Café com pão
Café com pão
Virge Maria, o que foi isso maquinista?
Agora sim,
Café com pão (...)
Esse é um trecho do poema Trem de Ferro de Manuel Bandeira publicado em 1936.
Quando eu estava na quinta série do ensino fundamental, eu tive uma professora de português que era bem velhinha. Talvez ela não fosse tão idosa assim, mas nas minhas lembranças de criança ela me parece bem velha. Sua voz já era voz de pele enrugada e de cabelos brancos.
Eu não me lembro de muita coisa da escola, sabe? Acho que não foi uma fase boa da minha vida. Tenho certos bloqueios dessa época... Mas eu lembro de algumas cenas, lembranças pontuais. Reconheço em minha falha memória essa professora. Lembro que ela era apaixonada por letras e por ensinar. Ela insistia muito nos temas, ela gostava de vencer a gente pelo cansaço, nunca desistia de nós. Sim, chegava a ser irritante!
Certo dia, ela trouxe pra nós esse poema de Bandeira. Ela leu ele algumas vezes e a gente, claro, achou um tédio só. Mas ela pretendia ensinar ele de uma maneira muito criativa.
Ela nos fez recitá-lo como se fosse realmente um trem apitando da estação. Dividiu a turma em dois grandes grupos. O primeiro "Café com pão" era um lado da sala quem falava, o segundo, o outro lado. Escolheu os dois meninos mais atentados da sala pra declamar: "Virge Maria, o que foi isso maquinista?" E a sala toda: "Agora sim, café com pão"... Assim ela decorreu o poema todo conosco.
- Mais alto! Mais alto! - Ela estimulava.
- Café com pão, Café com pão... - E aos poucos, fomos rendidos!
Ao final da aula, podia-se ouvir de fora da sala aquele transe que ocorria: todo mundo concentrado no poema, cada um exercendo seu papel dentro dele e transformando aquela aula de português no mais estimado aprendizado da infância.
Estimado sim! E digo o porquê.
Hoje tenho quase 30 anos. Me transformei naquilo que eu mais temia quando era adolescente: uma adulta bem comum! Que faz aquelas coisas bem comuns de adulto: trabalhar, estudar, limpar a casa, comer, dormir, desfrutar pequenos prazeres da vida etc e tal. Mas quero compartilhar uma coisa que eu faço até hoje. Acho que já virou uma mania, sempre vou fazer, mesmo sem querer.
Quando eu preciso resolver algum problema que não vejo solução, ou quando estou sob pressão, ou ainda quando preciso cumprir uma meta difícil, internamente começo a declamar e aflora em mim uma estação e um trem cheio de apitos...
Café com pão
Café com pão
Café com pão
Virge Maria, o que foi isso maquinista?
E isso me ajuda a pensar. É como um cronômetro interno, um medidor de respiração. É uma magia que internalizou.
Agora sim,
Café com pão
Agora sim
Voa fumaça
corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo na fornalha
que preciso
Muita força
Muita força
Muita força (...)
Voa fumaça
corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo na fornalha
que preciso
Muita força
Muita força
Muita força (...)
E de repente fica menos pesado pra mim.
Foi Manoel quem escreveu isso tudo. Foi ele lá, em 1936.
Mas isso nunca teria chegado a mim e nunca faria a menor diferença na minha vida se não fosse aquela professorinha. Aquela mulher preocupada e persistente com seus alunos. Que fez o apito do trem cantar naquela sala de aula e que pra sempre cantou pra mim.
É por isso que digo uma coisa sobre os professores: talvez eles nunca saibam, o tanto que nos fazem.