Era
uma cooperativa de reciclagem. Um novo desafio em minha vida. Eu era tão nova e
precisava ser madura naquele espaço. Eles eram em 50. Homens, mulheres, jovens,
velhos, brancos, negros e pardos. Ex-reclusos, dependentes de álcool, drogas,
bolsa família. Era uma soma de desafios. Todas as variáveis que comportam um
negócio somados à sua peculiaridade.
De
uma coisa eu sabia: tinha que ganhar a confiança deles. Minha melhor arma era o
carisma que tive que tirar da cartola já que nunca foi meu forte. Todos os dias
de manhã eu descia no galpão pra desejar um bom dia pra cada um que trabalhava
internamente. Procurava almoçar no refeitório junto com eles, cada dia
procurando sentar com um grupo diferente. Perguntava a eles coisas simples.
Pedia dicas, que explicassem o que faziam e me ensinassem.
Meu primeiro mês foi
difícil. Eram muito desconfiados. Os mais velhos foram os que cederam primeiro
e aos poucos, fui incluída na vida deles. Mas a amizade mais difícil que eu fiz
foi com o Biro.
Ele
tinha 62 anos quando entrei lá. Era um homem magro e baixinho, quase menor que
eu. Cabelos e barba grisalhas e uma feição humilde e simpática. Tinha as mãos
ásperas e sujas, mas pequenas e ágeis que junto a sua honestidade incontestável,
era o seu diferencial para a cooperativa. Ele era o separador de materiais
nobres. Ouro, prata e cobre tirados de placas mãe e outras peças de materiais
eletrônicos ficavam com o Biro. Apenas ele tinha a chave do quartinho onde guardava
os materiais separados e ele mesmo vendia no final do mês. Ele era um cooperado
fundamental, era de confiança e fazia seu trabalho com muita eficiência.
Mas
o Biro era extremamente tímido. Não falava muito com ninguém. Ele ria das
piadas alheias na hora do almoço e sorria pra todo mundo. Mas pouco falava. Os
meus “bons dias”, respondia com um aceno, de cabeça baixa. Depois de um tempo
fui entender o porquê. O Biro tinha dificuldade na fala. Tinha a língua presa e
quase nenhuma dicção. Sua fala era parecida com a de um fanho e o tornava quase
incomunicável.
Quando
descobri isso, resolvi investir na confiança do Biro. Além do bom dia, fazia
perguntas que dava-lhe o poder de responder apenas acenando “sim ou não” com a
cabeça. E aos poucos ele foi se soltando. Um dia, cheguei apressada e não desci
no galpão pra falar com eles. Pouco depois, na metade da manhã, alguém bateu na
porta da minha sala. Era o Biro com um sorriso de orelha a orelha. Me disse com
todo o seu embaraço na fala:
-
Bom dia, flor do dia! Se Maomé não vai até a montanha, a montanha vai a Maomé!
Fechou
a porta e foi embora. Neste dia tive a certeza: criamos um vínculo.
Depois
de um tempo aprendi a decifrar a fala do Biro. O convívio facilitou. E um dia, na
hora do almoço, enquanto ele me contava um causo sem ponto nem virgula, me
peguei pensando no início de tudo e de como evoluímos.
Certo
dia, o Biro me pediu um favor. Me contou que fazia alguns meses que estava
recebendo o pagamento no mês na sua conta, que era na faixa de R$900,00 mas o
banco estava tomando R$500,00 de tarifa. Ele explicou que pegou um empréstimo do
banco mas fazia mais de um ano que já estava pago. Queria ir ao banco resolver
esse problema mas não conseguia se comunicar com a gerente. Prontamente aceitei
ajudá-lo e na mesma tarde descemos até a agência.
O
Biro falava e eu, ao seu lado, traduzia seu impasse pra gerente à nossa frente.
Analisando
os dados bancários do Biro, a gerente ficou confusa.
-
Não temos no sistema nenhuma cobrança da sua conta, senhor!
-
Você pode tirar o extrato de pelo menos três meses pra gente dar uma olhada
juntos, por favor? – Pedi a ela.
-
Vou tirar de seis meses.
Ela
se levantou, pegou os extratos impressos e nos entregou.
