A
história humana me fascina. E me assombra.
Me
deixa espantada a capacidade humana de inverter valores e desconstruir acordos
morais e éticos. Digo isso porque a moralidade nada mais é que um acordo de
como deve-se viver em sociedade. Esse acordo muitas vezes privilegia, exclui, e
é construído com o próprio tempo e cultura de um povo, mas não entrarei nesse
mérito.
Ocorre
que em todo processo humano, observamos a detenção coletiva da consciência
sobre a ética e a moral por um interesse maior. Maior, muitas vezes, que a
própria paz e bem estar coletivo. Daí observamos as barbaridades e os
genocídios que mancham de sangue nossos dias, o passado, o presente e nosso
futuro. O que me incomoda na realidade não é isso.
O
que me assombra é que as atrocidades não são cometidas sem a acedência de um
povo. A sociedade é, aos poucos, insubversiva ao que acontece em sua volta, em
plena consciência, concordância ou indiferença. Isso sim me assombra. Enquanto
vivemos o momento, enquanto não entramos pra “história”, somos incapazes de
perceber o que acontece conosco. Sucumbimos a cegueira de viver o momento.
Se
os judeus, um povo nobre e tradicional, não foram poupados da truculência, o
que diremos dos povos africanos e seu holocausto causado pelos ingleses durante
o século XIX? (E dos conflitos até hoje, herança da sua colonização bárbara).
Que os campos de concentração não foram ideia do Hitler já sabemos. O que me
pergunto é porque deixamos de passar a limpo tais questões. (Tantas questões!).
Li
esses dias o livro “Discursos que mudaram o Mundo” da Folha de São Paulo e
entre vários interessantes, me chamou a atenção o discurso de Harry S. Truman
em 1945, quando estava presidente dos Estados Unidos e dirigiu ao congresso e
ao povo norte americano suas palavras centradas no nacionalismo e no delírio
recém-pós-guerra, onde tudo parece fazer sentido, quando nada faz. Foi desse discurso
o grande estímulo para o teste das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki que
mudou toda a percepção humana sobre armas bélicas. Bombas que mudaram a rota da
guerra, discurso que fadou a rota das bombas.
Hoje,
todos nós concordamos que o fato consumado foi nada menos que um crime de
guerra. Um ato terrorista que até hoje indulta os EUA (tantos atos que já
perderam-se em números cardiais...). A humanidade conseguiu chorar por Hiroshima
e Nagasaki e entender o que aconteceu quando já era tarde. Mas naquele ano,
tudo pareceu tão coerente e tão normal diante do cenário! Era mais uma
estratégia de guerra. Um aviso do tipo “I've got the power!”. Inconscientemente,
um mundo doente e anormal.
Vinícius
de Moraes... o que dizer de vós?
A
Rosa de Hiroshima é uma das coisas que me faz ser fascinada pela humanidade.
Eternizada pela voz e interpretação de Ney Matogrosso, me levou essa semana, sozinha numa
charmosa e singela cafeteria, a um café reflexivo sobre tudo isso que escrevi.
A
Rosa de Hiroshima
Vinícius
de Moraes
Pensem
nas crianças
Mudas
telepáticas
Pensem
nas meninas
Cegas
inexatas
Pensem
nas mulheres
Rotas
alteradas
Pensem
nas feridas
Como
rosas cálidas
Mas
oh! Não se esqueçam
Da
rosa, da rosa
Da
rosa de Hiroshima
A
rosa hereditária
A
rosa radioativa
Estúpida
e inválida
A
rosa com cirrose
A
antirrosa atômica
Sem
cor, sem perfume
Sem
rosa, sem nada.