Tenho sofrido, com certa dignidade, por saber da pasta subestimada que passam em meu pão. Acalento essa dor, de lembrar de erros bobos que cometo e de pensar no tanto que sou capaz e aqui me encontro, estagnada. No final das contas, é só a frustração generalizada de uma memória juvenil que já quis salvar o mundo.
Passei dessa fase, aliás. Desde que assisti Pobres Criaturas e vi a Bela, belamente interpretada pela Emma Stone, se despedaçar ao ver crianças morrendo de fome, tive uma sensação de cumplicidade com o momento. Sofri por perder a inocência tanto quanto e aceitei que o mundo é cruel. Hoje, caminhando rumo à frustração da meia idade sem grandes virtudes, me pego pensando em dinheiro (ou a falta dele), mais do que acho justo de mim.
Ontem, uma amiga me disse "dá pra entender quem se droga". Sim! Dá mesmo. Está um tanto dificultoso caminhar por essa vida, que parece cada dia mais distante da harmonia que um dia eu quis pra mim e para todo mundo. Além disso, me pego no auge dos meus trinta e tantos anos sem entender ainda meu ciclo menstrual. Com a ajuda de tecnologia barata, acompanho há dois anos as luas do meu corpo, marcando cada passo e sintomas, os dias que vem e que param de vir, as dores de cabeça e o mau humor, na esperança de entender minha própria máquina viva, até agora sem sucesso. Não há lógica nem nos atrasos. Um ciclo totalmente descompensado que nenhum exame de rotina foi capaz de entender. Então tá. Vou aceitar, então. O tempo pode me punir por usar por tantos anos anticoncepcional.
Assim, sigo, desconfiando de mim mesma. Parece que a qualquer momento que eu me descuidar, ele vai dar o bote e me fazer gerar uma criança, já que eu não consigo controlar naturalmente sua rotina, o jeito é viver redobrando o cuidado. Não dá pra relaxar e gozar!
Tenho perdido muito tempo como coisas fúteis e me pego pensando se é pra vida passar mais rápido que faço isso. As vezes, não vejo outro sentido pra viver de forma melhor, mesmo sabendo que há outros caminhos.
Minhas desilusões são comigo mesma. Eu fracasso com aquela jovem que fui. Certa saudade me bate da energia que colocava em coisas com propósito.
Esse ano me coloquei dois desafios, o primeiro, de ler um livro a cada quinze dias, como eu fazia naquela época. O outro, de aprender outra língua. Estou fracassando miseravelmente nessas duas áreas, apesar de todos os dias pensar nisso. É uma retroalimentação do fracasso da alma, de quem não tem forças nem motivação pra ser uma pessoa melhor.
Quando eu era jovem, achava os adultos muito passivos em relação ao mundo. Sim, posso sentir isso agora. Me tornei isso, desse modo nada sutil.
Então, me encontro ancorada numa vida de poucas vibrações. Sinto minha energia boa sendo sugada a cada dia pela força do trabalho capitalista que me toma bastante do tempo, enquanto perco outra parte do tempo que me resta com coisas nada construtivas, colocando em carrinhos de compra bobagens sem fim, largando os carrinhos cheios de um aplicativo pra outo, vendo a vida passar de forma miserável. Ostracismo fiel que me rouba a cada dia a memória e a capacidade de aprender.
Entendo a revolta daquela jovem que fui com os adultos e sofro no espelho olhando resquícios dela se apagando.
Não sei mais se posso resgatá-la.
Me peguei fazendo uma coisa horrível pra essa menina que um dia fui. Tomei remédios para dormir. E eu preferi dormir! Eu me forcei a apagar, não só porque precisava descansar: caí na lama do desespero dos aflitos, na janela dos afogados, naquele lugar preocupante que é o de preferir estar dormindo que acordada.
É mais trágico que triste, garanto.
A vida é tragédia mesmo. E não dá pra fugir. Todo mundo uma hora, solta a mão de todo mundo.