segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Cristal, a Cadelinha Muito Louca



Não tenho costume de falar de animais. Minha percepção sobre os bichos é nivelada demais pra isso. Acho que o ser humano é o animal mais egoísta quando trata seus companheiros de táxon. Amamos uns bichos, comemos outros. Temos a hipocrisia de classificar os animais por inteligência e beleza, quando ambos critérios nem sempre são verdadeiros. Classificamos mesmo por puro interesse e egoísmo. 

Por isso, às vezes me falam que sou um pouco fria com animais de estimação. Não sou fria. É que como carne. Como vaca e porco e comeria um cachorro também, se necessário fosse. Não julgo os chineses (Que absurdo!!!). Até que eu consiga me libertar dessa fraqueza que é comer salame e costelinha (pois realmente acho que o mundo seria melhor sem humanos carnívoros, mais sem graça, mas melhor) pois estou em processo de libertação, trato todos os animais igualmente. E tento respeitá-los, todos eles. Mesmo os que eu como. Tenho plena consciência de que um ser vivo morreu pra me alimentar, tanto o toucinho quanto a rúcula, reservando a cada um, seu grau de sofrimento à morte, (respeitem as plantas, são seres vivos e não matam ninguém pra produzir o próprio alimento, amém?). 

Mas é isso. Gastei todo esse tempo só pra começar a falar da Cristal, nossa cachorrinha. Pegamos apreço e amor por tudo aquilo que convivemos e cuidamos. Seja uma planta, seja um outro ser humano, seja um outro animal. E se latir e te olhar com aquela carinha de pidão então, nos apaixonamos. A Cristal é apaixonante, ela eu não comeria. 

A Cristal é uma vira-lata maneira. De tamanho médio, tem os pelinhos claros, que são loiros quando estão grandes e branquinhos quando tosa. Mas ela é forte. E apesar de não ser tão nova, brinca como um filhote. Você não pode dar muita “trela”. Ela enlouquece. 

Na verdade, ela é completamente doida. Ela tem uns lapsos de felicidade que não consegue controlar. Quando chegamos em casa, temos que nos preparar, ela explode a saudade dela pegando impulso de longe, correndo em disparada em direção a nós e dá aquele pulo que quase nos derruba no chão e suja todas as calças alvos. As calças são a prova da existência da Cristal. Todos de casa têm pelo menos uma calça marcada com as patinhas dela. Outra coisa que deixa ela neurótica é muita gente em casa. Ela fica tão feliz que falta falar. Pula que nem canguru. Corre de um lado pro outro, parece drogada (já desconfiei que davam droga pra ela de tão louca que ela fica, mas é o jeitão dela mesmo). Mas como todo cachorro ela é folgada. Você pisca e a Cristal folga. Ela sabe que é proibido morder as coisas e subir na cama por exemplo e se ninguém perceber, ela faz assim mesmo. E é esperta. Faz cara de pidona, de dó, de culpada, de desentendida, de brava, de feliz, de louca, e acredite se quiser, até esnobe ela sabe ser. Dá pra imaginar ela pensando “Não vai dar esse biscoito, mesmo? Foda-se!” Tem todas as feições que um cachorro esperto pode ter. 

Mas uma coisa que a Cristal faz sempre e que me deixa completamente fã dela é uma coisa que quase nenhum cachorro faz. E é o que me motivou escrever aqui sobre ela.
Temos amigos que tem cachorros e às vezes levam eles em casa pra brincar com a Cristal. Quando outro cachorro vai em casa, a Cristal falta morrer de alegria, fica louca. Logo faz amizade com qualquer um. Assim que algum amiguinho canino chega, a Cristal dá as boas-vindas pulando e rodeando o convidado. Dá umas lambidas e depois entra dentro de casa, sempre olhando pra trás pra ver se está sendo seguida por ele. Então ela vai até seu cantinho, e empurra com o focinho seu pote de comida e de água pro amiguinho. E senta do lado, satisfeita se o visitante aceita sua oferta. Esse gesto da Cristal me enche de afeição. 

A primeira vez que vi ela fazendo isso eu estava sentada na cozinha, trabalhando no computador. Perdi até o raciocínio do que eu estava fazendo, vendo aquela cena, que se repetiu várias vezes. E lembrei de algumas coisas. A Cristal, antes de ser adotada era uma cachorrinha de rua. Deve ter passado poucas e boas atrás de comida e abrigo. E agora que está rodeada de pessoas que cuidam dela, com tanta fartura, seu instinto age desse jeito. O instinto de sobrevivência. De solidariedade. Acho isso sensacional na Cristal. 

E por isso até perdoo as minhas duas calças manchadas com suas patinhas e quando ela quase me derrubou na lama, ou quando eu cheguei e ela estava deitada na minha cama e eu tive que trocar todos os lençóis ou...

Ela é um animalzinho especial.