domingo, 21 de maio de 2017

O Biro e a Corrupção

Era uma cooperativa de reciclagem. Um novo desafio em minha vida. Eu era tão nova e precisava ser madura naquele espaço. Eles eram em 50. Homens, mulheres, jovens, velhos, brancos, negros e pardos. Ex-reclusos, dependentes de álcool, drogas, bolsa família. Era uma soma de desafios. Todas as variáveis que comportam um negócio somados à sua peculiaridade.

De uma coisa eu sabia: tinha que ganhar a confiança deles. Minha melhor arma era o carisma que tive que tirar da cartola já que nunca foi meu forte. Todos os dias de manhã eu descia no galpão pra desejar um bom dia pra cada um que trabalhava internamente. Procurava almoçar no refeitório junto com eles, cada dia procurando sentar com um grupo diferente. Perguntava a eles coisas simples. Pedia dicas, que explicassem o que faziam e me ensinassem. 

Meu primeiro mês foi difícil. Eram muito desconfiados. Os mais velhos foram os que cederam primeiro e aos poucos, fui incluída na vida deles. Mas a amizade mais difícil que eu fiz foi com o Biro.

Ele tinha 62 anos quando entrei lá. Era um homem magro e baixinho, quase menor que eu. Cabelos e barba grisalhas e uma feição humilde e simpática. Tinha as mãos ásperas e sujas, mas pequenas e ágeis que junto a sua honestidade incontestável, era o seu diferencial para a cooperativa. Ele era o separador de materiais nobres. Ouro, prata e cobre tirados de placas mãe e outras peças de materiais eletrônicos ficavam com o Biro. Apenas ele tinha a chave do quartinho onde guardava os materiais separados e ele mesmo vendia no final do mês. Ele era um cooperado fundamental, era de confiança e fazia seu trabalho com muita eficiência.

Mas o Biro era extremamente tímido. Não falava muito com ninguém. Ele ria das piadas alheias na hora do almoço e sorria pra todo mundo. Mas pouco falava. Os meus “bons dias”, respondia com um aceno, de cabeça baixa. Depois de um tempo fui entender o porquê. O Biro tinha dificuldade na fala. Tinha a língua presa e quase nenhuma dicção. Sua fala era parecida com a de um fanho e o tornava quase incomunicável.

Quando descobri isso, resolvi investir na confiança do Biro. Além do bom dia, fazia perguntas que dava-lhe o poder de responder apenas acenando “sim ou não” com a cabeça. E aos poucos ele foi se soltando. Um dia, cheguei apressada e não desci no galpão pra falar com eles. Pouco depois, na metade da manhã, alguém bateu na porta da minha sala. Era o Biro com um sorriso de orelha a orelha. Me disse com todo o seu embaraço na fala:

- Bom dia, flor do dia! Se Maomé não vai até a montanha, a montanha vai a Maomé!

Fechou a porta e foi embora. Neste dia tive a certeza: criamos um vínculo.

Depois de um tempo aprendi a decifrar a fala do Biro. O convívio facilitou. E um dia, na hora do almoço, enquanto ele me contava um causo sem ponto nem virgula, me peguei pensando no início de tudo e de como evoluímos.

Certo dia, o Biro me pediu um favor. Me contou que fazia alguns meses que estava recebendo o pagamento no mês na sua conta, que era na faixa de R$900,00 mas o banco estava tomando R$500,00 de tarifa. Ele explicou que pegou um empréstimo do banco mas fazia mais de um ano que já estava pago. Queria ir ao banco resolver esse problema mas não conseguia se comunicar com a gerente. Prontamente aceitei ajudá-lo e na mesma tarde descemos até a agência.

O Biro falava e eu, ao seu lado, traduzia seu impasse pra gerente à nossa frente.

Analisando os dados bancários do Biro, a gerente ficou confusa.

- Não temos no sistema nenhuma cobrança da sua conta, senhor!

- Você pode tirar o extrato de pelo menos três meses pra gente dar uma olhada juntos, por favor? – Pedi a ela.

- Vou tirar de seis meses.

