Naquela enfadonha terça-feira, com a reunião na Paulista cancelada,
sobrara a ele um tempo raro.
Precisava esperar dar o tempo do seu próximo compromisso e nada poderia
ser mais agoniante na sua vida agitada que esperar. Lembrou que ainda estava
com o romance policial de Patricia Cornwell na maleta e achou uma
boa ideia sentar no banco daquela praça por algum tempo e colocá-lo em dia.
Fazia meses que não saía do segundo capítulo.
Sentou. Colocou o relógio pra despertar em uma hora, caso ficasse
demasiadamente entretido. Era um homem metódico. Usava traje social impecavelmente passado por ele mesmo. Cabelos cortados na mesma semana e o
rosto desprovido de barba, verificada todos os dias. Sentia-se nele o Gucci que
usava com orgulho e pudor. Era jovem e bonito, um homem elegante, vaidoso,
ambicioso e notoriamente bem sucedido por sovinice. Seus pequenos delitos de
consumo eram apenas consigo.
Abriu o livro e tentou concentrar-se. Uma senhora passou por ali com um bebê e um menino por volta dos seus cinco
anos. Sentou no banco em frente ao dele. Ele olhou de canto e continuou sua
leitura.
- Sente-se ali do lado daquele moço que eu vou precisar usar o banco pra
trocar seu irmão, meu anjo.
Era só o que faltava! - pensou o homem – trocando uma criança no meio de
uma praça? O que é isso? Cada coisa!
O garoto veio, segurando um trator de brinquedo na mão, com muito
esforço, sentou-se ao seu lado.
O homem olhava pro livro sem dar atenção, imóvel.
O garoto olhou pra avó do outro lado e atestou alto sua vitória:
- Consegui sentar, vovó.
- Eu vi, meu anjo.
Sem mover a cabeça, o menino foi passando os olhos no joelho do homem,
depois no seu colo, no livro que ele segurava e bem devagar, subindo até perto
do seu ombro onde alcançava sem se mexer. O homem percebeu e olhou para o
menino que disfarçou abaixando a cabeça, tímido.
Durou pouco tempo até que a curiosidade o tomasse, por fim.
- Você tá lendo esse livro?
- Sim, estou.
- Eu não sei ler ainda. Mas eu já sei escrever meu nome. Minha mãe me
ensinou!
- Que bom. – Desinteressado, respondeu.
- Mas ano que vem eu vou aprender a ler e escrever. Que eu já tô indo
pra escola e a professora falou que ano que vem a gente vai saber ler tudo já.
- Hum.
- Esse livro aí é de quê?
Haja paciência! – pensou o homem. Tamanha foi sua expressão de incômodo
que fez a avó do garoto chamar sua atenção.
- Pára de incomodar o moço, meu anjo! Você tá atrapalhando ele!
O menino parou. Ficou ali do lado pensando. Pensava que um dia saberia
ler e leria um livro daquele tamanho todinho. O homem ficou constrangido por
demonstrar desgosto. Quis se retratar.
- Eu não sei bem ainda o que vai acontecer porque estou no começo. Mas é
uma história que tem um detetive, um policial e um bandido.
A primeira associação que o menino fez foi externada:
- E teve tiro?
- Sim. Teve um crime. Uma mulher morreu. Agora o detetive está
investigando pra saber quem é o assassino.
A avó tirou da bolsa um lanche caseiro e deu para o menino, tirando o
brinquedo da sua mão. Ela não precisou dizer nada.
- Você quer? – Ofereceu ao homem.
- Não, obrigado.
- De nada. Esse lanche aqui minha vovó que faz. Ela vende pra cantina da
escola da minha irmã, mas pra mim ela faz de graça.
- Você tem sorte, então.
- Ela faz outras coisas também, mas não vende. O que eu mais
gosto de comer que ela faz é bolo de chocolate que ela coloca bastante
chocolate por cima, mas é só de vez em quando que ela faz. E de salgado, eu
gosto de batata amassada com carninha e feijão, mas quando ela faz isso eu não
gosto que põe arroz. Você gosta de batata?
- Sim, gosto.
- Então, o Igor, meu amigo, ele não gosta de batata. Daí um dia ele foi
lá em casa e não quis comer porque minha vovó não sabia e fez batata. Aí ele
separou no prato. Mas ele não falou também que não gostava né? Se ele tivesse
falado, ela tinha feito outra coisa pra ele comer. Ele é bem legal, a gente
brinca bastante junto, mas às vezes eu acho ele muito chorão. Tipo assim,
quando a gente brinca e ele perde, sempre fica bravo e chora. Mas na escola ele
é meu melhor amigo porque a gente senta junto com a carteira encostada. Lá ele
não chora muito. Só nas primeiras vezes que ele chorou muito porque não queria
ir pra escola mas agora que ele é meu amigo ele gosta mais. Minha mamãe falou
que ele chora assim porque ele não tem irmão, porque se ele tivesse um irmão
que nem o meu ele iria cansar de choro e ia chorar menos.
Deu umas mordidas no lanche, passou um braço no nariz pra secar secreção
que saia da alergia da poluição da cidade e continuou:
- Aquele ali é meu irmãozinho. Ele é meio chorão também, mas é mais
quando tá com fome ou com dor de barriga, tadinho. E o choro é meio diferente,
sabia? Quando ele tá com fome é de um jeito tipo assim “inhéinhéinhéinhé”
e quando é de dor é mais alto e é “inhéééééééinhééééééééínhééééé´” e ele
quase que perde o ar. Você tem irmão?
- Tenho dois.
- Eles choram assim também?
- Eles já são grandes, mas choravam assim também quando eram bebês.
- Então, irmãos choram mesmo. É bem normal irmão chorar, na verdade.
Minha irmã não chora porque ela é menina, mas eu também choro, às vezes. Quando
eu caí brincando de pega-pega na escola eu chorei bastante. Você chora?
- Eu já chorei bastante, hoje eu não choro mais.
- Por quê?
- Por que o quê?
- Por que você não chora mais?
- Acho que porque eu não brinco mais de pega-pega. Daí eu não caio pra
chorar.
- É. Até que faz sentido.
A vó então decide levantar e seguir o rumo.
- Vamos, meu anjo?
- Agora eu já vou embora, moço. – Desceu do banco agora com a ajuda da
mão do homem ao seu lado, pegou na mão da vó e acenou com a outra mão. –
Tchau!
- Tchau!
Enquanto o menino ia embora segurando na mão da avó, o homem olhava e
ria de canto. Talvez em alguns anos, esta tenha sido a conversa mais rápida e
com mais conteúdo que já teve com alguém. Falaram de livro, de ler e escrever,
comida, irmãos, choro de bebês... E de forma leve. Ah! Foi leve...
O garoto andava com a avó pensando que homem quando cresce não chora
mais porque não brinca mais de pega-pega e não corre o risco de cair.
- Legal aquele moço, né vovó?!
- Muito legal, querido.
- Ele cheirava perfume. – Lembrou o menino.