo.

Era só o que faltava! - pensou o homem – trocando uma criança no meio de uma praça? O que é isso? Cada coisa!

O garoto veio, segurando um trator de brinquedo na mão, com muito esforço, sentou-se ao seu lado.

O homem olhava pro livro sem dar atenção, imóvel.

O garoto olhou pra avó do outro lado e atestou alto sua vitória:

- Consegui sentar, vovó.

- Eu vi, meu anjo.

Sem mover a cabeça, o menino foi passando os olhos no joelho do homem, depois no seu colo, no livro que ele segurava e bem devagar, subindo até perto do seu ombro onde alcançava sem se mexer. O homem percebeu e olhou para o menino que disfarçou abaixando a cabeça, tímido.
Durou pouco tempo até que a curiosidade o tomasse, por fim.

- Você tá lendo esse livro?

- Sim, estou.

- Eu não sei ler ainda. Mas eu já sei escrever meu nome. Minha mãe me ensinou!

- Que bom. – Desinteressado, respondeu.

- Mas ano que vem eu vou aprender a ler e escrever. Que eu já tô indo pra escola e a professora falou que ano que vem a gente vai saber ler tudo já.

- Hum.

- Esse livro aí é de quê?

Haja paciência! – pensou o homem. Tamanha foi sua expressão de incômodo que fez a avó do garoto chamar sua atenção.

- Pára de incomodar o moço, meu anjo! Você tá atrapalhando ele!

O menino parou. Ficou ali do lado pensando. Pensava que um dia saberia ler e leria um livro daquele tamanho todinho. O homem ficou constrangido por demonstrar desgosto. Quis se retratar.

- Eu não sei bem ainda o que vai acontecer porque estou no começo. Mas é uma história que tem um detetive, um policial e um bandido.

A primeira associação que o menino fez foi externada:

- E teve tiro?

- Sim. Teve um crime. Uma mulher morreu. Agora o detetive está investigando pra saber quem é o assassino.

A avó tirou da bolsa um lanche caseiro e deu para o menino, tirando o brinquedo da sua mão. Ela não precisou dizer nada.

- Você quer? – Ofereceu ao homem.

- Não, obrigado.

- De nada. Esse lanche aqui minha vovó que faz. Ela vende pra cantina da escola da minha irmã, mas pra mim ela faz de graça.

- Você tem sorte, então.

- Ela faz outras coisas também, mas não vende.  O que eu mais gosto de comer que ela faz é bolo de chocolate que ela coloca bastante chocolate por cima, mas é só de vez em quando que ela faz. E de salgado, eu gosto de batata amassada com carninha e feijão, mas quando ela faz isso eu não gosto que põe arroz. Você gosta de batata?

- Sim, gosto.

- Então, o Igor, meu amigo, ele não gosta de batata. Daí um dia ele foi lá em casa e não quis comer porque minha vovó não sabia e fez batata. Aí ele separou no prato. Mas ele não falou também que não gostava né? Se ele tivesse falado, ela tinha feito outra coisa pra ele comer. Ele é bem legal, a gente brinca bastante junto, mas às vezes eu acho ele muito chorão. Tipo assim, quando a gente brinca e ele perde, sempre fica bravo e chora. Mas na escola ele é meu melhor amigo porque a gente senta junto com a carteira encostada. Lá ele não chora muito. Só nas primeiras vezes que ele chorou muito porque não queria ir pra escola mas agora que ele é meu amigo ele gosta mais. Minha mamãe falou que ele chora assim porque ele não tem irmão, porque se ele tivesse um irmão que nem o meu ele iria cansar de choro e ia chorar menos.

Deu umas mordidas no lanche, passou um braço no nariz pra secar secreção que saia da alergia da poluição da cidade e continuou:

- Aquele ali é meu irmãozinho. Ele é meio chorão também, mas é mais quando tá com fome ou com dor de barriga, tadinho. E o choro é meio diferente, sabia? Quando ele tá com fome é de um jeito tipo assim “inhéinhéinhéinhé” e quando é de dor é mais alto e é “inhéééééééinhééééééééínhééééé´” e ele quase que perde o ar. Você tem irmão?

- Tenho dois.

- Eles choram assim também?

- Eles já são grandes, mas choravam assim também quando eram bebês.

- Então, irmãos choram mesmo. É bem normal irmão chorar, na verdade. Minha irmã não chora porque ela é menina, mas eu também choro, às vezes. Quando eu caí brincando de pega-pega na escola eu chorei bastante. Você chora?

- Eu já chorei bastante, hoje eu não choro mais.