Ela se levantou, pegou os extratos impressos e nos entregou. 
Olhando junto com o Biro eu percebi que todos os meses havia dois saques no mesmo dia. E era no dia do pagamento. Mostrei pra ele que olhou sem entender nada. Me disse que tinha dificuldades de manusear o cartão no caixa eletrônico, assim como a senha. Então, todos os meses, ele chamava sua filha que tinha por volta dos trinta anos e já era casada, que o auxiliava no caixa eletrônico e retirava de uma vez só todo o dinheiro da conta. Sua filha até mostrava pra ele o saldo antes do saque. De fato, o Biro era idoso e semianalfabeto. Sua dificuldade era compreensível.

Ficamos nós três sem entender o que estava acontecendo com o sumiço do dinheiro do Biro. 
Foi a gerente quem teve a ideia que resolveu o caso. Ela sugeriu de pegar as gravações das câmeras do banco, nos dias e horas dos saques registrados no extrato da conta.

Quando ela chegou com as imagens foi uma surpresa nada agradável. 
O segundo saque era realizado à tarde, perto das 18h, e mostrava o Biro e sua filha no caixa eletrônico. A primeira imagem era no mesmo dia, no período da manhã e mostrava a filha do Biro sozinha.

Olhamos todas as imagens e em todos os meses era a mesma situação.

Olhei pra gerente que refletiu meu olhar infeliz. Olhamos pro Biro, ele estava com os olhos nas imagens e com o olhar perdido em pensamentos. Pus minhas mãos nas costas do Biro num gesto de carinho.

- Eu sinto muito, meu amigo!

Um nó na garganta me apossou quando o Biro olhou nos meus olhos. Era desolação, era profunda decepção, era um olhar incrédulo e triste. Eu me tomei de raiva, minha vontade era caçar a filha dele e enchê-la de pancada. Mas eu precisava manter a postura ali.

- Por favor, bloqueie o cartão do Biro. É possível que ele cadastre a digital quando chegar o novo cartão? – Perguntei.

- Sim, claro! Vou providenciar isso.

- Biro, vai ser assim, vamos bloquear seu cartão e pedir outro. Quando o novo chegar, venho com você na agência pra gente cadastrar sua digital e eu vou te ensinar a sacar com a digital. Se não chegar o cartão até mês que vem, eu peço pra te pagarem em cheque, tudo bem? Quanto a sua filha, Biro, é uma atitude que você tem que tomar sozinho. E você é adulto e pai, vai saber o que fazer, certo?

Ele não disse mais nada. Abaixou a cabeça e acenou concordando. Eu agradeci a gerente e saí da agência com o Biro. 

Não tentei consolá-lo. O nó na minha garganta prevalecia pra isso. Me despedi do Biro na rua com um abraço e fui embora, com postura rígida, sem olhar pra trás.

Já perto da minha casa, numa praça, eu resolvi parar. Sentei no banco à sombra de uma árvore e por fim respirei. Respirei e respirei. E depois, pus minhas mãos sobre o rosto e desabei. Chorei alto e incontrolável como uma criança. Eu sentia raiva, tristeza, pena. Incrédula praguejei com Deus: “Com o Biro? Com o mais honesto e doce? Com o coração mais puro? Por quê?”


Fiquei por ali, com minha birra adolescente lamentando a crueldade do mundo por quase uma hora. Cheguei em casa com os olhos fundos e vermelhos. E naquele dia, cresci mais um pouquinho. 

Não posso dizer que me acostumei com as truculências da vida. Também não posso dizer que me tornei mais forte e que hoje não choraria por isso. Os calvários alheios ainda me tocam, ainda choro pelos outros, talvez mais que por mim. 

Mas essa história não é sobre o que sinto. É sobre esse meu momento com o Biro, é sobre aquele olhar magoado que me foi compartilhado, aquele momento da vida que compartilhamos sentimentos, ainda que ruins. 

Me fez crescer. O Biro segue comigo em meu coração, assim como este episódio que me faz lembrar que a índole, o caráter, nem sempre é de berço. 

É uma escolha individual. 
É um caminho.