Esse é mais um conto. Pouco pragmático
e não menos verdadeiro que nós.
Sinto muito, não é erótico.
Ela não tinha nome, nem sobrenome,
nem endereço certo. Mal sabia-se sobre ela, apesar de saber muito e mais que o
suficiente para as suas intenções.
Ele, um homem das sombras.
Que insistia em não se revelar. Não lhe dava o gosto de ser transparente e
assim, com certo humor sádico revelava-se em doses homeopáticas.
Um dia, nem chuva nem frio.
Não havia certeza do brilho da lua, nem do perfume das flores. Não havia nada
de especial, nem mesmo sábado era! (Era apenas um dia), eles se encontraram.
Havia apenas uma certeza nesse dia: não era dia, era noite. E sempre seria.
Numa conversa casual, dessas
que ele estava acostumado, mas recheada de novidades pra ela. A intenção dela
era clara: aperfeiçoar o idioma estrangeiro, que sempre foi imbróglio em sua
vida.
A dele? Caçar, talvez?
Das casualidades dela,
sempre a mesma falácia: - de onde é, qual sua idade, seu nome, por que está
aqui, o que gosta de fazer, tem contato? – Tedioso.
Até que algo chamou sua
atenção. Não foi a picardia de se denominar um agente secreto. Mas a astúcia
das respostas não convencionais com seu português impecavelmente atrativo. Ela
já havia se deparado com algo semelhante. Um médico coroa, com seus quarenta e
poucos anos. Há alguns anos jogou seu feitiço escabioso nela e por pouco não
lhe alcança o coração. Salvou-se por muito pouco.
Logo lhe veio a mente
tratar-se da mesma espécie. Homem de meia idade que trabalha muito e tem pouco
tempo pra socialização. Mas muitas mulheres.
Quase isso.
Papo vai, papo vem. O interessante
tornou-se intrigante. A indiferença e ao mesmo tempo uma atenção despreocupada
de ambos tornou a conversa casual num filme a dois. Um filme às escuras. Um
filme que nunca deu certo. E agora tinham um assunto referencial.
Sem combinação e ajuste de
tempo, encontravam-se na calada da noite e passavam a madrugada em devaneio, discorrendo
sobre diversos assuntos interessantes e bobos, de puro gracejo sexual, disparidades
da vida a gracejo sexual, novamente.
A comodidade de saber a
distancia e ao mesmo tempo essa raiva que os sondava, davam-lhe vontade.
Vontade com “dii” paulista. Vontade com “de” nordestino.
O homem das sombras era
diferente. E ao mesmo tempo comum. Sua notória falta de modéstia, arrogância e
um pouco de prepotência, seu apetite sexual insaciável, sua explícita cara de
pau, seu gosto por “Clube da Luta” e seu gosto horroroso pelo mais adolescente
simplório das bandas de rock, eram previsíveis. Mas ele era engenhoso,
articulado, um humor inteligente, sagaz, esperto e astuto, tinha a manha de
causar curiosidade, e surpreendeu ao se dar tão devagar e traiçoeiro.
Não se podia ver o homem das
sombras. E sua vida era um baú trancado. Ao passo que era desconfiado, não
acreditava muito no que ela falava, mesmo repetindo mil vezes a mesma coisa.
Mas se podia ouvir sua voz e ela, com toda certeza, confirmava sua
personalidade singular.
Era uma voz cheia,
enfrascada, nublada. Suas palavras saiam lenta e sorrateiramente com um sotaque
carregado, desses que não se ouve em qualquer lugar. Falava com pausas, com
risos discretos, sentia-se sua respiração do outro lado, e às vezes era
possível sentir sua raiva, seu tédio, sua curiosidade, e na sua roquidão, sua
vontade (com “de” nordestino) dela.
Ele era sincero, sem
demagogias, com certa rispidez e arrogância que a incomodava um pouco, mas com
aceitação.
Ela era mais transparente,
suas verdades eram postas na mesa, porém menos direta, um pouco confusa,
cansada talvez, mal acostumada com a madrugada. Era uma mulher do dia e não da
noite. Sentia uma certa graça naquilo tudo e aproveitava a liberdade do
momento. Abusava daquela genialidade pro seu próprio prazer e guardava na
memória cada ensinamento da mente masculina do perfeito cafajeste que lhe dava
informações sinceras.
Um bom amante. Era o que ele
queria ser. Sua boca tinha gosto de liberdade e isso a deixava mais atraída
ainda. Ela também saciava-se da emancipação, da soberania. E saber que a
atração era mútua, vívida e que o desejo era insaciável, utópico, os unia.
Não. Não foi amor. Apesar de
que "fazer amor" continua sendo literariamente muito mais sexy.
Foi momento. Viver o
momento. Ambos tinham que aproveitar isso. Um dia acabaria. Tudo tem um fim.
Se ele se lembrará dela?
Com certeza. Aos poucos
serão esquecidas as conversas, nossa memória é preenchida de coisas novas a
todo o momento. Mas ficará guardado
aquele vislumbre que de vez em quando o fará sorrir de canto.
Se ela pensará nele?
Sim. Irá recordar.
Quando chegar a hora certa,
idealizará uma pessoa ao seu lado, com alguns de seus melhores atributos. Menos
arrogante, pouco mais modesto, e mais doce talvez, como sorvete. Mas terá que
ser forte dessa maneira. Porque uma mulher forte, precisa de um homem muito
mais forte ao seu lado.
Como o homem das sombras é.
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