- Por quê?

- Por que o quê?

- Por que você não chora mais?

- Acho que porque eu não brinco mais de pega-pega. Daí eu não caio pra chorar.

- É. Até que faz sentido.

A vó então decide levantar e seguir o rumo.

- Vamos, meu anjo?

- Agora eu já vou embora, moço. – Desceu do banco agora com a ajuda da mão do homem ao seu lado, pegou na mão da vó e acenou com a outra mão. – Tchau!

- Tchau!

Enquanto o menino ia embora segurando na mão da avó, o homem olhava e ria de canto. Talvez em alguns anos, esta tenha sido a conversa mais rápida e com mais conteúdo que já teve com alguém. Falaram de livro, de ler e escrever, comida, irmãos, choro de bebês... E de forma leve. Ah! Foi leve...

O garoto andava com a avó pensando que homem quando cresce não chora mais porque não brinca mais de pega-pega e não corre o risco de cair.

- Legal aquele moço, né vovó?!

- Muito legal, querido.

- Ele cheirava perfume. – Lembrou o menino.






sábado, 5 de agosto de 2017

Paletó e Terno

Eu fiz nhoque pra ela. Peguei a receita na internet.

Depois de um tempo, a gente percebe que coisas pequenas significam tanto... A gente se reinventa, se enxerga de outro jeito. A gente muda. Muda mesmo.

Os pés firmam no chão, ainda que os sonhos nos movam. Podemos ver, ainda que a vida seja nublada, cada coisa de forma mais clara que antes.

Eu já fui águia. Já fui paletó, gravata, carro do ano. Eu olhava para frente. E para baixo. Foi quando águia que a conheci.

Ela era jovem. Muito, muito mais que eu. Tinha brilho no olhar, era elétrica e apaixonada pela vida. Não era nada imatura, apesar da idade. Era inteligente, bem humorada. Também era livre e voava, como só os pássaros são capazes.

Não era amor, mas era bom. Era gracioso e, ao mesmo tempo, muito prazeroso.

A gente se guardava nas palavras. A gente trocava muito e o fazia com o olhar.
Era bom, era realmente bom. Mas não achava que já era a hora de sentar e descansar. Ainda tinha muito pra andar, também era jovem e estava ao passo de decolar.

Então, ela engravidou.
Nós engravidamos.

Juntamos os trapos.

Minha vida de solteiro acabou. Minha maravilhosa vida de homem solteiro. Freei o avião. Fui obrigado a parar antes mesmo de decolar. Eu pensava muito nela, na sua situação e como era difícil pra ela também ter que mudar. Mas pensava mais em mim. Que bobagem eu fiz!

De maneira tranquila, sem pressa, devagar, quando dava, nós fomos.
Nós somos.

As coisas mudaram tanto! O tempo é capaz de mudar tudo!

Hoje, eu cozinho pra ela. Minha preocupação: se ela gostará. Talvez ela goste mas não fale nada, pelo cansaço do dia, mas talvez ela elogie. Se ela elogiar, eu repito o prato no domingo, quando as crianças vierem almoçar conosco. Se não, eu tento outra receita, afinal, domingo eu não posso arriscar. A comida é a isca pra eles sempre voltarem. Bem sei que comer pizza e miojo todo dia enche o saco. Também tive essa fase.

Engraçado pensar nisso, mas hoje meu coração é mais frágil. Não sou forte como antes. Fora o sapato velho, sou emocionalmente mais atingível, vamos dizer. Posso me machucar facilmente como semana passada, que a mais velha chegou e ao invés de comer o pastel que preparei com tanto carinho, tomou banho e foi beber com os amigos. Fui no mercado, comprei os ingredientes, pensei comigo - "ela chegará muito cansada e com muita fome, vou caprichar" - pra nada.

O mundo também me comove mais. Eu choro como antes não o fazia. Eu vejo barbaridades no jornal e não consigo me conformar. Eu me emociono em filmes clássicos, livros bons, músicas nostálgicas. Eu brigo mais também. Por política, principalmente. Porque, simplesmente, eu não me conformo e isso nunca vai mudar. E essa minha velhice me dá o direito de extravasar.

Detalhes me fazem tão eu de um eu tão diferente do que era...

Já fui águia, hoje sou joão de barro.
Já fui paletó, hoje só sou terno.

Eu fiz nhoque pra ela. Peguei a receita na internet.

Depois de um tempo, a gente percebe que coisas pequenas significam tanto... A gente se reinventa, se enxerga de outro jeito. A gente muda. Muda mesmo.