domingo, 26 de fevereiro de 2017

Fascínio e Assombro

A história humana me fascina. E me assombra.

Me deixa espantada a capacidade humana de inverter valores e desconstruir acordos morais e éticos. Digo isso porque a moralidade nada mais é que um acordo de como deve-se viver em sociedade. Esse acordo muitas vezes privilegia, exclui, e é construído com o próprio tempo e cultura de um povo, mas não entrarei nesse mérito.

Ocorre que em todo processo humano, observamos a detenção coletiva da consciência sobre a ética e a moral por um interesse maior. Maior, muitas vezes, que a própria paz e bem estar coletivo. Daí observamos as barbaridades e os genocídios que mancham de sangue nossos dias, o passado, o presente e nosso futuro. O que me incomoda na realidade não é isso.

O que me assombra é que as atrocidades não são cometidas sem a acedência de um povo. A sociedade é, aos poucos, insubversiva ao que acontece em sua volta, em plena consciência, concordância ou indiferença. Isso sim me assombra. Enquanto vivemos o momento, enquanto não entramos pra “história”, somos incapazes de perceber o que acontece conosco. Sucumbimos a cegueira de viver o momento.

Se os judeus, um povo nobre e tradicional, não foram poupados da truculência, o que diremos dos povos africanos e seu holocausto causado pelos ingleses durante o século XIX? (E dos conflitos até hoje, herança da sua colonização bárbara). Que os campos de concentração não foram ideia do Hitler já sabemos. O que me pergunto é porque deixamos de passar a limpo tais questões. (Tantas questões!).

Li esses dias o livro “Discursos que mudaram o Mundo” da Folha de São Paulo e entre vários interessantes, me chamou a atenção o discurso de Harry S. Truman em 1945, quando estava presidente dos Estados Unidos e dirigiu ao congresso e ao povo norte americano suas palavras centradas no nacionalismo e no delírio recém-pós-guerra, onde tudo parece fazer sentido, quando nada faz. Foi desse discurso o grande estímulo para o teste das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki que mudou toda a percepção humana sobre armas bélicas. Bombas que mudaram a rota da guerra, discurso que fadou a rota das bombas.

Hoje, todos nós concordamos que o fato consumado foi nada menos que um crime de guerra. Um ato terrorista que até hoje indulta os EUA (tantos atos que já perderam-se em números cardiais...). A humanidade conseguiu chorar por Hiroshima e Nagasaki e entender o que aconteceu quando já era tarde. Mas naquele ano, tudo pareceu tão coerente e tão normal diante do cenário! Era mais uma estratégia de guerra. Um aviso do tipo “I've got the power!”. Inconscientemente, um mundo doente e anormal.

Vinícius de Moraes... o que dizer de vós?


A Rosa de Hiroshima é uma das coisas que me faz ser fascinada pela humanidade. Eternizada pela voz e interpretação de Ney Matogrosso, me levou essa semana, sozinha numa charmosa e singela cafeteria, a um café reflexivo sobre tudo isso que escrevi. 


A Rosa de Hiroshima
Vinícius de Moraes

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh! Não se esqueçam
Da rosa, da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor, sem perfume
Sem rosa, sem nada.