Olhando junto com o
Biro eu percebi que todos os meses havia dois saques no mesmo dia. E era no dia
do pagamento. Mostrei pra ele que olhou sem entender nada. Me disse que tinha
dificuldades de manusear o cartão no caixa eletrônico, assim como a senha.
Então, todos os meses, ele chamava sua filha que tinha por volta dos trinta
anos e já era casada, que o auxiliava no caixa eletrônico e retirava de uma vez
só todo o dinheiro da conta. Sua filha até mostrava pra ele o saldo antes do
saque. De fato, o Biro era idoso e semianalfabeto. Sua dificuldade era compreensível.
Ficamos
nós três sem entender o que estava acontecendo com o sumiço do dinheiro do
Biro.
Foi a gerente quem teve a ideia que resolveu o caso. Ela sugeriu de pegar
as gravações das câmeras do banco, nos dias e horas dos saques registrados no
extrato da conta.
Quando
ela chegou com as imagens foi uma surpresa nada agradável.
O segundo
saque era realizado à tarde, perto das 18h, e mostrava o Biro e sua filha no
caixa eletrônico. A primeira imagem era no mesmo dia, no período da manhã e
mostrava a filha do Biro sozinha.
Olhamos
todas as imagens e em todos os meses era a mesma situação.
Olhei pra gerente que refletiu meu olhar infeliz. Olhamos pro Biro, ele estava
com os olhos nas imagens e com o olhar perdido em pensamentos. Pus minhas mãos
nas costas do Biro num gesto de carinho.
- Eu
sinto muito, meu amigo!
Um
nó na garganta me apossou quando o Biro olhou nos meus olhos. Era desolação,
era profunda decepção, era um olhar incrédulo e triste. Eu me tomei de raiva,
minha vontade era caçar a filha dele e enchê-la de pancada. Mas eu precisava
manter a postura ali.
-
Por favor, bloqueie o cartão do Biro. É possível que ele cadastre a digital
quando chegar o novo cartão? – Perguntei.
-
Sim, claro! Vou providenciar isso.
- Biro,
vai ser assim, vamos bloquear seu cartão e pedir outro. Quando o novo chegar,
venho com você na agência pra gente cadastrar sua digital e eu vou te ensinar a
sacar com a digital. Se não chegar o cartão até mês que vem, eu peço pra te
pagarem em cheque, tudo bem? Quanto a sua filha, Biro, é uma atitude que você
tem que tomar sozinho. E você é adulto e pai, vai saber o que fazer, certo?
Ele
não disse mais nada. Abaixou a cabeça e acenou concordando. Eu agradeci a
gerente e saí da agência com o Biro.
Não tentei consolá-lo. O nó na minha garganta
prevalecia pra isso. Me despedi do Biro na rua com um abraço e fui embora, com
postura rígida, sem olhar pra trás.
Já
perto da minha casa, numa praça, eu resolvi parar. Sentei no banco à sombra de
uma árvore e por fim respirei. Respirei e respirei. E depois, pus minhas mãos
sobre o rosto e desabei. Chorei alto e incontrolável como uma criança. Eu
sentia raiva, tristeza, pena. Incrédula praguejei com Deus: “Com o Biro? Com o
mais honesto e doce? Com o coração mais puro? Por quê?”
Fiquei
por ali, com minha birra adolescente lamentando a crueldade do mundo por quase
uma hora. Cheguei em casa com os olhos fundos e vermelhos. E naquele dia,
cresci mais um pouquinho.
Não posso dizer que me acostumei com as truculências
da vida. Também não posso dizer que me tornei mais forte e que hoje não
choraria por isso. Os calvários alheios ainda me tocam, ainda choro pelos
outros, talvez mais que por mim.
Mas essa história não é sobre o que sinto. É
sobre esse meu momento com o Biro, é sobre aquele olhar magoado que me foi
compartilhado, aquele momento da vida que compartilhamos sentimentos, ainda que
ruins.
Me fez crescer. O Biro segue comigo em meu coração,
assim como este episódio que me faz lembrar que a índole, o caráter, nem sempre
é de berço.
É uma escolha individual.
É um caminho.